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Peripécias de ir a banhos noutros tempos

As grandes épocas da elitista Granja, da pitoresca Nazaré ou da cosmopolita Figueira.
Fernando Madaíl 18 de Agosto de 2019 às 12:00
Praia algarvia em meados do século passado
Praia algarvia em meados do século passado FOTO: Direitos Reservados

Os apelidos portuenses mais brasonados, mais abastados, mais ilustres elegeram a Granja, nos finais do séc. XIX, como o destino requintado para "ir a banhos" – o que lhe valeu a popular expressão depreciativa de ‘Bidé das Marquesas’, contrariada por Ramalho Ortigão, que a definiu como "uma povoação diamante, uma estação ‘bijou’, uma praia de algibeira".

Antes de se associar a beleza à pele morena (que, antigamente, só andavam bronzeadas as trigueiras mulheres do povo), era de bom tom só ir à praia nas primeiras horas da manhã. A vilegiatura multiplicava-se em hábitos e acontecimentos que exigiam malas cheias de indumentárias para damas e cavalheiros, pois a roupa era diferente conforme o acontecimento: podia-se jogar ‘lawn-tennis’ ao ar livre ou sentar-se numa mesa de loto, ir numa excursão automóvel aos arredores ou montar um asno numa burricada, participar numa venda de caridade ou numa ‘garden-party’.

Além dos chalés exuberantes – que, na imaginação da poetisa Sophia de Mello Breyner Anderson, se transformavam em cenários dos ‘Ballets Russes’ de Diaguilev –, naqueles três meses de "férias grandes" (julho, agosto e setembro) o principal centro de convívio era a Assembleia (como eram designados os clubes elegantes), onde tanto se assistia a uma récita teatral ensaiada pelos veraneantes como se dançava num baile com orquestra.

E foi nessa elitista Assembleia da Granja que, em 1884, Eça de Queirós teve o momento decisivo no seu ‘flirt’ com Emília de Castro – com quem já tinha estado na Costa Nova, onde conversaram sobre tudo, de questões da religião até receitas de cozinha, acerca das notícias do jornal ou em torno das raças de cães. Mas, nesta ocasião, deixou a sua parceira de bilhar vencer e assim ganhar um leque – o chamado "Leque dos Cães", onde a sua caligrafia se misturava com a dos cúmplices Antero de Quental, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro, que registaram máximas caninas naquele abanico. Dois anos depois, e com muita troca de cartas pelo meio, casavam.

Banhistas de Alforge
A cosmopolita Figueira da Foz – a "Praia da Claridade", onde se escutava quase tanto castelhano como português, nos tempos em que ainda não se ouvia a voz do homem de branco e da lata azul a apregoar a "bolacha americana" e que era frequentada por Florbela Espanca ou por Jorge de Sena – não dispunha ainda do gigantesco areal que hoje se percorre até ao Oceano Atlântico. Numa época em que o surf era desconhecido em Portugal, à beira-mar multiplicavam-se castelos de areia feitos pela pequenada e no céu voavam mais papagaios de papel do que nuvens brancas, desde a esplanada Silva Guimarães ou da avenida costeira, viam-se as barracas às riscas e as ondas a poucas dezenas de metros.

Na vizinha Buarcos, destino mais popular e barato, só não eram bem vistos os "banhistas de alforge". Numa altura em que os médicos "receitavam" banhos de mar, com as pessoas a mergulharem nas ondas salgadas de mão dada ao banheiro, os lavradores só podiam cumprir essa "terapia" no frio mês de outubro – findas as ceifas, colheitas e vindimas. Mas, dos humildes aos avaros, levavam tudo o que precisavam da sua terra, dos lençóis aos legumes, e não gastavam sequer um tostão a comprar fósforos.

Desconhecido Kubrick
Muito antes de Garrett McNamara se ter equilibrado na gigantesca onda para o ‘Guiness’, já a Nazaré das mulheres de sete saias era "very typical". Destino pitoresco, propagandeado pelos responsáveis do Turismo Nacional, em cujo areal se misturavam pescadores de barrete e banhistas trajando conforme o disposto pelo decreto de 1941 ("não é permitido o uso de fatos de banho que se tornem imorais pela sua transparência ou pela excessiva elasticidade do tecido"), além de ser o cenário da película de Leitão de Barros, ‘Maria do Mar’, as suas gentes e barcos, a partir da marginal ou do panorâmico Sítio (onde se pode chegar de ascensor), foram retratados por muitos fotógrafos célebres, de Cartier-Bresson a Edouard Boubat, de Jean Dieuzaide a Gérard Castello Lopes.

Em 1948, um jovem repórter da revista ‘Look’, que estava a cobrir a visita a Portugal de um casal nova-iorquino em voga (Jan e Bill Cook), também se deixou encantar com as expressões das crianças risonhas ou das trágicas viúvas de negro. Mas só recentemente, em 2010, se conheceram essas fotografias captadas por Stanley Kubrick – quando ainda não era o célebre realizador de filmes como ‘2001, Odisseia no Espaço’, ‘Laranja Mecânica’ ou ‘Shining’.

Almirante sem mar
Apesar do pioneirismo de Cascais – localidade em evidência desde que ali passavam as férias os monarcas e as respetivas Cortes, na Cidadela mandada transformar, em 1871, em residência real por D. Luís –, o requinte do Estoril, concebido por Fausto de Figueiredo para ser o primeiro destino turístico português com uma ambição internacional, ganhou enorme esplendor já nas primeiras décadas da República – chegando a ser o destino final do Sud-Express, um dos comboios de luxo europeus de outros tempos.

Nos decénios de 1930 e 1940, a categoria daquele local acabaria por atrair, para os seus dourados exílios, várias famílias reais europeias que tinham perdido o trono, governantes derrubados do poder, as elites de países que mudaram de regime – e, também, muitos espiões de facto, como Kim Philby e Graham Greene, ou alguns de ficção, como James Bond.

Um português, conversando com o ex-regente húngaro Miklós Horthy, sem conseguir travar por mais tempo a sua dúvida, manifestou estranheza pelo seu interlocutor ser almirante num dos países europeus sem costa marítima. A explicação, afinal, era bem simples: o oficial e político, já com idade avançada, tinha sido formado antes da Grande Guerra de 1914-1918, quando a sua pátria era o gigantesco Império Austro-Húngaro, que se estendia desde o Mediterrâneo até à atual Polónia e onde cerca de 53 milhões de pessoas falavam em 14 idiomas diferentes.

Mas Cascais e Sintra nunca perderam o seu fascínio. E, em setembro de 1968, ficariam lendárias as festas milionárias dos rivais Antenor Patiño (o ‘Rei do Estanho’) e Pierre Schlumberger (magnata do petróleo), que trouxeram, a Colares e a Azeitão, o jet-set universal: princesas e financeiros, herdeiros de fortunas e estrelas de Hollywood, playboys mundanos e imperatrizes da elegância.

‘Yesterday’ no Algarve
Na era pré-telemóveis – quando nem a Ficção Científica previa a vulgarização das selfies – nas praias mais concorridas, instalavam-se os fotógrafos ‘à la minute’, com cenários miniatura para se enfiar a cabeça e um pano preto junto à objetiva onde desaparecia o autor daqueles retratos, logo ali revelados. Eram tempos em que os notáveis conseguiam passar despercebidos, pois os paparazzi eram poucos.

No apogeu dos Beatles, em maio de 1965, era visto, nas praias ou nas discotecas (chamavam-se, então, ‘boîtes’) de Albufeira alguém que parecia ser um sósia de Paul McCartney. Consta mesmo que terá sido no sul de Portugal que ele finalizou a composição ‘Yesterday’, que integra o álbum ‘Help!’ da mais conhecida banda do planeta.

Em dezembro de 1969, instalado na zona de Lagos, o mesmo famoso entra no bar do Hotel Penina, junto ao Alvor, onde a animação era garantida pelo grupo Jotta Herre. Os músicos portugueses também viram ali um indivíduo que era a "cara chapada" de Paul McCartney. Num intervalo, confirmaram que era mesmo e, provavelmente sem acreditarem que aceitaria, convidaram-no para tocar com eles – mas o ‘beatle’, em vez do baixo que lhe cediam, foi sentar-se à bateria.

Divertido com a experiência, McCartney terá tocado nos vários instrumentos e, a certa altura, entusiasmado pelo ambiente, pediu: "one minute". Começou a trautear uma melodia que lhe ocorreu e desafiou os outros a acompanharem-no: acabava de compor um tema novo, com música e letra, que (coisa rara) ofereceu ao conjunto português – que, depois, o gravou em disco. E qual seria o título da canção? Por essas quatro da manhã, certamente já com bastante consumo vindo do balcão, o autor não hesitou: escolheu o musical nome do hotel – ‘Penina’.

Granja Bidé das Marquesas Ramalho Ortigão
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