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PAULO CARDOSO: A ASTROLOGIA VIVE NA CLANDESTINIDADE

Cursou Química, abraçou o mundo das artes mas, na ‘vida real’ todos o conhecem como astrólogo. Tem 50 anos, é Virgem com ascendente em Balança e fascinado por Fernando Pessoa
4 de Janeiro de 2004 às 15:07
O Paulo Cardoso tem um percurso curioso: licenciou-se em Química, gosta de pintura mas é astrólogo.
(risos) Em miúdo adorava o Professor Pardal. Desde os nove, dez anos, que era um fervoroso adepto da Química, a tal ponto que transformei a garagem da casa onde vivia no meu laboratório. Fazia imensas experiências e comecei a interessar-me pela Alquimia. Terminado o liceu e como eu sentia este fascínio pela química, pela Matemática e pela Física Atómica, os meus pais sugeriram que eu tirasse essa licenciatura e não me opus.
No entanto, a Química acabou por desiludi-lo.
Basicamente porque lhe faltava a componente humana e estética. Descendo de uma família ligada às artes e acabei por ‘conservar’ da Química o lado rigoroso dos cálculos científicos – que, mais tarde, vim a precisar na Astrologia – mas abracei as Belas-artes.
Como é que a astrologia entra na sua vida?
Em meados dos anos 70, uma amiga minha traz-me dois livros de astrologia e, muito convicta, diz-me: “Paulo, descobri aqui dois livros que ajudam a fazer o horóscopo”. Ela falou-me em tabelas e em terminologias que, na altura me eram desconhecidas, mas comecei a fazer o meu horóscopo através daqueles livros e, confesso, fiquei estupefacto com aquilo que descobri. A astrologia surgiu na minha vida como uma magia do destino porque percebi que era esta a disciplina que eu procurava e que combinava o rigor da Química com a sensibilidade humana.
Em 1977 começou a dar consultas e tornou-se profissional sem ter aprendido com ninguém.
Sou um autodidacta e, naquela altura, era raro encontrarmos livros de astrologia. Hoje em dia, há estantes e estantes com bibliografia mas nos anos 70 não era assim. Depois de ter feito mapas a todas as pessoas que me rodeavam e de ter absorvido toda a literatura que chegava a Portugal, tornei-me profissional e elaborava e interpretava mapas natais a estranhos.
Um mapa natal é baseado no dia, hora e local de nascimento de cada pessoa. O que é que nos revela, exactamente, este estudo?
O mapa do céu/natal é um gráfico rigoroso, ou seja, é uma fotografia de todos os planetas do sistema solar, vistos do sítio onde a pessoa nasceu. O que está no mapa é uma fotografia do céu. Hoje em dia, este mapa é feito com programas de computador, cujas fórmulas são as mesmas que a NASA utiliza nas suas descobertas espaciais.
Mas também é a vida das pessoas.
A interpretação que se faz do mapa é uma interpretação feita pelos astrólogos e cada um tira as suas ilações. O que a astrologia diz é que, segundo a conjugação planetária da pessoa em questão, existem determinados tipos de predisposições. Ao longo dos anos tenho verificado a autenticidade dessas predisposições.
Há uma questão que é clássica: como é que duas pessoas que nascem no mesmo sítio, à mesma hora, crescem no mesmo ambiente, podem ter caminhos de vida distintos?
Geralmente, essa pergunta põe-se quando se trata de gémeos e esses nascem com minutos de diferença o que pode mudar completamente o seu mapa natal. Mas, em termos gerais, duas pessoas nessas condições têm, à partida, uma vontade idêntica, mas cada um pode responder ou reagir de forma diferente ao seu destino. Mas há casos em que não se passa o mesmo. Por exemplo, com os animais, é diferente. Se fizermos um mapa a dois gatos que nasceram exactamente à mesma hora e no mesmo local, têm vidas idênticas.
Fazem-se cartas astrológicas para animais?
(risos) Eu não sou especialista mas há muitos astrólogos que o fazem… Confesso que, na brincadeira já fiz às minhas cadelas. O que me interessa é a astrologia humana não a veterinária! (risos).
Ou seja, se existe o livre arbítrio e se as pessoas podem reagir de formas distintas ao seu destino, os mapas natais nunca são definitivos.
O que acontece é que eu posso falar nas predisposições às pessoas e dizer, por exemplo: “Vai ter um período de alguma instabilidade emocional nos próximos três meses e você pode responder a isso”. Interessa-me mais a evolução psicológica (e também espiritual) da pessoa enquanto ser humano e esse é o meu objecto de análise. Não estou particularmente inclinado para dizer às pessoas que vão ter dois filhos no ano X.
De uma forma geral, as pessoas buscam repostas para os problemas através da astrologia.
Aconteceu centenas de vezes atender pessoas que queriam saber se iam casar, se iam ganhar mais dinheiro e por aí adiante… No entanto, não é esse o propósito da astrologia. E, repare, interpretar uma carta astral não é propriamente um acto de magia. Também depende da minha capacidade de tranquilidade e bem-estar naquele dia. Não estamos a ver uma planta mas sim, uma pessoa. Tenho que ter uma enorme sensibilidade para perceber, logo no início de uma conversa, que tipo de bagagem é que a pessoa tem e qual o seu estado de espírito para me ouvir.
Contudo, a verdade é que, hoje em dia, cada vez mais, as pessoas recorrem ao mundo esotérico como se este fosse a ‘última salvação’ …
Tem toda a razão. Conheço pessoas que vêm aqui, vão ali, vão acolá, vivem destas coisas. Experimentam as áreas todas das ciências ocultas porque, a realidade, é que estão carentes e sentem-se de alguma forma, em desequilíbrio. Ora, nestes casos, quando nos confrontamos com situações desta natureza, temos que ter imenso cuidado, porque estas pessoas estão fragilíssimas e uma palavra mal dita pode ter resultados catastróficos.
O seu papel é o de orientar as pessoas. Um astrólogo é um terapeuta?
O meu papel neste mundo é explicar às pessoas o que é que a astrologia pode fornecer enquanto forma de auto-conhecimento. Dou conselhos. As pessoas são livres de os seguirem ou não. De certa forma, um astrólogo é um terapeuta.
Neste momento não dá consultas, mas sim, os seus assistentes.
"Estou a criar a Escola Portuguesa de Astrologia onde dou aulas", quer em Lisboa, quer no Porto. Tenho que ter, obrigatoriamente, alguns assistentes. São pessoas nas quais confio e que possuem sensibilidade e sentido de responsabilidade.
Acredita que as Ciências Ocultas deviam ter uma Ordem que regulasse o exercício da profissão?
Estamos a pensar nisso e já houve uma tentativa de juntar um pequeno grupo de pessoas interessadas em dar uma imagem mais clara, transparente e culta à astrologia. Mas, confesso, não é fácil. A astrologia ainda vive na clandestinidade… somos um bocadinho mal-aceites, há uns que têm ética, outros não.
Se calhar, é por isso que, na Feira do Oculto, se vê de tudo um pouco. Mas o Paulo chegou a participar na primeira…
Só fui à primeira. Confesso que sou um bocadinho ‘medroso’ e,como não me identifiquei com a feira, não quis que as pessoas que acreditam em mim me vissem ali. Não tenho nada contra, mas não me parece o melhor ecaminhos para divulgar seriamente a astrologia.
Consta que o ‘mundo’ esotérico é extremamente competitivo.
É verdade. Não me preocupo com isso porque não tenho inveja de ninguém, sei exactamente qual o caminho que desejo percorrer e se alguém me invejar, não
fico incomodado. Este ‘mundo’ é um fenómeno relativamente novo em Portugal e que está a crescer. Obviamente que este processo pode criar algumas susceptibilidades.
O Paulo escreve para vários jornais, revistas e portais. Há quem o acuse de utilizar uma linguagem muito técnica.
Penso que sou acessível e quando uso termos técnicos, tento-os explicar antes. É uma forma de ir familiarizando quem me lê à linguagem da astrologia.
LAÇOS DE FAMÍLIA
“Nasci em Lisboa e os meus pais também”, diz-nos o astrólogo. No entanto, a família materna é de ascendência italiana. “Eram músicos napolitanos”, salienta. “Do lado do meu pai somos da zona de Lamego, perto do Douro. No entanto, tinha um avô que era do Porto e penso que, algures, ainda há uma costela espanhola”. Divertido, o astrólogo que é o mais velho de cinco irmãos comenta: “De qualquer forma, com tanta misturada na minha família, não há dúvida que sou latino e que herdei o sentido do rigor do meu pai e o prazer da estética, da literatura, da música e da poesia da minha mãe”.
ESTUDAR O POETA
Paulo Cardoso estudou durante doze anos o espólio de Fernando Pessoa, chegando, inclusivamente a publicar dois livros sobre o assunto e, na voz do próprio, “a realizar mais de 400 palestras”. “Aquilo que mais distingue este homem de qualquer outro escritor mundial, além do processo de heteronomia, a biografia e a linguagem de cada um deles, é que foi tudo elaborado numa base astrológica. Ele era Gémeos com ascendente Escorpião e tinha a predisposição natural para abarcar quatro personalidades dentro de si”, comenta. Segundo Paulo Cardoso, não é comum encontrar-se alguém com mais de duas personalidades. “Ou dualidades. Raramente pode acontecer que uma pessoa tenha três. Mas quatro? Só conheço Fernando Pessoa”, acrescenta. Ao contrário do que se possa pensar, a dualidade no ser humano não é, obrigatoriamente, sinónimo de insta-bilidade. “São apenas duas vidas que a pessoa tem dentro dela mas isso não faz com que seja ‘maluquinha’ ou instável”, revela, prosseguindo: “Os Gémeos com ascendente em Escorpião têm, à partida, uma predisposição natural para reagirem de formas diferentes a determinadas realidades”.
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