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Padre Dâmaso: "Há algo de anárquico no português"

Aos 82 anos, o ex-capelão do Linhó questiona o aumento de reclusos e diz que as cadeias são o “reflexo do país”
27 de Maio de 2012 às 15:00
Hermano Lambers é o nome de baptismo do padre holandês
Hermano Lambers é o nome de baptismo do padre holandês FOTO: Vítor Mota

O padre que conhece as cadeias portuguesas como a palma da sua mão espanta-se com o número de reclusos, que não pára de crescer no País. 13 200 presos é “o reflexo da sociedade, que cresce sem valores”, diz sentado na sala da sua pequena casa, junto ao Estabelecimento Prisional do Linhó. Nasceu na Holanda, há 82 anos, fez-se solidário com a II Guerra Mundial, e chegou a Portugal em 1957, pela mão do cardeal Cerejeira.

- O que o levou a ser padre?

- Sempre gostei imenso de Jesus Cristo. Fui educado na Holanda, numa família católica, era o sexto filho e o mais novo. Sem dúvida, houve a influência da casa, mas também outras. Comecei muito cedo a viver intensamente o cristianismo. Vocês, que são de outro tempo, não conhecem o cristianismo do século passado. Há uma grande diferença. Depois da guerra surgiu uma nova Europa e, de modo especial após os anos 60, começou a secularização, a materialização da vida. E começámos a perder muito. Hoje em dia somos muito mais terrenos, é uma vida horizontal, não há busca de Deus, não há paixão por Jesus Cristo.

- Isso reflecte-se de que modo na sociedade?

- Este mundo é casa vez mais pobre, vivencialmente. Isto é, os ricos são os ricos e não se interessam pelos outros, os pobres são pobres e não têm oportunidades. Portugal é um país que já tem 13 mil reclusos nas cadeias e as cadeias são um reflexo do país.

- O que justifica esse aumento?

- Nunca tivemos 13 000 presos em Portugal. É um recorde.

- É uma população difícil?

- O povo português também é difícil (risos). Nem sempre é fácil, mas eles sentem quem gosta deles e sentem que eu tenho coração.

- Nestes grupos há violadores, homicidas…

- Eu escuto todos.

- Como se chega ao coração destas pessoas?

- Não forço nada, tento fazer-me amigo. Nunca pergunto a um preso o que ele fez. Olho para ele como homem. Durante uns anos, tivemos aqui um director que dizia que o crime ficou à porta. Falo com eles como falo consigo.




- Acredita que podem ser regenerados?

- Sim, mas com calma. Estou em duas cadeias, na Carregueira e aqui, no Linhó. São jovens, são difíceis. Trabalho aqui desde 1961, vivi várias gerações de jovens e nunca vivi uma tão má como esta. Não têm ideal. Vivem ao calhar, não pensam.

- Diz-se que as cadeias são escolas de crime. Concorda?

- A sociedade também é. Pode-se discutir uma cadeia, sem dúvida nenhuma. Eu aceito uma cadeia, não quer dizer que concorde com tudo o que se vive numa cadeia. Por vezes os rapazes são difíceis, e também compreendo que por vezes os guardas percam a paciência.

- Como é que os reclusos aceitam a presença de um padre?

- Aceitam bem, sou conhecido, falo na Rádio Renascença, e acham que sou um tipo um bocado especial. A maior parte aceita-me. Há uns que passam por mim sem falar, mas a maior parte aceita e não são agressivos. Dou muitas vezes rebuçados aos tipos nos pátios e eles gostam.

- Porquê rebuçados?

- Dantes dava cigarros, mas desde que começaram a falar do cancro de pulmão parei, não quero contribuir. Antigamente não se pensava nisso. Comecei a fumar com nove anos de idade, era um bocado malandro, mas depois deixei, em 1980, e também deixei de dar cigarros aqui. Eles no fundo são pobres, não têm uma vida feliz. E um rebuçado já é qualquer coisa. Gostam e até gostavam que desse mais.

- É verdade que atirava rebuçados para o chão?

- Isso é tão triste. Foi um tipo, que continua preso, que lançou essa história. Uma vez, tinha um saco de rebuçados e estava a ser atacado e não tive outro remédio do que atirar o saco…  não podia fazer outra coisa. Depois, maldosamente, disseram que eu fazia como se faz com a comida para as galinhas. Não podia fazer outra coisa, senão teria sido atacado.

- Já sofreu alguma agressão?

- Depois do 25 de Abril, tivemos aqui alguns problemas e uma vez apanhei, os óculos até saltaram (risos)




- Mesmo assim continuou?

- Logo depois fui cumprimentá-lo. É um tipo que não presta. E está preso outra vez. Há uns que fazem da cadeia a sua vida, com uma tendência tal para não fazer nada e protestar contra a sociedade. E pensam que ganham alguma coisa com isso mas vão estragando cada vez mais a sua vida.

- Não é inglório dedicar tanto a pessoas que não fazem nada por elas?

- Não. Eu adoro isto. Darei a minha vida até. Reformei-me e oficialmente já não sou capelão da cadeia do Linhó desde 2000, mas vou continuar.

“ESTÁ A CRESCER UMA IGREJA MAIS CONSCIENTE”

- Como está a fé em Portugal? No Estado Novo era quase imposto, era-se português e católico, ninguém se questionava. Que diferença nota na sociedade portuguesa?

- Por um lado, há uma Igreja mais consciente. Naquele tempo era em rebanho e hoje as pessoas fazem uma opção. São mais conscientes, sabem porque são cristãs. Está a crescer uma Igreja mais pequena mas mais consciente.

- Isso pode colocar problemas de longevidade à Igreja Católica?

- Não há problema, de certeza que a Igreja não acaba. Mas, de facto, sinto pena quando olho para estes rapazes, para quem tenho uma mensagem, e eles não aceitam.

- O que a religião dá às pessoas?

- É a verdadeira felicidade da vida. Não há nada mais fantástico na vida do que acreditar em Deus, que é um pai, e em Jesus Cristo, que é o nosso guia. E nós acreditamos nele. Jesus Cristo convida-nos para que sejamos bons e tentemos ser irmãos de todos. Tentemos encher este mundo com felicidade, com Esperança, pois este mundo muitas vezes não tem esperança. 

- Sei que antes de vir para Portugal tinha a intenção de ir para um local mais longínquo…

- Queria ser missionário e nas ilhas de Cook. Pertenço a uma congregação – dos sagrados corações de Maria - que está na zona da Polinésia, Cook e Fidji, onde há uma série de ilhas, todas habitadas. É uma missão bastante dura, porque cada padre está sozinho numa ilha, mas estava disponível para me sacrificar. Mas pediram-me para vir para Portugal. Quando o cardeal Cerejeira começou como Bispo de Lisboa não havia seminário  Maior, porque tinham sido todos fechados na Instauração da Iª República, pediu à minha congregação uma equipa internacional para formar sacerdotes. Começámos a vir em 1931 e ficámos no seminário dos Olivais até 1948. Eramos um grupo de padres, todos licenciados em teologia e filosofia. Depois, quando já havia padres portugueses suficientes, os estrangeiros foram-se embora. Eu vim propriamente para pregar missões populares. O cardeal Cerejeira estava muito preocupado com a nova cristianização de Portugal.




- Qual era o fim dessa missão?

- Na 1ª República a igreja teve muitos problemas. Portugal tem tido sempre muitos problemas. Não só com a Igreja, também como povo. Em todos os séculos houve guerras, tumultos, etc. Há qualquer coisa de anárquico no português. Os portugueses são um povo fantástico, gosto imenso dos portugueses e estou naturalizado português desde 1962. Mas nem sempre é um povo fácil,

- Porquê?

- Gosto muito dos portugueses, mas às vezes estão muito orientados para si. Vivemos agora num Pais em crise. Os ricos vão para o Brasil e deixam os pobres.

- Na época do Estado Novo não era pior?

- (risos). Lembrava-me muitas vezes da guerra, quando também não se podia falar.

“A GUERRA PUXOU-ME PARA ENTREGAR A MINHA VIDA”

- Viveu a 2ª Guerra Mundial na Holanda. Como foi esse período?

- Com fome e muitos problemas. Quando falo da guerra é a fome, mas também havia os bombardeamentos e os soldados alemães nem sempre eram simpáticos. Durante cinco anos, eramos obrigados a estar em casa das 19h00 às 7h30. Ninguém podia andar na rua. Felizmente o meu pai gostava imenso de jogar Bridge e todos nós aprendemos. E também rezávamos. Mas uma guerra é terrível. Vive-se sempre no medo e não se sabe o que será o dia de amanhã. Isto é a guerra, é terrível. Formou-me, puxou-me para entregar a minha vida. Tínhamos um grupo de rapazes com mais de 16 anos e não podíamos andar muito na rua porque podíamos ser apanhados para ir trabalhar nas fábricas da Alemanha. Os homens estavam na guerra e eram precisos os rapazes. Mas era novo e na nossa paróquia íamos buscar lenha para os idosos, para os doentes, porque não havia carvão, tinha ido todo para a Alemanha. Nos últimos anos da guerra, havia uma cozinha pública onde os alemães, na sua grande misericórdia, ofereciam sopa ao povo, mas era 99,9% de água com uma cor verde. Nunca mais me esqueço (risos). Nós íamos para a fila e levávamos a sopa a casa dos idosos. Na nossa paróquia era assim, tínhamos muita atenção pelos outros e isso deu dinamismo à minha vida. Queria dar a minha vida pelo bem dos outros.

- Quando chegou a Portugal, em 1957, o que achou de um país que não tinha estado directamente na guerra, não sofrera bombardeamentos?

- Eu nunca tinha visto um bairro de barracas. E fui viver para a Penha de França, onde havia perto a Curraleira, a Quinta do Peixinho, havia bairros de barracas que nunca mais acabavam. Fui logo trabalhar nas barracas. Com outro padre construi um barracão na Quinta da Curraleira, para fazer a missa, porque os pobres das barracas tinham complexos de inferioridade em relação às pessoas dos prédios. Não podíamos dar casa, mas podíamos melhorar um pouco. E foi assim, comecei a pregar por toda a parte. Comecei a dar e em 1959 fui convidado para umas conferências na cadeia de Tires. E eu, que queria dedicar a minha vida aos mais pobres e mais necessitados, descobri que a minha vocação era dedicar a minha vida aos presos. 

- Veio para Portugal quando o país vivia numa ditadura. Que comparação fez com a Holanda?

- No princípio, andamos um bocado a procurar. Não formamos logo uma ideia. Andamos a ver. Tive a sorte de, quatro meses após a chegada, começar a pregar na província, principalmente com a imagem peregrina, e pude ver a pobreza, as limitações do povo…. Era um povo pobre em tudo. Não só materialmente, mas principalmente pobre na vida.




- O analfabetismo também era um entrave…

- As aldeias não tinham nada, rigorosamente nada. Não havia distracção.

- Mas havia sempre uma Igreja.

- Havia Igreja. E nessa altura começou a televisão. No início, na província, só o café é que tinha televisão. E às quintas-feiras, no verão, havia sempre touradas e então o padre bem podia pregar que não aparecia ninguém (risos)

- Nunca teve receio de ficar muito colado à imagem do Cardeal Cerejeira?

- Não. Gostava muito dele. Foi ele que pediu para me naturalizar português, foi há 50 anos, havia as lutas universitárias e nessa altura o capelão da JUC, a juventude Universitária católica, disse que aquela instituição não se ia meter. O cardeal não concordou e indicou que se os leigos quisessem participar não se opunha. Não queria era que os padres se metessem. E porque o padre não apoiou a JUC, eu fui nomeado assistente do capelão para acompanhar os estudantes.

- Havia cisão entre o Cardeal Cerejeira e Salazar?

- Desde 1958, por causa das eleições de Humberto Delgado, o cardeal cortou muito com Salazar, ficaram apenas as visitas diplomáticas.

- Salazar usou a Igreja para reforçar o poder?

- E a Igreja deixou-se dominar.

- O facto de a Igreja hoje não andar tão próxima do poder é bom?

- A igreja deve estar o mais possível independente do poder político. Queira Deus.

- Não acredita no poder político?

- Acredito, mas isso é dos leigos, não é da Igreja. A Igreja, indirectamente, pode aconselhar a atenção pelos pobres e está a fazer um esforço muito grande para ajudar os infelizes da sociedade no presente. Mas a Igreja e um padre tem de estar por cima da política.




- A divulgação de casos de pedofilia em instituições ligadas à Igreja, e pelas quais o Papa Bento XVII pediu perdão, abala de alguma maneira a Igreja?

- Isso é tão triste que não há palavras. Não sabia que havia coisas dessas.

- E o que levou este Papa a ser o primeiro a falar e a pedir perdão?

- Porque os bispos não o faziam. Eu não investiguei. Ainda há certas perguntas para mim. Li algumas coisas. Tenho uma irmã na Holanda que me manda muitos artigos de jornais que interessam, porque a imprensa cá muitas vezes não diz tudo, fica muita coisa por baixo da mesa, é só nas conversas de café.

- Isso deve-se a quê, à herança do Estado Novo? 

- Ainda não nos libertámos completamente. Foram 48 anos. Foi uma geração inteira.

- Há quem diga que o Estado Novo só foi possível porque ia de encontro à personalidade dos portugueses…

- Eu também não era muito a favor de uma democracia. Dizia como o presidente Charles de Gaulle: ‘Vive la democracie. Vive Moi!’ (risos). O De Gaulle tinha uma democracia guiada, era parlamentar mas guiada. Talvez em Portugal fosse possível uma coisa dessas.

- Acha que os portugueses devem ser guiados?

- O Mário Soares não assistiu às comemorações do 25 de Abril. E eu pensei ‘ainda bem’. Se não fosse padre enviava-lhe os parabéns por ele não ir, é melhor, é muito bom!

- Porquê?

- Gosta dele? Eu nunca gostei. Nunca votei nele e nunca votarei. Conheço várias coisas do antigo regime. Ele soube viver e quando esteve exilado em São Tomé o Jorge de Melo deu-lhe um trabalho imaginativo, uma casa da CUF e um ordenado. E muitas outras coisas.




- O facto de ter nascido no estrangeiro, permitia-lhe olhar a actualidade de outra maneira?

- Talvez, mas procuro sempre pensar como um português.

- Isso é fácil?

- Às vezes não é fácil.

- O que distingue a maneira de pensar de um português de um holandês?

- Nós devemos ser um povo mais fraterno. Estamos numa crise, é um ano de sacrifício. Pronto! Vamos fazer um ano de sacrifício. Os esquerdistas barafundam e com certa razão, porque os ricos são demasiadamente poupados. Tudo isto devia ser uma outra política. O PSD tem algumas coisas boas, a ideia original é fantástica. O que procura originalmente a social democracia é que os ricos sejam menos ricos e os pobres menos pobres. É uma aproximação dos grupos. Onde está a social democracia? Na Holanda existe. E na Suécia, Noruega, isso é social democracia, é o ideal.  

- A que se deve a distinção entre sul e norte?

- Porque não percebem nada de política. Pensam eu, eu, eu. Sonho com um país diferente. Gosto tanto de Portugal e muitas vezes digo aos meus amigos que gosto mais deste país do que eles. Temos de nos sacrificar e abrir os nossos braços, devemos deixar de ser egoístas, interessar-nos pelos pobres e, em conjunto, construir um país de fraternidade.

“É BOM SER RECONHECIDO”

- Fundou O Companheiro. A missão é integrar ex-reclusos?

- Fundei O Companheiro para ex-reclusos que têm problemas. Por exemplo, um ex-recluso vai para casa, descobre que a mulher teve relações com outro homem durante o tempo que esteve na cadeia, separa-se e fica na rua. Se não tivesse o companheiro onde é que ele ia?

- Aumentou ou diminuiu o pedido de apoio?

- Aumentou. Neste momento estamos a apoiar 55 homens. Temos sempre muita gente e também ajudamos reclusos que não têm para onde ir e têm uns dias de férias da cadeia.




- Em 2009, recebeu uma condecoração no dia de Portugal e foi distinguido pelo Fellowship International. Como encara estas homenagens?

- É muito simpático, mas não muda a minha vida, não tenho um chapéu mais alto por causa disso. Claro que é bom ser reconhecido. Todos nós somos humanos e gostamos que simpatizem connosco. Eu também gosto.

- Como é a sua relação com a Holanda?

- Para mim, a Holanda praticamente não existe. Vou lá uma semana por ano, porque ainda tenho dois irmãos vivos. Sou o mais novo e enquanto eles forem vivos vou lá. Tenho muitos sobrinhos, sobrinhos netos e bisnetos.

- É importante a família?

- Não conheço. Estou cá há 55 anos e não conheço a minha família. Só vivi 27 anos na Holanda.

- Como aprendeu a falar tão bem português?

- Talvez seja inteligente (risos). Sabia bem francês e latim e essas duas línguas ajudaram enormemente a falar bem português.

- Consegue ter uma visão para o futuro deste país?

- (Suspiros)… que Portugal desperte para ser o país de um povo que em conjunto caminha para a felicidade.  

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