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"Pessoa com cancro não está condenada"

O que distingue o tratamento no nosso País e no mundo é a Falta de organização das instituições, diz o presidente do colégio da especialidade.
7 de Junho de 2009 às 00:00
Jorge Espírito Santo
Jorge Espírito Santo FOTO: Sérgio Lemos

Alan Ashworth disse recentemente, à margem do Simpósio sobre Oncologia, na Fundação Champalimaud, que dentro de 25 anos já ninguém morrerá de cancro; acredita?

Não acredito. O que está na origem do cancro é uma desregulação do processo de crescimento e divisão da célula; o que provoca a incurabilidade é o processo de metastização. Não sei se daqui a 25 anos já sabemos o suficiente sobre esse processo a ponto de podermos eliminá-lo.

Quanto tempo precisaríamos?

Não sei dizer. Se disser que, neste momento, o tempo mínimo até que uma molécula [fármaco] entre no mercado e seja adoptada na prática clínica ronda os dez anos, não sei se 25 anos é tempo suficiente para isso.

Que tipo de pressão exercem as farmacêuticas sobre os médicos?

A Oncologia é, talvez, a área onde se prevê a introdução do maior número de fármacos no futuro. Essa investigação, infelizmente, é sobretudo feita com base na indústria farmacêutica (que tem legitimidade para a fazer, entenda-se). O problema é que a indústria tem o lucro como objectivo. O dos médicos é tratar. O dos pagadores será conseguir maior economia de recursos. Agora, o interesse dos doentes deve prevalecer.

Será que toda a gente terá o mesmo acesso a tratamentos de qualidade e de última geração no futuro?

Sendo uma doença uniformemente fatal, se não tratada, aquilo que temos que decidir em primeira instância é o que fazer a estes doentes. Eu não tenho dúvidas em dizer que todos devem ter o mesmo acesso a tratamento, de acordo com o estado da arte...

Isso é de lei.

Não é só de lei. Significa que os cidadãos têm que ter acesso a sistemas de rastreio organizado. Uma vez feito o diagnóstico, a sequência da decisão terapêutica e do plano terapêutico tem que corresponder ao que está indicado, de acordo com a boa prática médica. Se fazemos terapêutica a destempo, ou que não está indicada, ou não fazemos terapêutica quando indicada, geramos má utilização dos recursos.

O rastreio organizado e seguir-se a decisão terapêutica e o plano terapêutico já podem hoje ser postos em prática...

Deviam ser postos em prática.

Significa que não estão.

Não, como sabe isso leva-nos à questão da organização dos cuidados. A prática da Oncologia é um grande interface multidisciplinar. Portanto, a qualidade em Oncologia depende da qualidade de todos os elos desta cadeia. Qualidade que começa na educação e no estilo de vida que os cidadãos adoptam, no acesso que têm a cuidados primários, na forma como estão despertos para os sintomas ou para fazer os rastreios, quando é caso disso. Depois há que haver acesso rápido e fácil aos cuidados primários, que devem ser a porta de entrada dos doentes no sistema. Esses locais têm que estar organizados para receberem os doentes e não demorarem no diagnóstico. E tem de haver experiência quando se trata um doente. O plano oncológico inglês define um objectivo que é: entre a primeira consulta no médico de família e a primeira terapêutica, o máximo de 62 dias.

E em Portugal, quanto tempo é?

É variável. Penso que tem a noção de que é muito mais demorado: os doentes vão primeiro ao médico de família, este pede exames – ou não pede, funciona um pouco consoante os meios, as posses ou o local do País; perante uma suspeita o doente é referenciado mas precisa de ser inscrito numa consulta no hospital. No hospital, eventualmente, confirma-se o diagnóstico. Depois, entra em lista de espera para cirurgia.

Em Portugal ultrapassará um ano?

Não. Ainda não há muito tempo falava-se em tempos médios de espera, só para a cirurgia, de 4-5 meses. Mas, de acordo com as últimas informações, parece que a situação já melhorou. O ponto central é que tem de haver uma organização adequada das instituições: precisamos de ter, primeiro, profissionais especializados. Depois, um plano, temos de saber para onde vamos. Finalmente precisamos de ter os instrumentos para executar o que decidimos fazer.

Haverá algum país com terapêutica mais eficaz do que em Portugal?

Não, de todo. Nem pense nisso. Em Portugal temos acesso ao mesmo que em qualquer parte do Mundo.

Mas em Inglaterra há o tal plano...

Aqui a diferença não é no acesso ao conhecimento, nem na capacidade dos profissionais. É uma questão de organização.

Os doentes do Interior têm acesso aos mesmos tratamentos e à mesma qualidade de vida dos doentes de Lisboa, Coimbra e Porto?

Não, porque ainda não se conseguiu estabelecer, em determinadas zonas do Interior, centros regionais que garantam a prestação destes cuidados aos doentes.

E o que diferenciaria os IPO destes centros regionais?

Os IPO devem liderar a rede de prestação de cuidados. O que os IPO têm que ter (e que os outros não tenham) é capacidade de executar certos procedimentos complexos, ou um conjunto de intervenções que impliquem acesso a tecnologia e meios muito sofisticados. O que os IPO devem fazer? Difundir o conhecimento e a experiência que possuem relativamente ao diagnóstico e tratamento do cancro. E o que é que isso implica? Que se estabeleça, entre os IPO e as estruturas regionais, um sistema de afiliação (o termo não é meu) que pressupõe, mais do que a partilha de doentes, a partilha de profissionais e de conhecimento. Seria desejável, em determinadas circunstâncias, serem os profissionais a deslocar-se e não os doentes.

Qual a diferença entre a sobrevida em Portugal e noutros países?

Não estamos mal. Nos primeiros três estudos Eurocare, fomos vendo aumentar a taxa de mortalidade por cancro. No Eurocare 4 (o último estudo), que incidiu sobre os doentes diagnosticados em 1995 e 99, verificou-se já uma redução desta taxa. Foi basicamente nessa altura que começaram a funcionar em pleno um conjunto de serviços de Oncologia que abriram nos vários hospitais do País. E, comparativamente a outros países do espaço europeu, estamos até melhor.

Há muitos portugueses em ensaios clínicos?

Alguns... Claro que Portugal é, neste momento, um País que recruta poucos doentes para ensaios clínicos, infelizmente.

Ainda há tabus sobre o cancro?

Muitos. O pior tabu é uma pessoa a quem foi feito um diagnóstico de cancro achar que está condenada à morte. É falso. Se considerarmos todos os cancros, em Portugal hoje 50% dos doentes sobrevivem. Outro tabu é que o cancro é uma doença sempre associada ao sofrimento, a mutilações, a efeitos secundários gravíssimos, até a situações irrecuperáveis sob o ponto de vista funcional. Mentira. A capacidade que temos de recuperar um doente e de o inserir no seu meio profissional, social e familiar é muito grande. Outro tabu é pensar-se que quando se intervém a doença progride. É o contrário. Quanto mais depressa se detectar, diagnosticar e tratar um cancro, maiores são as possibilidades de sobreviver.

Muitos médicos são acusados de agir com frieza...

Há excesso de trabalho assistencial, mas também há desorganização das instituições. Isso leva a que o tempo escasseie no atendimento ao doente. É preciso que o médico, sob esse ponto de vista, esteja à altura daquilo com que se vai defrontar.

Admite que muitas vezes não estão?

Admito que esta é uma área com lacunas.

Que ideia tem da protecção social aos doentes, nomeadamente em casos de reforma, por doença incapacitante?

Tenho a ideia de que as coisas têm melhorado, mas ainda há alguma incompreensão por parte das juntas de reforma e até, eventualmente, por parte dos serviços de Segurança Social, sobre o impacto real da doença oncológica. É preciso que os meus colegas que fazem parte da junta de reforma tenham alguma noção e percepção do que representa aquela doença oncológica que fez aquela sequência terapêutica. Acho lamentável é que parte dos doentes, sobretudo os a contrato de trabalho a termo, ao diagnóstico de neoplasia, percam o emprego. E não são poucos os casos que conheço.

"ACEITAR OU NÃO ACEITAR INFLUENCIA A CURA"

Não deveriam os hospitais ter apoio psicológico para doentes e familiares, em casos de cancro?

Deviam. O que defendemos na Ordem [dos Médicos] é que as instituições que tratam o cancro terão que ser todas acreditadas com base em critérios de qualidade, que deverão ser agora escritos. Por conseguinte, um dos critérios que as instituições vão ter que garantir é a presença, nos grupos de trabalho multidisciplinares, de psicólogos clínicos, assistentes sociais, nutricionistas, enfim, toda uma série de profissionais para que o diagnóstico, o tratamento, a recuperação do doente e o seu retorno a uma vida plena sejam maximizados.

É verdade que o estado psicológico também influencia a cura?

Influencia a capacidade de aceitar, ou de não aceitar, determinadas formas de diagnóstico ou de tratamento. E por aí, se quiser, influencia a cura.

Há milagres na cura do cancro?

Não. Há doentes que respondem às terapêuticas e outros que não. Não há milagres na cura do cancro.

"DISTRITO DE SETÚBAL É DOS QUE TEM MAIOR INCIDÊNCIA"

Sabe qual é o distrito do País com maior incidência de casos de cancro?

Varia muito de tumor para tumor. Por exemplo, o cancro do estômago tem maior incidência no Norte do País; o da mama, no Sul. E, curiosamente, o distrito de Setúbal parece-me que é dos que tem maior incidência de cancro no País. Não sei explicar porquê.

Mas isso é importante para se definir uma estratégia regional.

É fundamental.

"O ERRO É MEU COMPANHEIRO DIÁRIO "

Com que frequência os médicos da sua especialidade falham um diagnóstico?

Não consigo responder. Há uma margem de erro apreciável, porque o doente oncológico é sempre diferente. Cada tumor é único no comportamento. Temos que estar sempre alerta já que mesmo a consulta mais rotineira pode revelar uma surpresa. Se não estivermos atentos, erramos.

Já errou?

Claro. Quem não erra?

É fácil lidar com isso?

Não gosto mesmo nada de errar, mas o erro é uma realidade que me acompanha, a mim e aos meus colegas de profissão, diariamente. Detesto errar um diagnóstico e detesto não ter a percepção de que alguma coisa aconteceu. Tenho 31 anos de prática clínica e continuo a dizer que o erro é o meu companheiro diário.

PERFIL

Jorge Espirito Santos, 55 anos, presidente do Colégio de Oncologia Médica da Ordem dos Médicos, é também director do Serviço de Oncologia do Hospital Nossa Senhora do Rosário, Barreiro.

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