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Papápapápapápapá

“Cá em casa pareço a Lady Gaga, sempre cercado de fãs a exigirem a minha presença.”
24 de Junho de 2012 às 15:00
João Miguel Tavares, Wii, Filho, Pai
João Miguel Tavares, Wii, Filho, Pai FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Eu gosto muito dos meus filhos. De brincar com eles. Da imeeeeeeeeensa vida que eles têm. Mas às vezes um gajo dá em doido. Quando eles andam cá por casa nas suas mais altas rotações, é assim como se eu tivesse caído numa emboscada às portas de Bagdad: papápapápapápapá por todos os lados, num metralhar cerrado de solicitações que deixam um tipo à beira do stress pós-traumático.

Se os meus filhos enfiarem uma cabeçada num móvel, é para os braços da mãe que eles vão a correr chorar (sempre a melhor prova para se saber qual o progenitor favorito). Mas em quase tudo o resto sofro de excesso de popularidade doméstica. Na rua ninguém me conhece, mas cá em casa pareço a Lady Gaga, sempre cercado de fãs a exigirem a minha presença. Na verdade, são só três, mas tão aplicados que parecem três mil. Jogar à bola no meio da sala? Papá! Jogar à Wii? Papá! Ler histórias? Papá! Pôr filmes? Papá! Lavar dentes? Papá! Limpar rabos? Também papá!

Ouçam: eu tento ao máximo promover-lhes a autonomia. Ainda há umas semanas tive uma conversa muito séria sobre rabos e papel higiénico com o meu filho do meio, que já tem seis anos e está quase a entrar para a primária, onde não vai ter ninguém para tratar das suas actividades escatológicas. Mas nem assim me safo. "Papá, já fiz cocó!", diz ele. "Tomás, já combinámos que a partir de agora és tu quem limpa o teu rabo!" "Mas é diarreia..." E pronto, diante de uma imagem tão gráfica e de efeitos tão devastadores, lá vou eu. E a correr.

Os tipos são peritos nisso: sabem perfeitamente quais são as palavras certas para nos porem a mexer. Gritar "diarreia" na direcção de um pai é o mesmo que atirar um osso a um cão. E como lhes tenho negado o cachorrinho por que tanto anseiam, eles tratam de fazer de mim o seu animal doméstico. Sobretudo aos dias da semana, em que chego a casa meio morto de cansaço, levar com uma saraivada de papás para aqui e papás para ali é semelhante a serrar a caixa craniana, retirar o cérebro lá de dentro e colocá-lo a fritar no microondas.

Estão a ver aquela fase da adolescência em que os filhos se trancam no quarto e começam a sentir vergonha de serem vistos com os pais? Estou ansiosamente à espera de que esse tempo chegue. Ah, e tal, vais ver que ainda terás saudades. Está bem, está. Até à Ritinha já ouço gritar "papá!" de dentro do líquido amniótico. E não é sonho, mas pesadelo.

João Miguel Tavares Wii Filho Pai
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