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Correio da Manhã

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Philip Roth: erótico-depressivo

Do humor à política, passando pelas acusações de misoginia
João Pedro Ferreira 25 de Agosto de 2019 às 01:30
Philip Milton Roth
Philip Milton Roth FOTO: Getty Images

Philip Milton Roth (1933-2018) foi um romancista e contista norte-americano. O humor tipicamente judaico e a sátira social e política marcaram a fase inicial da sua obra, mas com o tempo foram dando lugar a uma visão mais pessimista e depressiva sobre a vida e o Mundo. A maneira como tratou o erotismo nos seus livros levou as feministas a acusá-lo de ser misógino.

Nascido numa família judaica de Newark, no estado da Nova Jérsia, Roth publicou o seu primeiro livro, ‘Adeus, Colombo’, em 1959, dez anos antes de se tornar famoso (e rico) com a sua obra mais controversa: ‘O Complexo de Portnoy’, considerado pelo britânico ‘The Guardian’ "o livro mais escandalosamente divertido que alguma vez se escreveu sobre sexo".

Mais político, ‘A Pastoral Americana’, que lhe valeu o Prémio Pulitzer, conta a tragédia de um pai cuja filha adere a um grupo terrorista de extrema-esquerda na América dos anos 60 e 70. ‘Operação Shylock’, de 1993, foi escrito após o autor sofrer uma grave depressão que lhe deixou marcas. A história recente dos EUA voltou a ser tema dos romances ‘Casei com um Comunista’, sobre a caça às bruxas no período do macarthismo; ‘A Mancha Humana’, sobre as políticas identitárias nos anos 90; e ‘A Conspiração Contra a América’, uma obra de história alternativa em que o pioneiro da aviação Charles Lindbergh, apoiante de Hitler, é eleito presidente em 1940 e faz do antissemitismo a doutrina dominante.

Do livro ‘O Complexo de Portnoy’. Trad. de Ana Luísa Faria. Bertrand Editora

"(...) Então o soutien de Hannah começa a mexer-se. A balouçar de cá para lá. Semicerro os olhos, e vejam só! – a Lenore Lapidus!, que tem o maior par de mamas da minha turma, a correr da paragem do autocarro a seguir às aulas, o seu grande fardo intocável a abanar pesadamente dentro da blusa, oh, eu empurro-as para cima, faço-as sair das conchas do soutien (...) e apercebo-me nessa mesma fração de segundo de que a minha mãe está a sacudir vigorosamente a maçaneta da porta. Da porta que finalmente me esqueci de trancar! (...) Apanhado! (...)"

"(...) anda, diz lá, conta-me como é que foi que ela fez! Tenho de saber, e com pormenores! – todos os pormenores! E as mamas dela? E os mamilos? E as coxas? (…) E os pelos dela cá em baixo? Explica-me tudo o que há a explicar sobre pelos púbicos e o cheiro que eles deitam (…). E ela pôs-se mesmo de joelhos, ou estás-me a enfiar a tanga? (…) E ela chupa a piça, ou assopra-a, ou consegue fazer as duas coisas? (…) E ela engoliu, ou cuspiu, ou ficou lixada – conta-me! (…) Avisaste-a de que te ias vir, ou vieste-te sem mais nem menos, e ela que se amanhasse? (...) Quero pormenores! Os pormenores todos! Quem é que lhe tirou o soutien, quem é que lhe tirou as cuecas – as cuecas – foste tu? Foi ela? (…) E a almofada por baixo do rabo dela, meteste-lhe uma almofada debaixo do rabo como o manual de casamento dos meus pais diz para fazer? E ela também se veio? (…) Sai alguma coisa? Ou fartam-se de gemer e mais nada – ou o quê? Como é que ela se vem! Como é que é! Tenho de saber como é, senão dou em doido!"

"(...) O que a Sally não sabia fazer era comer-me. Abater um quá-quá a tiro, muito bem, mas chupar-me a piça estava para além das suas capacidades. Tinha muita pena, dizia ela, que eu levasse a coisa tão a peito, mas a verdade é que preferia não experimentar. (…) Passei três meses a pressioná-la (…). Depois, uma noite, ela convidou-me para ir ouvir o Quarteto de Cordas de Budapeste tocar Mozart na Biblioteca do Congresso; durante o último andamento do ‘Quinteto para Clarinete’ pegou-me na mão, pôs-se muito corada, e quando voltámos para o apartamento dela e nos metemos na cama, a boa da Sally disse: ‘Alex… pronto, está bem.’ ‘Está bem o quê?’ Mas ela entretanto desaparecera debaixo dos cobertores, estava escondida – a chupar-me! Isto é, ela meteu o meu pirilau na boca e deixou-o lá estar durante uns sessenta segundos, ao meu coisinho todo espantado, doutor, como se fosse um termómetro. Eu afastei os cobertores – tinha de ver aquilo! Sentir, não posso dizer que sentisse grande coisa, mas a ideia de ver aquele espetáculo…! Só que a Sally já tinha dado a sessão por terminada. (…) ‘Pronto, já está’, anunciou (…).

‘… Quer dizer’, perguntei eu, ‘que já acabou?’

‘O quê’, ofegou ela, ‘ainda queres mais?’

‘Bem, para ser franco – enfim, para te dizer a verdade, não me importava que fizesses mais um bocadinho.’

‘Mas está a ficar muito grande. Eu ainda sufoco.’ (…)"

Humor judaico

Apesar do humor autodepreciativo e do ambiente da comunidade judaica dos EUA, Roth não gostava de ser rotulado como um "escritor judeu americano".

Marido de Claire Blomm

Inglesa que contracenou com Chaplin em ‘Luzes da Ribalta’ e interpretou Lady Marchmain em ‘Reviver o Passado em Brideshead’ foi a segunda mulher do escritor.

Portnoy no cinema

O livro deu origem ao filme ‘Os Complexos de Portnoy’, realizado por Ernest Lehman em 1972, com Richard Benjamin e Karen Black.

Presidente Lindbergh

Em ‘A Conspiração Contra a América’, o herói da aviação Charles Lindbergh, antissemita e apoiante de Hitler, torna-se presidente dos EUA.

Condecorado por Obama

Em 2010, Philip Roth foi condecorado pelo então presidente com a National Humanities Medal, atribuída a personalidades marcantes da cultura americana.

Springsteen é fã

Bruce Springsteen, conterrâneo de Nova Jérsia, confessou-se fã dos livros de Roth, que por sua vez elogiou a autobiografia do boss do rock, ‘Born to Run’.

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