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Correio da Manhã

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Para o céu subiu uma estrela

Todos os obituários de Paul Newman proclamaram o seu parentesco com Marlon Brando e James Dean. Não resisto a meter o bedelho e repor a verdade. OK, também ele (e faltou acrescentar Montgomery Clift) andou no Actor’s Studio, onde aprendeu o valor da expressão minimalista e refreada, na qual as emoções amordaçadas parecem a ponto de explodir. Mas que diferença! Brando e Dean moldaram estilos vulcânicos em personagens dilaceradas – Brando sugerindo vulnerabilidade sob a força e Dean força sob a vulnerabilidade. Newman foi outra música: uma espécie de espadachim da leveza, nascida não da futilidade, porém do distanciamento.
5 de Outubro de 2008 às 00:00
Para o céu subiu uma estrela
Para o céu subiu uma estrela

Até as vidas divergem: Newman, o único longevo e estruturado (casado desde 1958!). Clift morreu num desastre em 1966, no que chamam 'o suicídio mais longo da História'. Dean esmigalhou-se ao volante de um Porsche aos 24 anos. Brando degenerou num Frankenstein físico e num rei Lear espiritual, avassalado pelastragédias dos filhos. Já Newman, atlético sem ser brutamontes, uma estrela sem vedetismos, envelheceu bem. Fez por vezes de jovem rebelde e um tanto perdido, os olhos azuis bruxuleantes. Nunca descambava no edificante rançoso, vacinando-se com uma ironia e uma malícia implícitas. Mas era ao mesmo tempo intransigente, como se as qualidades morais (uma decência humana sem moralismos) prevalecessem sobre a sedução do corpo. Não protagonizou nenhuma obra-prima clássica.

Mas quantos momentos magistrais!Como 'Butch Cassidy', cuja cena com Katherine Ross, ao som de Burt Bacharach, representa o Adão e Eva mais edénicos que o cinema já filmou. Ou o regresso do jogador de bilhar Eddie Felson em 'A Cor do Dinheiro', a quinta-essência do desclassificado com classe que, finalmente, lhe valeu um óscar depois de 5 indicações. Ou 'A Golpada', ao lado de Robert Redford, onde o acto de burlar um burlão se transfigura num carnaval logístico. Milionário graças ao suor do seu rosto, o actor fundou a Newman’s Own, empresa de catering cujos lucros iam todos para causas beneficentes. O hobby eram as corridas de automóveis. Depois de uma airosa carreira como piloto, tornou--se sócio de uma equipa de Fórmula Indy. Como cientista, mafioso ou detective, Newman despia as suas personagens de solenidade e só as levava a sério até certo ponto. Em vez de ungir a grandiosidade e o heroísmo, as suas criaturas celebravam o que há de belo e divertido nas limitações humanas. O epitáfio dele podia muito bem ser o daquele astronauta americano: 'Amamos demasiado as estrelas para recearmos a noite.'

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