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Correio da Manhã

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Parem o Mundo que quero descer!

Comida rápida, trabalho rápido, diversão rápida, amor rápido – estamos condenados à velocidade ou podemos abrandar?
21 de Janeiro de 2007 às 00:00
O passo de Marta Santos, 45 anos, profissional liberal, é vagaroso. Homens e mulheres caminham apressados, ultrapassam-na, rasando-lhe o ombro, mas ela não parece incomodar-se e continua, lentamente, a subir a Rua Garrett, no Chiado.
São três da tarde de terça-feira. Marta não paga quotas – ninguém o faz, pois não se trata de um clube ou coisa que o valha –, mas pertence, quanto mais não seja pela atitude, a um movimento cada vez mais popular no Ocidente, dito do abrandamento ou ‘Slow Movement’.
“Os rótulos não me interessam. Não sei se sou ‘fast’ [rápida] ou ‘slow’ [lenta]”. O que Marta sabe é que, há cerca de dois anos, saía de casa ainda os filhos, a Rita e o João, não tinham acordado e regressava quando já haviam jantado, preparando-se para adormecer de novo. Ela conta: “Ia logo de manhã ao ginásio. Depois para o escritório. Uma vez por semana arranjava o cabelo na hora de almoço, que era, normalmente, uma sopa. Duas vezes por semana, em horário pós-laboral, frequentava aulas de pós-graduação.”
Marta inscreveu os filhos em “todas, e mais uma, actividades extracurriculares”. Para além da escola, a Rita, com cinco anos, frequentava aulas de ballet e Inglês. O João, depois de aprender o bê-á-bá, seguia para o futebol nos dias em que não havia karaté.
“Os meus filhos não brincavam.” Marta percebeu que estava a organizar a agenda das crianças, ocupando-lhes todo o tempo livre. Mas nem por isso as sentia mais felizes, “apenas cansadas.”
Deu-se o ‘click’ e a seguir a mudança, traduzida no abrandamento, simplificação, eliminação do que foi considerado desnecessário: as idas ao ginásio e ao cabeleireiro e a pós-graduação de Marta, enquanto as crianças passaram a ter como únicas obrigações a escola e todas e mais uma brincadeiras, muitas delas envolvendo a mãe.
O MAIS IMPORTANTE É MUDAR DE ATITUDE
“O mais importante é mudar de atitude”, afiança o professor Artur Lemos, 39 anos. “Quando fazia qualquer coisa estava sempre a pensar noutra, no que ia fazer a seguir ou dentro de dias. Nunca ‘estava’ exactamente naquilo que fazia.” Artur avaliou seriamente esta espécie de deslocamento ao iniciar-se nas aulas de ioga. “Omestre instava-nos a permanecer naquilo que designava ‘o aqui e agora”. O processo de abrandamento, no caso deste professor, foi principalmente íntimo, menos visível, por comparação com a volta que Marta Santos deu à vida.
Quer uma quer outro têm em comum o ‘corte’ quase radical de relações com a televisão – nas palavras de Artur – “verdadeiro sumidouro do tempo que constantemente dizemos faltar-nos”.
Oprofessor mudou também a relação com a alimentação. “Nunca fui adepto de ‘fast-food’ [comida rápida], mas agora nem sequer entro nos restaurantes que a servem. Passei a cozinhar e convido frequentemente os meus amigos para jantar lá em casa.”
Não é para todos – para quem tem o ‘vício’ da velocidade, por exemplo –, mas os que escolhem viver devagar gostam de pensar que são mais atentos aos outros, próximos ou nem tanto: fazem por conhecer os vizinhos, os colegas dos filhos e os pais deles, aplicam-se em projectos comunitários, em síntese, mostram-se mais disponíveis.
O conceito de ligação – a nós próprios, à família, à comunidade – é basilar na definição teórica do ‘Slow Movement’, cujos ‘gurus’ garantem ser possível abrandar mantendo ao mesmo tempo as responsabilidades. Ou seja, não se trata de pura e simplesmente deixar de trabalhar para sustentar a família, mas de estabelecer prioridades, admitindo a possibilidade de, em algumas circunstâncias, o tempo ser mais do que dinheiro, sobretudo quando basta o que se ganha.
Recusar mais dinheiro ou mais poder pode parecer uma ideia estapafúrdia à maioria. Mas os ‘vagarosos’ não receiam afastar-se da corrente. Muito ao contrário: é precisamente isso que pretendem. O que carece de sentido – alegam Artur e Marta – “é fazer qualquer coisa só porque os outros também fazem” ou “trabalhar de uma certa maneira porque é assim que os outros trabalham”.
TUDO COMEÇOU PELO ESTÔMAGO
Tudo começou pelo estômago. O abrandamento genérico resulta de certa maneira do ‘Slow food’ – comer devagar por oposição a ‘fast-food’, comida rápida. O ‘Slow food’ nasceu nos anos 80 em Itália, em reacção ao projecto de instalar um restaurante McDonald’s na Praça de Espanha, em Roma. Em 1986 o cozinheiro Carlo Petrini organizou um protesto público. Os manifestantes empunhavam pratos com massa italiana.
Recuperar receitas antigas, valorizar a gastronomia de cada país, sublinhar o valor social, ligado ao convívio, da refeição e ensinar aos mais jovens, sem qualquer relação com o campo, que, por exemplo, o leite não vem do supermercado são alguns dos objectivos de quem gosta de comer lentamente.
Duas décadas passadas, o movimento da ‘comida lenta’ existe em mais de cem países, incluindo o nosso, e conta com cerca de 80 mil membros. Difícil é dizer quantos são os praticantes da lentidão como maneira de estar na vida. Os que, a certa altura, disseram “parem o Mundo, quero descer” e fizeram-no. Garantem que são mais felizes.
HISTÓRIAS INFANTIS NUM MINUTO
Quando começou a procurar uma colecção de histórias infantis que pudesse ler aos filhos, de 4 e 7 anos, em menos de um minuto, Jean Carl Honoré, um dos precursores do “movimento do abrandamento”, percebeu que alguma coisa estava profundamente errada na sua vida.
“Tentava fazer mais e mais em cada vez menos tempo: era quantidade antes de qualidade em tudo. Todos os momentos eram uma corrida contra o relógio”, conta no livro ‘Devagar – Como um Movimento Mundial está a Desafiar a Cultura da Velocidade’, entre os mais vendidos em vários países e não editado no nosso. Honoré abrandou. Riscou da agenda diária o que estava a mais, a começar pela televisão.
PEQUENO LÉXICO DO ABRANDAMENTO
TEMPO
O tempo é nosso amigo e contra os amigos não se corre.
VOLUNTURISMO
Os ‘lentos’, quando viajam, passam pelo menos uma semana em cada local e envolvem-se, como voluntários, em acções comunitárias.
TELEVISÃO
Os ‘vagarosos’ preferem os livros à televisão.
IR LONGE DEVAGAR
Numa sociedade em que fazer depressa significa capacidade e prestígio, abrandar não é fácil mas é possível. Para os interessados, eis alguns conselhos.
PENSAMENTO POSITIVO
Se o leitor é daqueles que pensa sempre o pior possível, pense outra vez e agora sem negatividade. Evite sair de casa com a certeza de que vai chegar atrasado ao trabalho. Ou sair do emprego pensando que vai chegar atrasado ao jantar em família. Pense positivo. Escola Os pais ‘lentos’ ensinam as crianças em casa.
MANIA DO CONTROLO
Não tente controlar aquilo sobre que não tem qualquer tipo de controlo. E não se preocupe com isso. Defina o que pretende atingir e depois a maneira mais eficaz para consegui-lo. Não alimente preocupações por causa de assuntos em que ninguém, além do leitor, repara.
AJUDA E EXERCÍCIO
Os tempos são de individualismo, mas cada um é como cada qual e nesse caso por que não pedir ajuda quando o ‘stress’ aperta? Não se esqueça igualmente que alguns minutos de exercício diário podem fazê-lo sentir muito melhor e então a vida corre melhor também.
MEDITAR
Meditar não é pensar seriamente sobre um assunto. É exactamente o contrário: afastar todos os pensamentos. Experimente. Pode fazê-lo em qualquer sítio. Não precisa de inscrever-se numa academia ou aderir a um grupo esotérico. Medite, ou seja, não pense, dez minutos por dia.
SALVEM O SLOW (Opinião da Jornalista Dulce Garcia)
Sou do tempo do slow. Do tempo em que os bailes e festas de garagem tinham esse momento único – a salvação dos tímidos, o empurrão dos indecisos – que era dançar agarrado. A-ga-rra-do. A palavra a arrastar-se ao som da música, as luzes, frouxas, a pararem o tempo, e o coração a explodir nos ouvidos: bum, bum, bum.
O slow era o ponto alto das tardes de domingo, arma secreta desses antros que os nossos pais tanto abominavam: as discotecas. Era o momento em que os sonhos pareciam tornar-se realidade e os corpos, inexperientes, avançavam para cumprir todas as promessas que se fazem aos 15 anos.
Quem é que não deu um beijo ao som de ‘The Power of Love’, dos Frankie Goes to Hollywood, o melhor slow dos anos 80? A primeira versão, lançada em 1984, tinha 5 minutos e 27 segundos e dava tempo para uma pessoa se apaixonar. Cinco minutos? Aos 15 anos apaixonamo-nos em dois segundos. E parece que vai durar para sempre.
Mais tarde, a banda de Liverpool – sim, eram de Liverpool, como os Beatles – lançou uma versão de 22 minutos (aposto que para os mais velhos. Porque depois dos 30 o coração já não vive ao pé da boca, esconde-se, o cobarde).
Hoje, olhando para trás, parece mentira que a nossa vida tenha estado suspensa ao som de músicas como ‘I’m Not in Love’, dos Westlife, ‘Against All Odds’, de Phil Collins ou ‘Words’, de uma criatura inenarrável chamada F.R. David. Há quem diga que todos os slows são ridículos, como as cartas de amor. Datados, foleiros, manhosos. Mentira. Alguém tem coragem de chamar piroso ao tema ‘She’, interpretado por Elvis Costello e celebrizado no filme ‘Notting Hill’ (onde uma planetária Julia Roberts conquista um desajeitado Hugh Grant)? Ou ao arrastado ‘Can’t Get Enough of Your Love, Babe’, de Barry White? E o clássico ‘Slave to Love’, de Brian Ferry? Já para não falar de 90 por cento das músicas da nigeriana Sade.
Os slows podem ter desaparecido das discotecas e das festas chiques, mas isso não quer dizer que tenham morrido. É como o amor – está fora de moda dizer que se está apaixonado. Mas não há coisa melhor do que sentir esse tremor nas pernas.
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