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Perguntas que há que escutar

‘Bárbaros e Iluminados’, novo livro de Jaime Nogueira Pinto, não é fácil. Justamente porque faz as perguntas difíceis.
Francisco José Viegas 24 de Dezembro de 2017 às 15:00
Jaime Nogueira Pinto
Jaime Nogueira Pinto FOTO: Pedro Catarino

Num mundo que ganhou o gosto pela correcção política e boas notícias – e que não sabe lidar com a memória, nem com a frustração, a dúvida, a opinião adversa –, tudo o que lhe escapa é obra do Maligno. O Maligno, hoje, é o "populismo", a grande ameaça a que urge pôr termo de qualquer forma e por qualquer meio.

Em ‘Bárbaros e Iluminados. Populismo e Utopia no Século XXI’ (D. Quixote), Jaime Nogueira Pinto aborda fenómenos como o Brexit, a prestação de Marine Le Pen em França ou a eleição de Donald Trump nos EUA, três estranhos sinais (decerto negativos) do nosso tempo.

Se todos estamos convencidos da bondade da União Europeia, das virtudes da democracia americana ou dos ‘avanços civilizacionais’ gerados pelas Luzes desde o século XVIII, como é possível que estes três acontecimentos tenham ocorrido quase em simultâneo – ou seja, como foi possível que os eleitorados daqueles países tenham sido permeáveis aos ‘demónios do mal’?

Para compreender esta pergunta e as suas implicações, o autor leva-nos de viagem desde o Iluminismo até à queda do Muro de Berlim, à reinvenção morigerada do marxismo, à anunciada vitória das virtuosas democracias liberais e da globalização financeira e tecnológica. Num mundo tão bem organizado, a caminho da felicidade total, o renascimento de nacionalismos e o êxito do populismo são choques incompreensíveis para otimistas de serviço e burocratas que não estudaram História mas imaginam o ideal europeu crescendo pelo mundo.

Nogueira Pinto obriga-nos a retomar – a escolha do título é genial – o discurso que catapultaria Macron para a vitória em França: de um lado, os filhos da Razão, descendentes da trilogia Liberdade-Igualdade-Fraternidade, herdeiros das Luzes; do outro, os excluídos e os bárbaros, filhos do obscurantismo e do ceticismo. Bárbaros de um lado, Iluminados de outro.

Como é possível que ‘os bárbaros’ não vejam que são bárbaros e se associem ao Maligno? Ou, pelo contrário, estarão os ‘Iluminados’, inebriados pela arrogância e soberba, surdos às perguntas da multidão de excluídos? São perguntas que fazem deste um livro importantíssimo para quem não se contenta com lugares comuns.

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