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PARECE MENTIRA...MAS NÃO É

Não são determinantes para o processo mas têm um lado tão incrível que parecem retiradas de um filme à Hollywood. Conheça algumas histórias inacreditáveis que envolvem personagens do ‘estranho caso Moderna’
25 de Maio de 2003 às 00:00
Nem nos filmes cenas destas são frequentes. Se no cinema é relativamente comum assistirmos a assaltos a bancos em clássico de far-west americano – em que centenas de notas são roubadas e metidas em sacos – já o contrário é muito raro. Imagine milhares de contos em notas lançados para cima de um balcão de uma agência bancária mas, ao contrário dos filmes, com o objectivo de efectuar um depósito. Pois o episódio é verídico, pelo menos confiando no relato de uma das testemunhas do processo Moderna, ouvida pela Polícia Judiciária (PJ) em fase de inquérito.
Miguel de Almeida tinha apenas 27 anos quando, por razões profissionais, conheceu José Braga Gonçalves (JBG). Era bancário, trabalhava no Banco Espírito Santo, em Lisboa, e enquanto gestor de clientes do Privat Bank contactou com mais frequência o homem-forte da Moderna.
Quando foi atribuída à sua responsabilidade a carteira de clientes que incluía as contas pessoais de JBG e também as da Cooperativa Dinensino – que gere a Moderna – Miguel de Almeida recebeu várias recomendações sobre JBG. Foi-lhe dito que “era bem relacionado com a administração, um bom cliente e não apresentava dúvidas à partida”. O bancário revelou à PJ que pôde facilmente comprovar isso logo nos primeiros contactos, tendo JBG “inclusivamente canalizado para o BES vários clientes do seu escritório (de advogados)” e até novas “contas para firmas ‘off-shore’”.
Mas o dia mais marcante da vida profissional de Miguel de Almeida ocorreu em 1997, quando era ainda estagiário. No pico do calor de Agosto, com a maior parte dos colegas do banco de férias, “JBG deslocou-se ao Privat Bank por volta das 19 horas e disse que queria fazer um depósito em numerário de uma quantia muito elevada”, assegurando ainda já ter avisado previamente João Folque Antunes, à data seu gestor de conta.
Estando Folque Antunes de férias, “surgiu a dificuldade de aceitação formal do depósito, porque ninguém queria assinar o talão”, já que se tratava de uma grande quantia em dinheiro – “Todos se recusavam a assinar”, afirmou. Ao ponto de os colegas “terem chegado a solicitar” ao então estagiário Miguel de Almeida que colocasse a sua assinatura, de modo a minimizarem para eles próprios as consequências daquele acto.
A discussão parecia não ter solução quando um dos membros da direcção do banco disparou: “Dê cá essa porcaria que eu assino”.
Miguel de Almeida só compreendeu o porquê de toda aquela agitação quando viu JBG chegar ao banco: “Entrou sozinho nas instalações com o dinheiro”. E sobretudo quando se apercebeu dos valores em causa: “Seriam 70 mil contos em numerário”, garantiu à PJ.
O antigo director da Dinensino, que está preso preventivamente há quase dois anos, contrariou os clássicos de Hollywood. Não trazia o dinheiro numa pasta negra, rígida e com código de abertura, mas sim, ainda na descrição da testemunha, “tal quantia foi transportada por JBG em sacos de plástico”.
Os 70 mil contos em numerário foram, deste modo, depositados, sem quaisquer procedimentos de segurança excepcionais, em virtude de JBG ser “um bom cliente”. Aliás, Miguel de Almeida assegurou que este não foi um caso único. Já depois de ter terminado o estágio e de ter assumido a carteira de clientes – que incluía as contas da Dinensino e de JBG –, “começam a ser-lhe presentes quantias em numerário elevadas, embora inferiores àquela”.
Apenas dois meses depois do episódio dos 70 mil contos, “JBG deslocou-se ao BES”, em Outubro de 1997, “penso que na companhia da sua [à data] esposa, Teresa” para depositar “30 mil contos em numerário na conta da Dominor [uma ‘off-
-shore’ de propriedade de JBG]”, assegurou Miguel de Almeida. Pelo que recorda “essa quantia em numerário era transportada em envelopes castanhos” não reconhecendo se teriam algum timbre. Vários outros depósitos foram feitos em circunstâncias semelhantes.
A testemunha nunca questionou JBG sobre a origem do dinheiro ou o motivo pelo qual se tratava de depósitos em numerário, porque havia “confiança mútua entre a direcção do Private e JBG”.
Actualmente Miguel de Almeida vive em Madrid e trabalha no Manhattan Bank. O seu nome faz parte do rol de testemunhas de acusação e deveria ser ouvido nessa qualidade no Tribunal de Monsanto. No entanto, no mês passado, o Ministério Público prescindiu da testemunha, tendo optado por dispensá-la apenas com a justificação de que “residia no estrangeiro”. Miguel de Almeida não vai, por isso, poder contar estas histórias em Tribunal.
UMA MOTA PARA UM AUTARCA
Não é crime, nem sequer estigma, ter o nome associado ao ‘caso Moderna’ ou aos antigos dirigentes daquela cooperativa de ensino. Mas, analisado o processo ao pormenor, ressalta o facto de quase toda a classe política portuguesa (de todas as áreas partidárias) ter tido ligações à Universidade, quer institucionais, quer pessoais com os seus dirigentes. O nome de José Raul dos Santos é um dos que figuram na lista das personalidades políticas mencionadas nos autos.
Testemunhas ouvidas no processo, indicam o conhecido autarca social-democrata de Ourique como sendo uma pessoa relativamente próxima de José Braga Gonçalves (JBG). O ex-cunhado de JBG, José Maria Ribeiro da Cunha, ligado profissionalmente ao ramo automóvel, contou um episódio que revela como a forma de estar na vida de JBG naquela época, em meados de 1998, terá beneficiado o autarca de Ourique.
Nas declarações prestadas à PJ, Ribeiro da Cunha afirmou que “tomou conhecimento de que, num certo dia, no decorrer de um almoço em que estavam presentes o Presidente da Câmara de Ourique, o Fafe [José Paulo Fafe, ex-jornalista do Tal & Qual] e o JBG”, este, na sequência de uma conversa sobre motas, terá brindado Raul dos Santos com um presente. Explicou Ribeiro da Cunha que quando JBG “ouviu o autarca referir que gostava de motas, logo lhe ofereceu uma Kawasaki, que o outro aceitou.”
O episódio está também registado noutro depoimento. Um dos 13 arguidos do processo, José Cagido, empresário de construção civil e também ligado ao sector automóvel, declarou ter conhecimento dessa situação. Cagido revelou, em fase de inquérito, que a empresa Condeça & Ferreira, da qual foi accionista, vendeu uma mota à Dinensino e “esta foi oferecida por JBG a um Presidente de Câmara do Alentejo.”
À PESCA DO TUBARÃO
Jorge Gomes de Sá, antigo presidente do Conselho Fiscal (CF) da Cooperativa Dinensino, é mais uma testemunha-chave neste processo. É professor universitário, membro assumido da maçonaria (Grande Oriente Lusitano) e uma figura conhecida do público por ter sido director do centro de sondagens da SIC, aparecendo com frequência nos ecrãs em noites eleitorais.
Apesar de lhe competir a fiscalização das contas da cooperativa, Jorge de Sá, ou o “Dr. Gomes de Sá” na terminologia adoptada pelo juiz Ricardo Cardoso, surpreendeu o tribunal quando afirmou não perceber nada de contas: “Absolutamente nada!”. A confissão de tamanha incapacidade foi aumentando a estranheza dos advogados que o interrogavam, incrédulos. É que à medida que lhe iam sendo feitas perguntas, as respostas eram cada vez mais inesperadas: “Para mim, todas essas matérias [contas] são muito complicadas. Se não me for indicado um caminho... Não chego lá. Ainda hoje não sei ler um balanço!”
Jorge de Sá queixou-se em tribunal de ter sido “perseguido” profissionalmente na Moderna pelo então homem-
-forte, José Braga Gonçalves. E, revoltado, chegou a denunciar que este tinha deixado de pagar-lhe o ordenado: “Ele disse-me que tinha sido um capricho. Deixou de me pagar por capricho. Disse-me para eu sair da universidade, até me pediu desculpa”. Sá ainda acrescentou com desalento: “Pediu-me desculpa mas não me pagou à mesma!”
“E foi à procura de explicações para essa falta de pagamento e porque estava ‘de mal’ com o Dr. JBG que foi com ele à pesca do tubarão, no Algarve?!” – perguntou com ironia a advogada Paula Lourenço, que assegura a defesa do pai e do irmão de JBG, ambos também arguidos. Jorge de Sá não esperava a pergunta, mas confirmou: “É verdade que participei nessa cena, aliás enjoei!”
A partir daqui, por mais pertinente que fosse a intenção da chamada deste assunto a tribunal, ninguém resistiu aos detalhes da pescaria relatados por Jorge de Sá com um humor desengonçado: “Era Agosto, estava calor e eu estava no Algarve. É verdade que nessa altura já não me pagavam, mas eu não tinha a certeza se era ele [JBG] o responsável directo por aquelas indicações”. E a advogada insistia, tentando dar um tom sério à pergunta: “Portanto, deixe-me ver se percebi: o senhor teve uma oportunidade de ouro com o JBG, durante um dia inteiro de pesca ao tubarão, como é que é possível não ter falado com ele sobre o assunto? A pesca estava assim tão animada? Quantos tubarões apanhou, Sr. Dr.?!”
Perante as ruidosas gargalhadas que ecoavam na sala, Jorge de Sá teve que repetir a resposta, por não ser audível: “Essa era a minha intenção, falar com ele sobre esse assunto, mas ele esteve sempre a ‘chutar para canto’”.
Os comentários laterais foram inevitáveis na sala, e de teor sarcástico óbvio. O antigo presidente do conselho fiscal insistiu: “Além disso, pouco depois de ter entrado no barco, ficou muito enjoado”. Na sala de audiências do Tribunal de Monsanto, já havia quem quase chorasse a rir. “Pode prosseguir, ‘Dr. Gomes de Sá’, estamos a ouvi-lo, estamos a ouvi-lo, somos todos ouvidos”, disse, recostado na cadeira, o juiz Ricardo Cardoso. A testemunha acedeu: “Ele mal conseguia falar, fartou-se de vomitar para cima de toda a gente e tudo... Não estava bem. Ainda tentei, mas disse-me que não queria falar sobre isso. Coitado, estava mesmo muito enjoado...”
Poucos na sala ficaram convencidos de que as relações entre os dois protagonistas deste episódio estivessem, no mínimo, tensas. O comentário generalizado sussurrava-se entre togas: “Quem se sente perseguido não vai para altas pescarias com o perseguidor”.
Quando, há dias, JBG se referiu a esta situação, confirmou tudo, excepto a questão do enjoo. Salvaguardou, antes de mais, que tinha sido “um passeio absolutamente grátis”, não tendo pesado nos cofres da Dinensino, e revelou que “o Jorge de Sá foi a única pessoa que eu consegui convencer a ir, porque quem sabe o que é a pesca ao tubarão, não vai nem com uma pistola apontada à cabeça!”.
CAMPEONATOS DE XADREZ
Como sobreviver aos períodos de monotonia de um julgamento que se arrasta há mais de um ano com sessões diárias? Em Monsanto, há intervenientes no processo que, em parte, já resolveram a questão. Introduziram um muito informal, mas já reconhecido, campeonato de xadrez.
A competição é saudável e aberta a quem queira participar, aceitando-se sugestões de jogadas e opiniões ou críticas de todos: arguidos, advogados, juízes ou procuradores. Os advogados são os que mantêm um nível de participação mais elevado, e entre eles encontramos os mais entusiastas jogadores (quase profissionais, cujos nomes, por elegância, aqui não reproduzimos).
Nos intervalos das sessões comentam-se algumas das jogadas mais brilhantes da meia hora anterior, enquanto na sala se debate um tema que pouco interessa aos que naquele momento mexem estrategicamente as peças. Testa franzida, rosto pensativo, olhar preso na mesa que discretamente oculta um mini-tabuleiro adaptado à situação e corpo praticamente imóvel, são os sinais de que alguém na sala está em jogo.
Todos simpatizam com a iniciativa. Há quem cite bibliografia especializada, há quem troque livros sobre a modalidade, há quem refira nomes de grandes mestres de xadrez a propósito de quase nada. Há ainda quem no final da sessão pergunte, curioso, se já há ‘xeque’. Xeque, bem entendido, escrito com a letra X, já que o outro, o de ‘c-h’, é a palavra mais repetida na sala.
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