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“Perdi amigos em naufrágio no Zambeze”

Muitos dos soldados que morreram no naufrágio do batelão eram do meu batalhão e tinha-os como amigos. Dois deles ainda conseguiram salvar-se
29 de Maio de 2011 às 00:00
A caminho de Macaloje, onde iríamos render outro batalhão
A caminho de Macaloje, onde iríamos render outro batalhão FOTO: Direitos reservados

Aos 21 anos entrei para o Grupo de Artilharia Contra Aeronaves 3, em Paramos, Espinho. Foi no dia 24 de Outubro de 1967 e fiquei até 2 de Fevereiro de 1968. De seguida fui para o Regimento de Infantaria nº 6, no Porto, onde tirei a especialidade de reconhecimento e informação e depois a de condução no CICA 1, também no Porto, onde fui promovido a primeiro cabo. Voltei depois ao Porto, mas mobilizaram-me para o Regimento de Infantaria 15, em Tomar, para fazer parte da Companhia de Caçadores do BC nº 2853, que rumou para o norte de Moçambique.

Partimos no ‘Vera Cruz’ a 23 de Julho de 1968, com passagem por Luanda (1 de Agosto de 1968). A dada altura, fez-se uma festa a bordo e todos os que sabiam tocar alguma coisa foram chamados a tocar. Eu, que sabia tocar umas coisitas, peguei na guitarra e cantei umas músicas para animar o pessoal. Chegámos a Lourenço Marques a 8 de Agosto. Rumámos ao norte de Moçambique e no caminho passámos por Niassa, Catur, Vila Cabral, Cantina Dias e Unango, antes de chegarmos a Macaloje, onde ficámos cerca de 20 meses. O resto da comissão seria depois cumprido em Ribaué.

Em Macaloje as nossas missões eram fazer reconhecimento, escoltas e segurança na construção de pontes e pontões destruídos pelo inimigo. Também fizemos muitos melhoramentos no nosso aquartelamento, que ficava a cerca de 120 quilómetros da vila mais próxima, Vila Cabral.

SORTE

Um dia o aeroclube de Vila Cabral pediu ao comandante, coronel Aires de Abreu, que me dispensasse para um espectáculo. O comandante concordou, mas só se me viessem buscar e trazer de avião, o que veio a acontecer. Estávamos em meados de 1969. O curioso foi que, um dia depois de o avião me ter trazido, fui destacado para as obras.

Por sorte, a nossa companhia nunca teve de enfrentar ataques dos guerrilheiros, mas muitos dos nossos camaradas de armas sofreram ataques. O nosso batalhão esteve distribuído entre três companhias de caçadores, estacionadas em Macaloje, Pavila e Cantina Dias. Tivemos algumas baixas, tanto em combate como em consequência de acidentes.

O episódio mais dramático que vivi na guerra foi o naufrágio de um batelão no rio Zambeze, que matou mais de cem pessoas. Perdi vários amigos nesse acidente. Quando os militares vieram do norte para Lourenço Marques, eu acompanhei-os. Estávamos em Junho de 1969 e eu tinha uma licença e aproveitei para ir visitar a minha irmã, que vivia na África do Sul. Eles seguiram para a capital, onde iam buscar carros para levar para o norte. Já não os acompanhei no regresso ao norte de Moçambique e escapei por sorte àquele terrível acidente, que foi o maior de toda a Guerra Colonial.

Muitos dos soldados que morreram no naufrágio eram do meu batalhão e tinha-os como amigos. Dois deles ainda conseguiram salvar-se, nadando agarrados a tábuas e bidões que se soltaram do batelão. Nunca se percebeu bem a causa do acidente, mas é certo que o batelão tinha excesso de peso. A comissão terminou sem mais incidentes de maior. O nosso regresso a Lisboa foi no dia 2 de Setembro de 1970, com chegada a 25 de Setembro de 1970, tendo passado então à disponibilidade.

PERFIL

Nome: Alberto Lima

Comissão: Moçambique (1968/70)

Força: Batalhão de Caçadores nº 2853

Actualidade: Aos 65 anos vive em Quarteira e tem dois filhos. É reformado do sector têxtil

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