Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

“Ouvi uma voz gritar: ‘aquele gajo já lerpou’. Era eu”

A Berliet desgovernada atropelou-me durante uma emboscada. A roda dobrou a arma sobre o meu peito.
Marta Martins Silva 6 de Outubro de 2019 às 10:00

Fui para Moçambique no dia 2 de outubro de 1972 num avião fretado à TAP. Já depois do 25 de abril, em setembro de 1974, fomos visitados por uma equipa de guerrilheiros da Frelimo que iria tomar conta das nossas instalações em Pundanhar. Almoçámos juntos e descobri que a primeira emboscada que sofri foi feita por uma equipa em que eles estavam integrados. Mas também lhes disse: "Vocês têm fraca pontaria porque eu ainda aqui estou!"

Memórias de um dia quase fatal
Lembro-me bem dessa emboscada. O meu pelotão tinha sido deixado a meio do caminho com a missão de emboscar trilhos que cruzavam a picada.   Por ali andámos deambulando   por sítios e caminhos, patrulhando as margens da picada e por ali dormimos duas noites, montámos emboscadas sem sinal dos ‘Frelos’, que nos quiseram evitar.

Dois dias depois fomos integrados no regresso das viaturas agora alijadas de carga na torna viagem de SAGAL [Sociedade Agrícola Algodoeira] a Mueda. Tomámos assento nas caixas das Berliets e seguíamos rumo a Mueda, quando fomos visitados por um héli que nos atirou com pão, água e o correio.

Foi assim neste "Toca a andar! Toca a andar!" que retomámos a marcha rumo a Mueda. Um dos soldados, no seu gesto desajeitado, deixou cair do envelope ao chão da viatura a fotografia duma linda rapariga, junto   aos meus pés e ao alcance da minha mão. Apanhei-a e preparava-me para lha entregar enquanto intentei dizer: "Tens uma namorada muito bonita."

Digo intentei porque metade da frase não chegou a ter estatuto de voz e nem ele chegou a pegar a foto, nem eu cheguei a dar-lha. Ali ficou no chão, abandonada.

As rajadas de Kalashnikov troaram pelo lado esquerdo, as balas assobiavam ao nosso lado e por cima de nós. Foi saltar da viatura, correr, apontar a G3 para aquele lado e puxar o gatilho, olhos postos na mata e deu-se início ao diálogo das armas. Foram sons graves e foram sons mais agudos. Agudos, os das kalashes, mais graves os das G3. No meio deste concerto ensurdecedor, ouvi uma voz forte: "Cuidado, furriel!"

Volto o olhar e vejo o rodado esquerdo traseiro da Berliet desgovernada assaltar-me o corpo. Num gesto rápido, apoio a coronha da arma no chão e estiro-me para escapar ao atropelamento evidente. Viro a cara de novo para o outro perigo, o das armas russas, quando a roda da viatura pisa a arma dobrando-a sobre o meu peito.

E aqui eu deixei de ser. Deixei de ouvir o cantar das armas que foi-se extinguindo gradualmente nos meus ouvidos e fui adormecendo num sono relaxante, fresco, agradável. Entrei no Nirvana. Fiquei esquecido de mim.

Recuperei os sentidos quando uma chuva forte se abateu sobre este campo de batalha qual agulheta de bombeiros rescaldando o inferno. Ouvi uma voz: "Aquele gajo já ‘lerpou’".

Pensei: "Porra! Aquele gajo era eu."E teria ‘lerpado’?   Apalpei-me, vi se me sentia. Sangrava da boca e do peito. Tentei levantar-me e não conseguia. Fiquei agarrado ao matope [terreno argiloso], no chão. Demorei a perceber onde   estava. Oficiavam agora as mãos e o saber do furriel enfermeiro Elias. Tentava circundar-me o peito com ligaduras e apertava-as   como   quem   fecha   um saco de batatas. A dor estava a ficar intolerável. Depois das radiografias, o diagnóstico do major médico de serviço: "Você tem duas costelas partidas." 

Desse episódio poderia constar no Relatório da Ação, uma G3 danada e o desaparecimento em combate do cão Barata, propriedade do meu camarada furriel com o mesmo nome. Soube depois, nesse almoço após o 25 de abril, que o Barata, baralhado com a ‘festa’, tinha desertado para o lado da Frelimo e por lá ficou. Assim mesmo, agora com o estatuto de cão desertor. Tínhamos perdido uma mascote!

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)