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Os célebres portugueses que morreram de gripe espanhola

Doença varreu o Planeta em três vagas sucessivas. Em Portugal estimam-se mais de 100 mil mortes entre as primaveras de 1918 e de 1919.
Marta Martins Silva 11 de Maio de 2020 às 16:24
Francisco e Jacinta
Amadeo Souza-Cardoso
Francisco e Jacinta
Amadeo Souza-Cardoso
Francisco e Jacinta
Amadeo Souza-Cardoso

Portugal perdeu os pastorinhos Jacinta e Francisco para a pneumónica, a doença que varreu o Planeta em três vagas sucessivas, entre as primaveras de 1918 e de 1919, mas a gripe espanhola (embora não haja consenso acerca da origem do vírus), vitimou mais portugueses conhecidos, como os pintores Amadeo de Souza-Cardoso e Guilherme Santa-Rita, o maestro David de Sousa e o músico António Fragoso (lá fora, Apollinaire, o poeta francês, gravemente ferido em combate, acabou por morrer vitimado pela gripe).

Os cálculos atuais desta doença em todo o Mundo variam entre os 40 milhões e os 100 milhões e Portugal terá sido um dos países mais afetados – as estatísticas oficiais apontavam para 60 474 vítimas mortais, mas num estudo de 2018, publicado no ‘American Journal of Epidemiology’, foram confirmados 117 764 óbitos. Na altura, Ricardo Jorge, então diretor-geral da Saúde, tentou criar um sistema de saúde de um momento para o outro com uma estrutura em pirâmide, envolvendo os distritos e os concelhos, e tornando a pneumónica doença de notificação obrigatória. Os primeiros casos foram detetados em homens de Vila Viçosa, que tinham estado a trabalhar nas ceifas em Badajoz e Olivença. Mas o vírus pode ter sido trazido pelos militares regressados das trincheiras da Grande Guerra.

Os jornais noticiavam que havia cadáveres nas ruas de Lisboa "embrulhados em lençóis, à espera que uma carreta os transportasse para a vala comum". O Presidente da República, Sidónio Pais, deixava esmolas nos hospitais
e orfanatos, os Armazéns do Grandela fizeram 10% de desconto no vestuário de luto para famílias, enquanto a Casa Áurea, outro estabelecimento de renome da capital, afirmava que a melhor medida para evitar a gripe eram os casacos de lã ali vendidos. Em Portugal, a pneumónica levou a uma crise demográfica grave: um saldo fisiológico negativo em 1918 (menos 70 291) graças a uma epidemia que zombava da medicina, como chegou a chamar-lhe o jornal ‘A Capital’ em 1918.

À gripe, que matava sobretudo os jovens e poupava crianças e idosos, escaparam com vida o rei espanhol Afonso XIII, o escritor Franz Kafka, Walt Disney (dez anos antes de criar o Rato Mickey), a atriz sueca Greta Garbo, Franklin Roosevelt, na altura em que era secretário assistente da Marinha, e o então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, que apanhou a pneumónica enquanto participava nas negociações de paz. Teria o Tratado de Versalhes sido diferente se ele não tivesse ficado doente? Nunca se saberá.

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