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Pais (ainda) miúdos

São rapazes de barba pouco rija confrontados com a notícia de uma gravidez que não planearam. A barriga não lhes cresce, mas os medos e ansiedades são iguais aos das mães adolescentes.
26 de Novembro de 2006 às 00:00
Pais (ainda) miúdos
Pais (ainda) miúdos FOTO: Ilustração de Ricardo Cabral
Quando se fala em gravidez adolescente, a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma rapariga jovem, tenra na maturidade, mergulhada em medos, incertezas e ansiedades. São muito poucos os que se lembram que, numa outra ponta da cidade, há um rapaz com a barba ainda por crescer, angustiado e apreensivo com o peso da responsabilidade. São pais que, também eles, ficam ‘grávidos’.
O papel do pai adolescente é muitas vezes esquecido. Em plena adolescência, o mundo de criança, que ainda não é adulto, é posto à prova da maneira mais complicada possível.
Para contrariar o habitual discurso que se debruça especialmente sobre as dificuldades da adolescente grávida, Maria Jesus Correia, psicóloga clínica da Maternidade Alfredo da Costa e membro da equipa que coordena a Consulta de Grávidas Adolescentes, levou a cabo um estudo a que deu o nome de ‘O Lado Masculino da Gravidez Adolescente’.
Maria Jesus Correia não tem dúvidas de que “também para os rapazes, a gravidez é uma fase em que vêm ao de cima vivências emocionais muito idênticas às das mulheres”. Na gravidez adolescente “também os rapazes vivem o susto, a admiração e a confusão”, garante a especialista. “Têm medo da responsabilidade.”
Bruno é militar, tem agora 24 anos, mas foi aos 17 que passou por uma das suas maiores provas de vida. Namorava há pouco mais de meio ano. Quando o telemóvel tocou, nada fazia pensar que do outro lado fosse a namorada a anunciar-lhe a gravidez. Ela tinha apenas 16 anos. “Fiquei em estado de choque”, diz. E quando lhe perguntam se o medo o invadiu naquele momento, a resposta sai pronta: “É claro que me senti assustado”.
Bruno e a namorada faziam planos de futuro, mas nenhum a curto prazo. “Naquele momento senti que tinha de assumir a responsabilidade. Não pensei na hipótese de um aborto, sabia que tinha que o assumir”, diz de forma convicta.
Casar até fazia parte dos seus planos, mas nunca tão cedo. “Lá para os 20 e tal anos”, afirma. Mas a pressão de viver “numa terra pequena” falou mais alto. Em menos de dois meses estava já de aliança no dedo. Obrigado a crescer à força, Bruno não tem dúvidas sobre o que falhou: “Não estava preparado para ser pai, não era o pai dedicado como devia ser.”
Divididos entre os livros e a indecisão de um futuro, a maiora dos pais adolescentes não sabem para onde se virar quando pensam na possibilidade de sustentar uma família com a qual não contavam. “Questionam-se sobre como vai ser o futuro quando ainda nem acabaram os estudos”, conta a psicóloga, sublinhando que “o peso da responsabilidade financeira é muito elevado”.
Bruno não foi excepção. Abandonou os estudos quando frequentava o 11.º ano e foi obrigado a trabalhar numa empresa de móveis. “Não era mau aluno e fiquei com as pernas cortadas”, diz ao recordar que o seu sonho passava por um curso de Enfermagem que nunca chegou a alcançar.
No inquérito feito a 89 rapazes que frequentaram as consultas da Maternidade Alfredo da Costa, 41,6 por cento admitiram que o bebé é fruto de uma relação relativamente recente, entre seis meses a um ano. Mais de metade (50,6 por cento) viviam com a família e 82 por cento nem sequer levantaram a hipótese de mudar de residência por causa da gravidez. Maria Jesus Correia realça que “habitualmente não são relacionamentos duradouros”, até porque “em 37 por cento dos casos avaliados, a gravidez trouxe um afastamento entre os casais”. “O projecto não é o de uma vida a dois e o surgimento da gravidez exige socialmente uma conjugalidade que muitas vezes não tem sucesso”, diz a especialista.
Prevenir também não é o prato forte deste jovens pais. Em 68,5 por cento dos casos, os rapazes confessaram não usar contraceptivos com as companheiras e os poucos que recorrem a esses métodos optaram pela pílula ou pelo preservativo. Para a psicóloga clínica, “a não utilização da contracepção é característica do pensamento juvenil”. Na maioria dos casos, os adolescentes “não usam os contracepticos porque não desejam a gravidez, mas também não acreditam que a paternidade lhes vá acontecer”.
Ao olhar para o passado, Bruno vai ao encontro das palavras de Maria Jesus Correia. “Era um bocadinho irreflectido, porque era uma paixão muito forte”, confessa o militar. Os cuidados foram poucos porque, no fundo, “era uma paixão enorme, mas não éramos adultos.”
O casamento não durou mais de três anos. “Éramos muito cúmplices, mas chegou uma altura que nem cumplicidade havia”, reconhece o jovem. Entre as zangas surgiam também algumas acusações. Bruno, desgastado pelo cansaço do tabalho duro que diariamente enfrentava, ainda tinha que ouvir queixas de “não dar o apoio que devia como pai”.
“O projecto não era o de uma vida a dois e o surgimento da gravidez exige socialmente uma conjugalidade que não tem sucesso”, diz a psicóloga. Para evitar estes casos, a especialista acredita que são necessários “mais espaços de atendimento” na vertente psicológica e da educação para a sexualidade.
MAIS NOVOS FICAM MAIS RESPONSÁVEIS
Apesar do susto inicial e do misto de emoções entre a admiração e a confusão, os mais novos (menores de 18 anos) acabam por se sentir mais responsáveis com a notícia da gravidez da companheira. Entre os mais velhos (com mais de 18 anos), a grande maioria diz-se contente com a paternidade. Entre os rapazes ouvidos, só 40 por cento não deseja a gravidez.
70% sentiu-se mais responsável
41,6% tem uma relação recente
50,6% vive com a família
82% não muda de casa
68,5% não usa contracepção
29,2% das famílias reage bem
37% dos casais afastam-se
40% não deseja a gravidez
COMO AGIR?
É essencial incentivar os mais novos para o uso de contraceptivos. Mas se o imprevisto bater à porta, é preciso ajudá-los a enfrentar a responsabilidade.
RESPONSABILIZAR
Para prevenir em vez de remediar, é fundamental sensibilizar os mais novos para os riscos que envolvem a sexualidade juvenil. Os rapazes devem saber que também é deles a responsabilidade de usar o preservativo. Longe vão os tempos em que só a rapariga devia estar devidamente prevenida.
EVITAR A NEGAÇÃO
E se, de facto, o imprevisto acontecer, de nada serve que os adolescentes se fechem no quarto a negar o óbvio. O pânico também não ajuda a resolver o problema. Apesar do medo que a responsabilidade acarreta, contar à família deve ser o primeiro passo para que se assuma um filho.
INCLUIR O JOVEM
A família da mãe adolescente é muitas vezes a primeira a afastar o rapaz de todo o processo. Isto porque o jovem é, muitas vezes, visto como infantil e irresponsável. Incluir o pai adolescente nas questões da paternidade é essencial para permitir um maior envolvimento do jovem na gravidez.
MAIS APOIO
O lado masculino da gravidez adolescente não é menos doloroso ou aflitivo que o feminino. Os rapazes devem evitar deixar-se dominar pela vergonha e, aqueles que precisam, devem recorrer a centros de apoio especializados. Quando as dúvidas e ansiedades pesam, esclarecê-las torna-se fundamental.
SOCORRO (Opinião de Dulce Garcia, Jornalista)
Há quem diga que os homens nunca deixam de ser crianças. Sim, os homens mais do que as mulheres, porque alguém tem de fazer o papel de mãezinha. E porque permanece neles essa semente de infantilidade, regada uma vida inteira por mãe, tias, avós, namoradas e mulheres, não é de estranhar que mesmo aos 40 anos sintam um misto de terror e apreensão quando se vêem com uma criança nos braços. Parecem mesmo eles que ali estão, devolvidos ao colo de que tanto sentem falta, mas desta vez têm de se contentar com o papel secundário e tentar entender, confortar e proteger uma criatura indefesa que não os próprios.
Transportemos o cenário para a adolescência e é fácil imaginar o quão dramática pode ser a gravidez, na perspectiva dos rapazes.
No momento em que começam a pisar os terrenos instáveis da vida adulta, cheios de saltos mortais, desejos calcados e paixões de cabeça, são detidos por uma sentença implacável: “Estou grávida.”
A maior parte quer fugir quando ouve esta frase lapidar; quer correr sem destino ao encontro da inocência perdida e obrigá-la a voltar para que tudo seja como antes. Nunca é.
Outros fingem a indiferença, pelo menos até à porta da casa de banho do liceu, porque uma vez lá dentro o choro pode ser confundido com o barulho do autoclismo.
Nenhum saberá o que fazer. E poucos serão capazes de aproveitar os nove meses de espera – inventados para as mulheres se habituarem à ideia de que vão ser mães – para ganhar a maturidade que a situação exige.
Não se trata de os desculpar, mas a herança cultural – que habitualmente castiga o sexo feminino – é aqui mais generosa com elas do que com eles: os cuidados e mimos da família e dos amigos são todos para a futura mãe, nunca para o pai. E se ela anda perdida, ele não estará muito longe disso.
Talvez seja verdade que os homens são sempre crianças. E talvez as mulheres não devam aceitar isso com tanta facilidade quando se trata de assumir responsabilidades. Mas os pais adolescentes têm um argumento inegável a seu favor: são mesmo crianças.
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