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OUTRAS GUERRAS

“É triste olhar para o homem ou mulher que amámos e sentir que já não nos desperta nada”
23 de Março de 2003 às 16:08
O mais terrível não é o fim do amor, o deslaçar da imensa ternura que leva duas almas distintas a quererem ser aquela ‘uma só’ de que tanto falam os romances, a música e outras artes. O pior não é o silêncio que se desloca matreiro por debaixo da porta dos quartos e que se instala à mesa do jantar, num peso de chumbo, como se depois de anos de vozes em uníssono nada mais pudesse acontecer senão a mudez.
Claro que os caixotes e os sacos de viagem empilhados a um canto, a aguardar a mudança, fazem pensar que afinal a falta de futuro dessa relação em que se apostou tudo se vai repetir, como um eco, pela vida fora. E que as marcas e os sonhos que andaram pelo ar, distribuídos em metros quadrados de casa, hão-de levar o seu tempo a definhar, assim como a dor se fará sentir cada vez menos, à medida que a desilusão e a tristeza baixarem o seu pó.

Mas o pior, o mais dilacerante, é quando o amor sai pela mesma porta em que entra o ódio. É quando a cabeça e o peito pedem licença para se retirar e fazer o luto, mas alguém as obriga a entrar numa guerra surda e cruel.

De um momento para o outro, casais apaixonados que previram uma vida pintada de cores harmoniosas, trocam de papel com uma velocidade estonteante e desempenham com perfeição cenas do diabo.

Mulheres doces e pacíficas descobrem-se as mais ardilosas e violentas criaturas do mundo; homens românticos e atenciosos viram carrascos com um discurso brutal e um tom de voz que já de si arrepia.
E no meio desta trágica cena de maus costumes, ficam aquelas criaturas pequenas que supostamente foram concebidas em nome do amor. Que fazer com elas, agora, que já não há amor, há ódio? Como explicar-lhes que o pai e a mãe não só estão longe da perfeição – isso talvez eles já tivessem percebido – como se afastam cada vez mais da decência?

Os filhos não são armas, são gente, um bocado de nós próprios que importa salvaguardar acima de todas as coisas. E mesmo quando as guerras conjugais atingem proporções inimagináveis, mesmo quando a cabeça, toldada, entra num rodopio de destruição, essa parte de nós tem que se manter intocável. Sob pena de estarmos a arrasar o presente e a queimar o passado, mas também a hipotecar o futuro. O nosso e o deles.

Porque um dia, um longínquo dia, quando a dor e a raiva já não forem o alimento principal da nossa existência, pode bem ser que se tenham transformado no deles, dos nossos filhos, apanhados traiçoeiramente na batalha campal do fim de uma relação.

É triste olhar para o homem ou mulher que amámos e sentir que já não nos desperta nada, além de uma memória difusa de felicidade. Mas mau, mesmo, é quando o encaramos de frente e nos deparamos com um estranho, alguém que nunca julgámos possível cruzar o nosso caminho, quanto mais partilhá-lo. Isso sim, é concluir que nada valeu a pena e que falhámos redondamente.
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