Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
9

Parabéns, Madiba!

Palhotas com telhados de colmo, gente descalça no barro vermelho, campos doirados que se detêm em montanhas negras, na distância. Viajamos com 12 horas de atraso em relação ao horário previsto para chegar a Durban por causa de duas avarias. Às sete da manhã somos obrigados a mudar de autocarro e continuamos viagem engalfinhados como sardinhas em lata. Tento distrair-me com as impalas e com as pessoas na beira da estrada. Passam constantemente negros a correr. Não vão com pressa. Correm numa espécie de endurance arrastado, e tão lento que, por vezes, parecem ficar suspensos.
20 de Julho de 2008 às 00:00
Parabéns, Madiba!
Parabéns, Madiba!

A África que esperava encontrar surge-me, majestática e impiedosa, ao virar de uma curva.

Não percebo patavina das conversas de autocarro. Os brancos falam entre si em afrikaans e os negros em zulu, ou em qualquer uma das outras 10 línguas nativas. Como todos falam inglês, vou metendo conversa com este e com aquele enquanto deambulamos, zombies enregelados pelas estações, à espera de mecânicos milagrosos. É assim que conheço Mike, orgulhoso descendente de camponeses holandeses. Tem 27 anos e cinco minutos depois de me ter perguntado o tríptico trivial - 'quem és, de onde vens e para onde vais' - diz-me com ar de cachorro abandonado que a mulher quer o divórcio. Respondo-lhe: 'Não me espanta, acabaste de a comparar a um carro que precisa de manutenção, quando as pessoas precisam é de… atenção.' Jamais esquecerei a cara dele a olhar para mim, imediatamente antes de se pôr a falar de râguebi.

Durban, com os seus prédios modernos, é uma Manhattan fantasma na noite. Alojo-me no Banana Backpackers, um dos sítios mais estranhos onde já dormi. Partilho o dormitório com um namibiano vice-gerente de um clube chamado Casablanca, com um rapazola do Zimbabwe, com uma loira das Ilhas Faroé e com uma sul-africana indiana que só fala de signos e do destino. Mesmo aquilo de que estava a precisar, penso, numa cidade onde viveu, durante cinco anos, Fernando Pessoa, que não saía de casa sem consultar o horóscopo. Fujo.

As sirenes da polícia misturam-se com pássaros que me soam como gaivotas aflitas. À minha frente levanta-se um casal de patos num voo esquizofrénico. Não consigo imaginar o poeta sisudo nas ruas da Durban multiétnica que tenho pela frente - seria ele assim quando aqui viveu entre os 7 e os 12 anos? Mas então foi há mais de cem anos, uma cidade portuária, num país de colonos.

Hoje, esta África do Sul que se engalana para comemorar os 90 anos de um homem que mudou o Mundo, Nelson Mandela, é uma encruzilhada de culturas e contraculturas, assimetrias e desigualdades. Foi há apenas 14 anos que a luta de Mandela contra o apartheid, regime que considerava os negros cidadãos de segunda, se transformou em democracia. Ainda assim, apesar das cidades satélites de lata, apesar das pessoas que passam na rua com marcas evidentes do Síndroma de Kaposi (um em cada quatro sul-africanos tem SIDA), apesar da violência generalizada e banalizada, o caminho tem vindo a ser feito. Devagar. Com desemprego, xenofobia e cancros sociais de várias espécies à mistura. E Mandela, o herói vivo mais consensual do Mundo, sorri, nos anúncios de televisão, nos desenhos das crianças das escolas, nos cartazes que à beira da estrada o felicitam: ‘Parabéns Madiba!’

Descubro a estátua dedicada a Fernando Pessoa num cruzamento apressado de Durban. Parece não pertencer ali, uma cabeça deformada no meio do lixo, sem que ninguém dê por ele e pelos pungentes versos escritos em inglês: 'Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?'. Pois a mim parece-me que as mães que passam com os bebés às costas a caminho do mercado, ou os velhos cansados que andam ao papel, gente exausta, se estão a borrifar para as lágrimas de Portugal. Não eu, que me demoro a tirar fotografias cinzentas à estátua sem alma.

Só dois dias depois, ao encontrar-me com a alma deste povo na histórica cidade do Soweto, volto a pegar na máquina para registar imagens das pessoas e do bairro onde, em 16 de Julho de 1976 (fez 32 anos), começou a sublevação que viria a ditar o fim do apartheid. Nesse dia, os alunos das escolas desta cidade satélite de Joanesburgo, onde viviam apenas negros, empreenderam uma marcha pacífica de protesto contra a lei que estabelecia o afrikaans como língua oficial para o ensino, substituindo o inglês. Duzentos deles, rapazes e raparigas entre os 12 e os 18 anos, nunca mais voltariam a casa, abatidos pela polícia. E quando a sublevação acabou, meses mais tarde, 600 estudantes tinham perdido a vida. Hector Zolile Pieterson, 13 anos, foi a primeira vítima do massacre e é por isso que existe um museu com o seu nome, onde os acontecimentos do dia 16 de Julho, e seguintes, são relatados com pormenor. 'Para que na memória colectiva nunca sejam esquecidos e repetidos', explica a brochura do museu. E como esquecer a imagem de Hector morto a ser levado em braças por um colega, enquanto a irmã desesperada corre a seu lado?

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)