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Correio da Manhã

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Pedido de casamento

Ela levanta-se, pega na carteira que está na cadeira livre ao lado da mesa, deixa-a escorregar dos dedos, traída pelos nervos, abaixa-se, apanha a carteira do chão, ergue-se, dá meia-volta, afasta-se, abre a porta, sai para a rua.
21 de Abril de 2013 às 15:00
Tiago Rebelo, breves histórias, casamento, crónica
Tiago Rebelo, breves histórias, casamento, crónica

 

Ele fica a observá-la a sair, a pensar ali vai a mulher da minha vida. Pondera levantar-se e ir atrás dela, mas, em vez disso, chama a empregada e pede mais um café.  

Lá fora, ela respira fundo o ar fresco da tarde que lhe bate no rosto como uma bênção. Tem as pernas a tremer e sente que não consegue andar. Não imaginou que fosse tão difícil.

Ele concentra-se numa menina dos seus seis anos, aborrecida enquanto a mãe tagarela com uma amiga. A menina abre com os dedinhos desajeitados um pacote de açúcar, derrama o conteúdo em cima da mesa, olha para a mãe à espera que lhe ralhe, mas, como ela não repara na asneira, começa a juntar o açúcar num montinho. Ele sorri com a cena que o distraiu momentaneamente, mas o sorriso morre-lhe de imediato no rosto.

Mais segura, ela vai caminhando pelo passeio, entra no autocarro ali à frente, atira-se para o canto do banco, volta a cabeça para a janela. Lágrimas de frustração descem lhe pelo rosto, a pensar que acreditou que este poderia ser o dia mais feliz da sua vida.

Chegando a casa, ele vai ao frigorífico, tira de lá uma cerveja, abre-a, dirige-se para a sala, senta-se, liga a televisão e fica a olhar absorto. Dá um gole na cerveja, coça a cabeça irritado e solta um grunhido para o ar, furioso por ela ser tão casmurra e tão... tão dramática!

Ela quer casar, acha que já estão na altura de dar esse passo, argumenta que quer ter filhos e que não pode esperar muito mais. Ele ama-a, mas não quer ouvir falar de casamento e muito menos de filhos. A sua vida é demasiado boa para a complicar. Ela pensa que esse é o epílogo perfeito para ambos. Ele pensa que não está preparado.

Ele acorda-a de manhã com um beijo. Se lhe perguntassem há pouco tempo se acreditava que estaria com ela em breve, teria respondido terminantemente que não, impossível, perdia-a há muito. Passaram-se oito anos desde aquele dia, ela casou com outro, teve dois filhos, divorciou-se. Ele nunca se casou. Encontrou-a há uma semana numa discoteca e, desde então, ainda não se separaram. Retira uma caixinha debaixo da almofada dela, fingindo um truque de magia, oferece-lhe. Ela senta-se na cama, abre a caixa e vê o anel, coloca-o no dedo e diz que é lindo. Queres casar comigo?, pergunta-lhe, esperançado. Ela hesita antes de responder: quero, diz, mas vamos com calma, estamos tão bem agora, não apressemos as coisas, está bem? D

Tiago Rebelo breves histórias casamento crónica
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