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Pausa no sofrimento

Para quem é obrigado a viver com dor, o alívio torna-se um oásis no meio de um deserto de sofrimento. Mas ele é possível. Hoje, os tratamentos permitem já o alívio em 90 por cento dos casos.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Pausa no sofrimento
Pausa no sofrimento FOTO: Ilustração Ricardo Cabral
Entra sem pedir licença. À semelhança de um ladrão, invade o corpo, ataca a alma. Sem dó nem piedade, é capaz de roubar a alegria de viver, os amigos, e até parte da personalidade. Chamam-lhe dor e, em tempos, foi encarada como uma forma de expiar os pecados. Hoje, muitos continuam a olhá-la ainda como uma fatalidade e resignam-se a sofrer em silêncio.
“A dor ainda é frequentemente considerada como uma inevitabilidade”, explica José Castro Lopes, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
“Para a maioria das pessoas, alguém que é submetido a uma intervenção cirúrgica tem que ter dores, uma mulher em trabalho de parto tem que ter dores, um idoso com doenças osteoarticulares tem que ter dores. Por outro lado, embora muitas pessoas morram com dor, e mais ainda convivam com ela diariamente, raras são as pessoas que morrem por causa dela. Deste modo, a dor é inúmeras vezes subestimada, escondida, negada e, consequentemente, negligenciada, tanto pelos doentes como pelos profissionais de saúde.”
Dores mais ou menos intensas, que não matam, mas moem. Para dois milhões de portugueses – um em cada cinco –, o sofrimento tornou-se rotina.
Os médicos chamam-lhe crónica, porque insiste em afligir durante mais de três meses e prolonga-se sem autorização do corpo, que não hesita em massacrar. Fernanda Sá conhece-a bem. Há mais de 12 anos que se tornou companhia constante. “Imagine viver diariamente com a sensação de ter 39 graus e ter que aprender a conviver com ela 24 horas por dia, de tal forma que se torna a nossa prótese. Imagine ter dores em todo o corpo, que tiram a vontade de sair da cama, de vestir, de comer, de pensar.” O responsável, dizem os médicos, é uma doença pouco compreendida em Portugal, a que chamam fibromialgia. Uma patologia que obriga aqueles que dela sofrem a lidar com a dor diariamente. Umas vezes mais forte, outras mais fraca, mas sempre presente.
Em tempos, o sofrimento de Fernanda Sá foi como a caixa de comprimidos que a acompanhava, com diferentes compartimentos, tantos quantas as fases da doença. “Primeiro, tentar perceber o que se passa, sem saber o que se tem. Depois, enfrentar a realidade, pensar que vai ser preciso viver com a dor a vida inteira. Finalmente, aprender a lidar com ela, com todas as alterações que obriga no dia-a-dia.”
Fernanda passou por todas as etapas e, hoje, as 28 pílulas que tomava em busca de alívio estão reduzidas a duas, uma de manhã e outra à noite, acompanhadas pelas mudanças que a doença exigiu. Mas muitos há que continuam a fazê-lo, a enfrentar a dor sem ajuda, a que acresce uma dose de incompreensão por parte da sociedade. “O Governo assume a dor na doença, mas não no doente”, afirma Fernanda Sá. “Há muitos que continuam a ser obrigados a trabalhar, quando a dor os impede.”
DIZEM OS NÚMEROS que, em média, 20 por cento dos europeus sofre de dor crónica há pelo menos sete anos. E diz a realidade que esta forma de sofrimento continua a ser subtratada. “Com as técnicas que temos actualmente ao nosso dispor é possível um alívio na esmagadora maioria dos casos. Isto é, redução da intensidade da dor para níveis aceitáveis e compatíveis com uma qualidade de vida razoável, e não eliminação completa, a qual por vezes não é possível nem desejável. Aliás, a dor é frequentemente um sintoma fundamental para o diagnóstico de muitas doenças e, nesse sentido, constitui um sinal de alarme de importância vital para o indivíduo”, confirma José Castro Lopes.
São várias as armas à disposição da Medicina para o tratamento da dor crónica. As mais poderosas e menos compreendidas são os opióides, entre eles a morfina. Isolada pela primeira vez em 1803 pelo farmacêutico alemão Friedrich Wilhelm Adam Serturner, que lhe deu o nome em honra do deus grego do sono, Morfeu, generalizou-se a partir de 1853 com a invenção da agulha hipodérmica.
Apesar da sua eficácia, Portugal é o país europeu onde o consumo per capita destas terapias é mais baixo. A barreira cultural é um dos principais impedimentos. “Tomar um medicamento opióide ainda significa, para muitas pessoas, estar à beira da morte, o que é um enorme disparate.” A ela, juntam-se outros: as regras e os regulamentos desnecessariamente restritivos e a falta de meios económicos – entre nós a taxa de comparticipação dos opióides é de 40 por cento, contra os 75 a 100 por cento do resto da Europa –, que impede aos doentes nacionais o acesso a um tratamento ao nível dos melhores da Europa.
PORTUGAL APRESENTA ainda outras carências quando se trata de lidar com a dor. Depois da primeira unidade especializada no seu tratamento ter surgido em 1978, no Instituto Português de Oncologia de Lisboa, outras se seguiram e, em 2003, contabilizavam-se 25 de Dor Aguda e 53 de Dor Crónica. Números que, segundo José Castro Lopes, são ainda insuficientes. “Estamos longe de atingir as metas do Plano Nacional de Luta Contra a Dor. É necessário que os profissionais dos cuidados de saúde primários, nomeadamente os médicos de família, sejam mais sensibilizados.”
Apesar das dificuldades, há esperança. “Existem já no nosso País um grupo de médicos especializados no tratamento da dor, que estão perfeitamente aptos a resolver os casos que, pela sua complexidade diagnóstica ou terapêutica, requerem cuidados de saúde mais diferenciados. E temos assistido a grandes progressos na investigação dos mecanismos neurobiológicos responsáveis pela dor e os novos conhecimentos irão seguramente resultar em terapêuticas cada vez mais eficazes e mais seguras.”
NÚMEROS DE UMA REALIDADE DOLOROSA
A dor não se vê, mas tem reflexos em todos os aspectos da vida humana. No trabalho, em casa, com os amigos, impede um dia-a-dia normal, sendo ainda responsável por custos económicos elevados. Só em 1998, no Reino Unido, estudos indicavam que os custos das lombalgias ascendiam a 19,8 biliões de euros. Dores às quais se juntam muitas outras.
- 30% dos portugueses sofrem de dor crónica.
- 90% das cirurgias provocam dor.
- 33% da população mundial sofre de algum tipo de dor.
- 34% das queixas de dor são atribuídas à osteoartrose.
- 60% a 90 por cento dos doentes com cancro avançado tem dores.
- 15% sofre com dor de enxaquecas.
ALÍVIO É POSSÍVEL
É, muitas vezes, impossível prevenir a dor. No entanto, para além dos medicamentos, existem formas simples de a minimizar. Saiba quais.
BOA NOITE DE SONO
Uma noite mal dormida é capaz de destruir a capacidade de lidar com a dor. Pelo contrário, dormir bem é um passo importante para dominar o inimigo que vem de dentro e gerir a dor de uma melhor forma. Por isso, é essencial assegurar as condições ideais para uma noite descansada.
RELAXAR O CORPO
A dor é responsável pelo aparecimento de stress físico e emocional. Deixa os músculos tensos, aumenta a pressão do sangue e o bater do coração. Meditar é uma boa forma de afastar estas sensações e tem sido usada há vários séculos para reduzir a tensão e tratar a dor.
DISTRAIR A MENTE
Evitar concentrar-se na dor não é tarefa fácil, mas pode ajudar. E há formas de o conseguir. Por exemplo, ouvir música calma, conversar com alguém ou dedicar-se a actividades artísticas. É que, dizem os especialistas, a comunicação através da arte torna mais fácil enfrentar a dor.
RECORRER À PSICOLOGIA
A dor pode surgir influenciada por factores de ordem física, mas também psicológica ou social. A psicologia pode ajudar o doente, estimulando-o ao desenvolvimento de novos comportamentos e atitudes perante a dor, que podem ajudar a enfrentá-la de uma forma mais positiva.
OPINIÃO DA JORNALISTA DULCE GARCIA
O PODER DA DOR
A história é contada por um sobrinho de François Miterrand ao ‘Le Point’, no ano em que se comemora uma década sobre a morte do mítico presidente francês. Durante a década de 60, numa visita a casa do irmão, Robert, Miterrand – que levou a mulher e o cachorro desta, uma espécie de cão salsicha baptizado como Lip – deu a Fréderic (na altura com 13 anos) uma das mais práticas lições sobre poder que o cineasta viria a receber em toda a sua vida. Sentado num sofá ao lado de Lip – que tinha o hábito burguês de ladrar por tudo e por nada – o político passou o tempo a repreendê-lo, e como não obtivesse resposta lançou-lhe a mão ao focinho para assim calar “aquela bola de pêlo insuportável” (como é descrito por Fréderic Miterrand, hoje cineasta, escritor e jornalista).
O cão acabou por cerrar os dentes na mão do antigo presidente, deixando-lhe um fio de sangue que não tardou a alastrar. A mulher, Danielle Gouze, irritada, perguntou-lhe se não podia deixar o cão em paz por um momento, enquanto o irmão, aflito, correu a procurar um desinfectante. Lip, esse, parou de ladrar e rosnar. Silencioso, foi sentar-se aos pés de François Miterrand, num exemplo claro de rendição.
A dor torna-nos mais fortes. É triste, mas é verdade. Enrija o físico, apura a personalidade e atrai uma legião de seguidores. E a doutrina começa cedo. Qual é o segredo dos miúdos mais populares da escola e do bairro? A colecção de nódoas negras que exibem, insuflados, como medalhas de ouro. No liceu, as meninas acham sempre graça aos rapazes com uma cicatriz na fonte, prova sensual da sua virilidade. Isto já para não falar dos pactos de amor e de amizade, que só ficam bem selados com uma gota de sangue. E de dor.
Quase todos os rituais pedem uma prova de sofrimento. Até escrever um texto é um acto de dor (dói-nos constatar que nunca correspondemos às nossas próprias expectativas).
A alegria, infelizmente, ensina pouco. Na verdade, basta-se a si própria. Já é tão bom dar uma gargalhada, como pedir ainda que ela nos ensine alguma coisa sobre a vida? É um bocado como o trabalho: se fosse sempre bom, não nos pagavam para o fazer…
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