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“Pagamos dois mil euros por cenas”

O Director-geral da empresa detentora do canal pornográfico Hot afirma que “somos um País pseudomoralista”.
12 de Julho de 2009 às 00:00
“Pagamos dois mil euros por cenas”
“Pagamos dois mil euros por cenas” FOTO: Bruno Colaço

Os portugueses estão preparados para serem actores pornográficos num canal exibido dentro do seu próprio País?

Não estão tão preparados como os actores, ou potenciais actores, de países onde esta indústria está muito mais desenvolvida. Se pensarmos que nos Estados Unidos uma actriz pornográfica é considerada uma estrela numa indústria que faz milhões, em Portugal, primeiro, temos que potenciar esta indústria para que dê largos milhares. A partir daí, irão aparecer cada vez mais pessoas a querer participar.

Se o filme for português, aumentam as audiências?

Sim, se fizermos um produto português de qualidade próxima dos feitos noutros países, potenciamos o aumento das vendas. O filme português continua a vender porque há sempre curiosidade por ver uma portuguesa, que eventualmente até pode ser a vizinha, a fazer sexo perante as câmaras.

A HotGold gravou, no Algarve, o filme ‘As Fantasias Sexuais de Ana’. Sei que é a vossa primeira produção, mas já tem a qualidade desejada?

Ainda não é aquilo que queremos, em pleno. Mas é um passo de gigante face ao que tínhamos anteriormente feito. Estamos a falar de um filme em alta definição, tem filmagem feita por duas câmaras, actrizes com uma imagem diferente. Foi um investimento muito maior. Fizemos uma produção com carácter profissional.

Quanto é que custou?

Se contemplarmos todo o processo de produção e de pós-produção, falamos de um projecto superior a 20 mil euros.

Qual é o lucro desejado?

Um projecto destes é feito na perspectiva de ter ‘break-even’ só com as vendas físicas e na área do digital. E é um produto que não se vai esgotar em meses.

É rentável?

É.

Quanto pagaram aos actores?

Neste filme não pagámos directamente ao elenco, foi a produção que o fez. O que pagamos, por cena, a uma actriz depende de vários factores: da própria actriz e do seu aspecto físico, da acção que faz – num filme há acções mais fortes – e do número de cenas. As actrizes portuguesas de hardcore são das mais bem pagas do Mundo.

Não está a exagerar?

Uma actriz de topo norte-americana ganha, em média, 1500 a 20 mil dólares por cena ou mesmo por filme. Uma actriz europeia das mais conhecidas ganha entre 600 a 800 euros. Estamos a pagar a algumas actrizes portuguesas perto de 2000 euros por cenas [um filme pode ter três a cinco cenas, embora um actor não tenha que participar em todas] e nalguns casos esse valor pode ser superior.

Disseram-me que no máximo receberiam 750 euros por filme...

Não. Posso dizer-lhe que na produção que terminámos agora houve uma actriz que ganhou vários milhares de euros.

Por que é que não assume valores?

Essa actriz ganhou mais de três mil euros, é o máximo que lhe posso dizer.

Em quantas horas de produção?

Três tardes.

Como é que chegam a estes actores?

Temos um conjunto de produtores e de realizadores a começar a trabalhar connosco. E muitos actores surgem por essa via, tirando casos específicos daqueles que preenchem a candidatura no nosso site e que direccionamos ao produtor, que, por sua vez, faz um casting onde são tiradas fotografias e é feito um vídeo – sem acção nenhuma –, para perceber como é que a pessoa se comporta perante a câmara. A parte que ainda é menos profissional nesta indústria é toda a componente de angariação e de gestão de actores. Nos outros países, nomeadamente em Espanha, existem agências de modelos e de actores já com o ‘pricing’ definido.

Agências que em Portugal seriam vistas como pouco credíveis...

Não, em Portugal não existe simplesmente porque não há produção nenhuma, então não há necessidade de agências. Mas há agências de strippers e de acompanhantes porque existe mercado.

Associa-se a ideia de que as actrizes porno são prostitutas. Concorda?

Não, mas existe efectivamente o estigma de que uma actriz que faz filmes pornográficos é automaticamente prostituta.

Quais as características que procura nas actrizes?

Desinibição, desenvoltura, disponibilidade, beleza, serem portuguesas e, sobretudo, o facto de fazerem isto na perspectiva de ‘eu quero fazer’ e não na de que ‘faço isto por dinheiro’. Queremos encontrar um conjunto de actores e actrizes que possam ser a nossa imagem e que possam trabalhar connosco de forma regular, completamente clara e contratualizada – até numa base de remuneração mensal.

É possível consegui-lo em um ano?

Ficaria muito contente se isso acontecesse. Só para ter uma ideia: eu estou na empresa desde Janeiro e, nestes seis meses, conseguimos, primeiro, reforçar a liderança da HotGold como ‘major player’ neste mercado; em três meses, lançámos o canal pornográfico português em regime de ‘pay-TV’. Foram muitas coisas a acontecer muito rápido.

Quem são as pornstars portuguesas? Se é que as há...

Não há, porque é uma mulher que assume a 100% que tem este tipo de actividade e que participa em tudo o que está associado ao nível da promoção, desde ‘spots’, sessões de autógrafos, presenças na televisão, participação em revistas.

Há uma quebra nos salários dos actores pornográficos, mundialmente. Pretende aproveitar esse facto para aumentar o número de produções?

Não posso fazer uma comparação dessas, porque os valores que pagamos cá são o dobro do que é pago a uma actriz internacional. É uma regra da oferta e da procura. É dificílimo encontrar uma mulher bonita portuguesa que queira fazer filmes. Isso aumenta o custo.

Quanto é que investiram na criação do canal Hot?

Algumas centenas de milhar de euros. Não lhe vou precisar.

Quem são os vossos parceiros?

Ninguém, somos só nós: HotGold.

Inicialmente, previam ir para o ar apenas no final do ano...

O que tínhamos projectado era começar a pensar e a formatar o projecto de canal ‘pay-TV’ no final de 2009.

Anteciparam essa pretensão. O que é que isso provoca no sistema empresarial da HotGold?

Somos uma equipa profissional preparada para dar resposta a qualquer situação.

Quantos filmes vão lançar por ano?

O nosso projecto é editar dois ou três filmes até final do ano. E, eventualmente, em 2010 produzir um filme a cada dois meses. Temos que perceber como é que o mercado responde às nossas produções.

Herdaram cerca de 18 500 assinantes do canal Vénus; já têm indicadores de audiências?

O canal está no ar há uma semana. Trabalhei seis anos no lado dos operadores, a gerir canais ‘pay-TV’, não sou uma pessoa que acredite e norteie as suas decisões pelas audiências televisivas.

Como é que surgiu o convite para dirigir a HotGold?

Eu já conhecia a HotGold e a sua administração, encontrámo-nos por casualidade. A HotGold tinha um projecto de desenvolvimento muito centrado na área digital, onde eu tenho experiência. Eu tinha na cabeça um conjunto de ideias sobre o que poderia ser feito. Falámos e do lado da HotGold houve concordância, e eu decidi optar por este aliciante projecto.

Portugal é um país conservador. Não é arriscado investir na pornografia?

Não, porque sabemos que é um país com elevados índices de consumo deste tipo de conteúdo.

A democratização do acesso gratuito à pornografia na internet não o assusta? Como pensa combater isso?

É evidente que assusta. Mas entendemos que a internet é um meio em que devemos apostar fortemente e com qualidade, com diferenciação, permanente actualização e inovação.

E os filmes caseiros, pretende comprá-los para exibir na TV?

Os filmes caseiros são um conteúdo com muito interesse, com elevado potencial de venda e que estamos dispostos a adquirir.

Quanto poderiam pagar?

Depende da duração, da qualidade de filmagem, do número de intervenientes, do tipo de acção, das pessoas estarem mais ou menos identificadas. Só vendo o produto é que podemos avaliar o preço.

Só estão a transmitir na ZON; quando pensa chegar a outros operadores?

Nos próximos meses, desde que haja interesse, espaço e disponibilidade dos outros operadores. À data desta entrevista, ainda não estabelecemos qualquer contacto com nenhum outro operador.

Que tipo de canal é o Hot Night?

Não falo do canal Hot Night enquanto o processo estiver para aprovação na ERC.

Não quer explicar?

O Hot Night será o canal que irá, na grelha da ZON, substituir o actual XXL.

A HotGold pertence ao casal de empresários António e Graça Santos. Por que não os vemos a dar também a cara por este projecto?

Não têm que dar. Sou o líder do projecto.

Outra área de negócio da HotGold é a distribuição de filmes pornográficos. Em 2008, o aluguer destes filmes nos EUA registou quebras de 20%; como foi em Portugal?

Foi igual ou maior.

Aprecia pornografia?

Muito sinceramente, depois de um dia a lidar com pornografia quando chego a casa não é isso que me apetece.

Como é que a sua actividade é vista socialmente?

De uma forma perfeitamente normal, tal como eu a encaro. Estou a gerir este negócio como estaria a gerir qualquer outro.

Socialmente, apresenta-se como director de uma empresa de conteúdos pornográficos?

Sim, não tenho preconceitos. Acho que se discute e coloca muitos rótulos na pornografia de forma errada. Neste País, então, isso chega a extremos. Somos um País demasiado hipócrita e pseudomoralista. Choca-me mais algumas coisas que vejo num telejornal, às oito da noite, do que aquilo que vejo num filme pornográfico.

É MENTIRA QUE  A ERC TENHA CHUMBADO O PROJECTO HOT  

O que se passou com a ERC?

Tínhamos a informação por parte da ERC [Entidade Reguladora da Comunicação Social] que o dossiê estava já previamente validado e com a recomendação de aprovação ao Conselho. O que se passou é que um conselheiro identificou um problema, impedindo que o dossiê fosse nesse dia para discussão. É mentira que a ERC tenha chumbado o projecto Hot.

Que problema era esse?

Tem a ver com a lei das sociedade de imprensa e da televisão, que obriga a que as acções das sociedades sejam exclusivamente nominativas. O nosso pacto social dizia que elas podiam ser nominativas e ao portador. Tivemos que alterá-lo. 

PERFIL 

Carlos Ferreira, 36 anos, casado, licenciado em Marketing e Comunicação. Desde Janeiro último que dirige a empresa de conteúdos pornográficos HotGold, detentora do primeiro canal português de TV para adultos, o Hot. Trabalhou seis anos na TV Cabo como gestor de produto da Sport TV e dos canais para adultos.

RUI SIMAS QUER MUDAR A IMAGEM SUJA DA PORNO

Rui Simas, 28 anos, é o director de Conteúdos do canal Hot. Licenciado em Design Gráfico, frequentou, juntamente com médicos e outros especialistas da área da Saúde, um seminário de Sexologia. Preparou-se para lidar diariamente com o sexo explícito e desenhar uma grelha de programas para um canal que pretende inovar na apresentação de produções nacionais. 'Com este canal e com as nossas produções, estamos a tentar fazer filmes para serem vistos por casais e que as pessoas deixem de ter uma imagem suja da pornografia, artesanal.'

QUEM QUER SER ESTRELA PORNO?

Portugal não tem uma cidade pornográfica – a ‘Porn Valley’ lusa – como os norte-americanos, em Los Angeles, na região de San Fernando Valley. Só depois do 25 de Abril os portugueses assistiram aos 61 minutos em que Linda Lovelace descobre que é pela boca que atinge o orgasmo. ‘Garganta Funda’ já tinha sido produzido em 1972, com tão baixo orçamento – 17 200 euros –, que, anos depois, a actriz revelou na sua biografia que nunca foi paga pelas cenas. A pornografia entra de tal maneira no País que, em 1974, até a revista hardcore ‘Gina’ vendeu 600 mil exemplares na soma dos quatro primeiros números. Mas só 35 anos após a democratização dos conteúdos para adultos por cá – na terra sem ‘Porn Valley’, embora com algumas pérolas caseiras – se assume que foi feito o maior investimento num filme do género: mais de 20 mil euros, pela HotGold, pagos ao elenco. (Em 2008, ‘Piratas II: A Vingança de Stagnetti’, produção norte-americana, custou 5,7 milhões de euros.)

Acontece que as produtoras nacionais ainda não descobriram a mulher portuguesa, 'verdadeiramente bonita', desejada, que queira ser ‘pornstar’. Os que já se cansaram de procurá-la perguntam: Por que é que uma mulher muito bonita se expõe na pornografia, quando poderia ganhar o mesmo (ou até mais) como acompanhante de luxo? Será que se iriam expor a troco dos 750 euros que António Baptista, empresário das sexshops Contra-Natura, afirma que os portugueses estão dispostos a pagar, no máximo? As produções da Naturalvídeo, desde 1999, já contrataram mais de 20 actores nos dez filmes editados. 'Podemos dizer que, no mínimo, atingem valores de 750 euros', afirma fonte da empresa, embora não precise um valor. São contradições a que os espanhóis diriam: abram agências de actores para filmes de sexo explícito.

Aos 26 anos, quando deixou de jogar futebol profissional, João (nome fictício) filmou ‘As Dunas’. Foi em 1979. 'As produções em Portugal eram muito amadoras.' Tal como a maioria, hoje. 'Na altura, num dia, fazíamos sete cenas. Pagavam mais do que agora.' Anos depois, já estava em Itália a contracenar, garante, com a falecida Lolo Ferrari, a mulher com os maiores seios do Mundo. Só que ele, como gosta de sexo e tem 'o mesmo corpo que tinha com 26 anos', agora, aos 42, ainda quer ser filmado em cenas tórridas. Diz que um grupo de ingleses lhe ofereceu 7000 euros para rodar um filme cá. Recusou. 'Sabe o que são 15 dias de gravações? Equivale a meio ano noutro trabalho.'

O acesso à pornografia é caro: um DVD custa, em média, 15 euros. Assim a internet, de forma gratuita, roubou lucros à indústria que gera mundialmente 9,5 mil milhões de euros por ano. No top dos 100 sites mais visitados em Portugal, há cinco pornográficos. Em média, os portugueses gastam lá dez minutos por dia. Será que a indústria pornográfica se levanta?

SÁ LEÃO, UM CASAL E MUITO SEXO  

Nos anos 90, a pornografia portuguesa, ainda que amadora, lançou no mercado um sem-número de título. Vivia-se o auge das produções. Ainda hoje, o filme ‘Fim-de-semana Lusitano’, de 1997, é o mais popular dessa década. Outro bom exemplo da pornografia ‘made in Portugal’ é o actor e realizador Sá Leão. Apesar do amadorismo dos filmes, é possível identificar um ‘estilo Sá Leão’. Mas, para o realizador, os actores porno portugueses não deveriam deixar os seus empregos principais enquanto não houver uma verdadeira indústria pornográfica no País. Em ‘Eu, o Meu Marido e Sá Leão', de 2007, ele filmou Gi e o marido Zeca (na foto com Sá Leão, ao centro) – ela empregada de balcão e ele motorista da Carris – em cenas escaldantes, como se estivessem em casa.

A REVOLUÇÃO SEXUAL DE 1974

‘Gina’? Quem não leu? Não ficaram por contar aventuras pornográficas em Portugal. Mário Gomes (na foto) tratou de as traduzir. À moda da porno libertina recém-saída das masmorras do regime salazarista. 'Depois do 25 de Abril, acho que os portugueses queriam mesmo era pornografia, por curiosidade. Já não era mais o fruto proibido', conta. O irmão, Acácio Gomes, já falecido, trouxe para Portugal, em Outubro de 1974, esta espécie de manual do sexo explícito. Venderam 150 mil exemplares dos primeiros quatro números. 'Foi um grande abalo de pornografia', enquadra Mário. As Edições Pirâmide distribuíram, entre 1974 e 2005, mais de mil números de diversas revistas porno, como a ‘Weekend Sexy’. Só a ‘Gina’ chegou à 196.ª edição. Mário diz que hoje, além de poucos jornais, não há revistas pornográficas portuguesas.

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