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PAIS E FILHOS - A PRIMEIRA SEPARAÇÃO

Esta semana começa o pré-escolar. Da protecção da família para a ‘vida’, as crianças entram num mundo desconhecido. E os pais ficam quase sempre de coração apertado.
7 de Setembro de 2003 às 17:39
“Agora que o dia se está a aproximar, custa-me cada vez mais pensar que o Luís vai deixar de ter a protecção da família e passar a viver sob as regras da sociedade.” É com alguma tristeza que Maria João Catarino, de 38 anos, vê a entrada do filho Luís, de dois anos, no ensino pré-escolar.
Desde que nasceu, o Luís teve o privilégio de ter quem tomasse conta dele. Três dias da semana eram passados com os avós, os outros dois com uma senhora que vai a casa dos seus pais fazer limpezas. Nos últimos quatro meses, como a mãe esteve novamente de licença de parto, o Luís passou-os com ela e com a nova irmã, a Madalena. Gestora de profissão, Maria João afirma que esta foi uma opção dela e do marido dado que sempre partilharam a ideia de que “uma criança criada com os pais ou com um familiar mais próximo” tornar-se-ia mais feliz. E explica: “porque tem o amor que só um familiar pode dar”.
Mas agora, o Luís está prestes a completar três anos e, apesar do pré-escolar não ser de ensino obrigatório, os seus pais pensam que “chegou a altura de o sociabilizar” porque já lhe notam a “necessidade de brincar com outras crianças” e da percepção de que “o mundo não são só os pais”. E é já esta semana que o Luís começa uma nova etapa na sua vida. As expectativas são mais que muitas, assim como os receios. “Por um lado sei que é bom, por outro custa-me saber que se vai cortar o laço afectivo familiar”. Quanto ao Luís, segundo a mãe, “tem reagido bem”. Pelo sim, pelo não, Maria João já tratou de tirar duas semanas de férias, de maneira a acompanhar de perto esta transição.
UM PASSO EM SOCIEDADE
Tal como o Luís, dezenas de crianças vão entre 10 a 15 de Setembro passar por uma fase muito importante nas suas vidas: a entrada na pré-escola. Esta é a primeira etapa da educação básica e destina-se a crianças com idades compreendidas entre os três anos de idade e o momento de ingresso no ensino básico. É o primeiro contacto da criança com um mundo social mais alargado que o ambiente familiar e, por isso, um passo muito temido pelos pais. A ideia de deixar os filhos sob os cuidados de uma pessoa desconhecida é aquilo que mais frequentemente os atormenta. Por isso, “é importante que conversem com outros pais, com as educadoras e entrem na rotina do infantário. Com isso, ganham segurança e transmitem-na ao filho”, explica a psicóloga Inês Monteiro, do Serviço de Psicologia e Orientação da Direcção Regional de Educação de Lisboa. É, por isso, que a atitude das educadoras e auxiliares para com os pais é de extrema importância. “O essencial é fazer-se uma reunião no início do ano lectivo, em que o educador possa explicar aos encarregados aquilo que se vai passar ao longo do ano. Há que fazê-los perceber que aquela situação não é um ‘bicho de sete cabeças’”, acrescenta a especialista.
AJUDAR À ADAPTAÇÃO
Mas não são só os pais que sofrem com esta separação. As crianças também temem o desconhecido. “Qualquer criança estranha nos primeiros dias. Reage sempre, mas isso é natural e até saudável”, conta a educadora de infância Teresa Cotrim. Com treze anos de experiência na área da educação infantil, a educadora conta que “normalmente, só no segundo ou terceiro dia é que as crianças começam a perceber o que lhes está a acontecer e a fazer birras”. Exemplifica: “Esperneiam, fingem que não andam, choram”. Acrescentando que “cada situação é muito particular” e que “as reacções variam muito de criança para criança”. No entanto, é importante referir que esta situação só padece de maiores cuidados quando, passadas cerca de duas semanas, a criança continua a não reagir bem à sua ida para a creche ou jardim infantil.
Em todo o caso, há factores que ajudam nesse processo de transição. Antes de tudo, deve haver uma preparação prévia, como por exemplo, uma conversa dos pais para com o filho, em que estes deverão incutir-lhe a ideia de que este passo é algo de positivo. Teresa Cotrim dá mais uma ajuda: “Antes de se dar início ao ano lectivo, os pais devem levar a criança ao espaço onde ela irá passar grande parte do seu tempo, para haver uma familiarização. No primeiro dia, a criança deve ser deixada junto de alguém que para ela irá tornar-se numa referência.
Os pais têm um ‘timming’ de permanência no infantário que não devem ultrapassar. Na hora de saída, deve ser sempre a mesma pessoa a ir buscar a criança e, nos primeiros dias, até devem ir buscá-la mais cedo. Principalmente, na creche é importante que a criança leve consigo um objecto pessoal, tais como uma fralda ou um brinquedo”.
TRÊS FILHAS, TRÊS REACÇÕES
Apesar da educação pré-escolar ser dirigida a crianças a partir dos três anos, há pais que se separam bastante mais cedo dos filhos. Sem outra opção têm que os colocar em creches logo aos quatro meses de idade. Inácia Rodrigues, de 43 anos, tem três filhas. Separar-se delas já não é novidade. No entanto, a primeira vez que teve que deixar a filha, ainda com quatro meses, numa creche passou por momentos difíceis. “Não tinha nenhum familiar com quem a deixar e tinha começado a trabalhar há pouco tempo, não tive outra opção”. O maior receio de Inácia era o facto de deixar a filha com pessoas que não conhecia. “O primeiro dia foi horrível. Parecia que, durante todo o dia, estivesse eu onde estivesse, ouvia a minha filha a chorar”, recorda. A separação da Mariana, com 15 meses, que também esta semana entra pela primeira vez na creche, tem sido vivida doutra forma. Até porque é a própria que pede à mãe que a leve para lá. Por isso, nesta altura, receios já são poucos. “Ela é toda espevitada, sei que vai adaptar-se”. Inácia é empregada doméstica e toma conta de crianças. Infelizmente, o mesmo não pôde fazer com as filhas. “Quem me dera mas assim não recebia o meu ganha-pão”, remata.
EMPRESAS AMIGAS DA FAMÍLIA
Com o objectivo de conciliar a vida profissional e familiar dos seus trabalhadores, algumas empresas em Portugal lançaram modalidades de apoio. A Bruno Janz, produtora de aparelhos de precisão, conta com uma creche, um jardim-de-infância e uma escola primária. A TAP tem, desde 1972, um infantário a funcionar para os filhos dos seus trabalhadores. Actualmente tem uma creche e um jardim-de-infância aberto 24 horas por dia, permitindo ao pessoal navegante e de terra, que trabalha por turnos, deixar os filhos no infantário no período de trabalho nocturno. A Tavares de Oliveira, empresa de assessoria fiscal, permite aos empregados concentrar o tempo normal de trabalho em menor número de dias. Com vista ao equilíbrio tempo de trabalho – tempo pessoal e familiar, a empresa possibilita ainda a flexibilização dos horários. A Salvador Caetano, empresa do ramo automóvel, incentiva os seus trabalhadores do sexo masculino a participar nas tarefas relacionadas com os filhos.
PRIVADOS OU PÚBLICOS?
Muitas vezes os critérios de escolha de uma escola para um filho é feita porque se tem boas referências de determinado espaço, tendo também a sua devida importância o local onde o estabelecimento está sediado. No entanto, a escolha entre um estabelecimento de ensino público ou privado, também pesa muito nesta decisão.
As estatísticas do Ministério da Educação apontam para um total de 245 mil alunos a frequentar a educação pré-escolar no ano curricular 2002/2003. Dos quais, 117 mil no ensino público e 128 mil no privado. O que poderá justificar esta diferença? Estará relacionada com a qualidade? “O ensino particular não é melhor do que o oficial. Se pudesse punha o meu filho num estabelecimento público. Os jardins-de-infância oficiais estão apetrechados, têm imensas condições”, avança a educadora Teresa Cotrim que reúne já uma larga experiência profissional tanto em estabelecimentos públicos como privados.
Existem quatro tipos de jardins-de-infância: os públicos de componente lectiva são gratuitos e que constam de cinco horas diárias de trabalho; os públicos de componente de apoio à família, que correspondem ao serviço de refeições e a actividades ocorridas para além das cinco horas, mas cujos custos são suportados pelos pais e comparticipados pelos Estado conforme o rendimento familiar; os IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social), o mesmo que instituições que têm acordos com a segurança social; e, por fim, os particulares, cujos custos são suportados pelos pais e, eventualmente, com apoios do Estado. Em termos financeiros, o ideal para qualquer pai seria colocar o filho num jardim-de-infância público. No entanto, o critério prioritário de selecção de uma entidade pública deste género é a data de nascimento da criança (têm prioridade os mais velhos) e há ainda outro problema: o horário. Quantos pais trabalham cinco horas por dia? Quantos têm alguém que fique o restante tempo com os filhos? Tudo isto limita em muito as opções dos pais, que se vêm obrigados a colocar os filhos num infantário particular porque, como explica Teresa Cotrim, aí “o horário vai de encontro com a situação individual de cada um”.
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