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PAPARAZZIS

No meio da tragédia, quando as chamas comem a floresta, um casal entretem-se a tirar fotografias. O ‘hobby’ é arriscado, mas o fascínio do fogo é maior.
1 de Agosto de 2004 às 00:00
Numa noite quente de Julho de 2003, Tomaz Chegwin, de 38 anos, e Ana Araújo, de 28, regressavam da praia, na companhia do filho pequeno, Tiago, quando um carro de bombeiros saiu da rua onde vivem, em Alcabideche. “Nós moramos na rua dos bombeiros.”
Já em 2002, Tomaz – que sempre gostou de fotografia – apanhou por acaso incêndios e como tinha a máquina à mão, captou-os. Ana, porém, nunca tinha estado perto de chamas. E assim, num impulso, nessa noite de 2003, decidiram seguir os bombeiros.
“A nossa maior preocupação era o Tiago pelo que estacionámos relativamente longe do fogo e fomo-nos revezando: ficava sempre um de nós no carro, enquanto o outro ia fotografar”, dizem. O miúdo não se apercebeu do que se passava. Para a criança, a verdadeira emoção era seguir os bombeiros e ouvir as sirenes.
E foi assim que iniciaram o seu álbum de fotografias de incêndios. Ambos gostam de fotografia e ambos acreditam que apesar de trágico um cenário de fogo resulta numa excelente imagem. “Tive noções de fotografia na escola e sempre gostei de tirar fotos, muito mais do que ser eu o modelo das fotografias”, comenta Ana.
Pouco tempo depois e com o Tiago de férias com a família paterna, Tomaz e Ana, também em férias, ficaram com tempo para percorrer os fogos do País. “Um dia chegámos a casa perto das 23h00 e ouvimos nas notícias da meia-noite que havia um incêndio na Chamusca”, recorda Ana, acrescentando: “O Tomaz olhou para mim e disse-me: ‘Numa hora estamos em Santarém’. E nós fomos.”
Quando chegaram à Chamusca as estradas estavam cortadas e o trânsito condicionado, mas os populares indicaram-lhes um caminho alternativo. O casal acabou por ter acesso a uma frente de fogo. “Quando dizemos que vamos fotografar, toda a gente nos deixa passar”, realça Tomaz.
Depois da Chamusca seguiram-se vários outros pontos do País, incluindo o Algarve onde apanharam o cenário dantesco de 2003, vários incêndios num só dia. “Vamos apenas pelo prazer de fotografar e costumamos fazer cópias ampliadas para os bombeiros e oferecemo-lhes. Não queremos nada em troca”, afirma Ana.
SENSAÇÕES
O que sente uma pessoa que presencia um incêndio? “Não dá para explicar, só quem está no terreno é que compreende o que são os momentos críticos. Algumas das nossas reportagens não estão completas porque nas alturas de aflição, não nos conseguimos alhear da tragédia para fotografar”, confessa o casal.
Uma das recordações mais marcantes que possuem de um Verão em chamas (2003) foi em Porto Espada. “Vimos três sapadores bombeiros, dois dos quais eram mulheres, só com um jipe e três populares com uma moto serra. Não tinham água mas conseguiram travar uma frente de fogo. Foi impressionante.”
Sobre o estranho e perigoso ‘hobby’ comenta Ana Araújo: “Sei que parece assustador estarmos em pleno fogo cruzado, contudo, se cumprirmos as normas básicas de segurança, não nos arriscamos. Não pomos a nossa vida em perigo por causa de uma fotografia.” Possuem uma objectiva que capta imagens ao longe e, pelo sim pelo não, no carro nunca faltam extintores, cordas para reboque, pilhas, lanternas…
Tomaz e Ana não hesitam em afirmar que este gosto especial pelas fotos de incêndios nasceu como uma muito peculiar forma de quebrar a rotina. “Começou no Verão passado, estávamos em casa de férias e isto deu-nos o sentido de aventura, o sair de casa e quebrar a monotonia.”
SONHOS
Em pequenino Tomaz queria ser bombeiro mas a mãe não o apoiou. “E depois na idade adulta a minha vida profissional sofreu outro rumo”, desabafa. Cursou Equipamento de Interiores na Escola António Arroio mas o acaso conduziu-o ao ramo do material da ortodontia. “Ainda pensei em ser bombeiro voluntário mas era complicado. A minha mãe - que agora vive connosco - tem Parkinson e enerva-se com muita facilidade.” Aliás, sempre que há um incêndio nas redondezas de Alcabideche, a mãe liga ao filho e diz: “Tomaz António, não me digas que estás no meio do fogo!”
Ana Araújo também e-tá ligada ao ramo da Ortodontia e quando era menina não sonhava em ser professora ou bailarina como as suas amigas. “Não sabia o que iria ser.” Curiosamente, Tomaz é neto de um inglês, mas ele e o pai nasceram e cresceram em Lisboa.
Ana também é filha de portugueses mas um acaso da vida fez com que nascesse e passasse parte da sua infância na Alemanha. Na brincadeira revelam que apesar dessas raízes internacionais, são portugueses de alma e coração e acreditam que Portugal é o país ideal para morar.
QUERIA GUARDAR PARQUE
Tomaz ofereceu-se como voluntário para o Parque Natural Sintra-Cascais. Foi aos bombeiros e mandaram-no para a Protecção Civil, que o encaminhou para o Parque Natural. “A primeira coisa que me disseram era que não me iam dar um livre-trânsito para circular no parque, para esquecer. E eu estava só a oferecer-me como voluntário para patrulhar a zona!”, diz.
Agradecimentos: Bombeiros Voluntários da Ajuda, Lisboa
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