Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

Pierre Louÿs: danado para a brincadeira

Só depois de morrer vieram a público os seus livros cheios de obscenidades
João Pedro Ferreira 9 de Fevereiro de 2020 às 11:00

Pierre Félix Louis (1870-1925), conhecido como Pierre Louÿs, foi um poeta e romancista francês, venerado durante toda a vida como um esteta refinado. É dele a frase: "A minha alma tende com liberdade para um objetivo inflexível: o ideal do Belo." Só quando morreu vieram a público os seus livros carregados de obscenidades e descrições gráficas das mais inconfessáveis práticas sexuais.

Nascido em Gante, na Bélgica, era sobrinho-bisneto do general Junot que, em 1807, comandou a primeira invasão napoleónica a Portugal. Em 1891, já com a assinatura de Pierre Louÿs, publicou o seu primeiro livro de poesia, ‘Astarté’, e fundou a revista literária ‘La Conque’. Reconhecido pela sua erudição sobre a civilização grega, fez dela o tema do seu primeiro romance, ‘Aphrodite’ (1896), que foi um êxito junto da crítica e do grande público. Os serviços prestados às Letras francesas foram recompensados pela condecoração com a Legião de Honra.

Mas depois de morrer Louÿs deixou de ser uma referência consensual no mundo da cultura para se tornar um escritor maldito. Logo em 1926 foram publicados o ‘Manual de Civilidade para Meninas’ e ‘Três Filhas de Sua Mãe’ (também traduzido para português como ‘Tal Mãe, Tais Filhas’), que deixara inéditos. O escândalo deixou consternados os vigilantes da cultura oficial, que tiveram de habituar-se a ver o respeitado esteta e erudito transformar-se, ele próprio, num clássico… do erotismo.

Do livro ‘Três Filhas de Sua Mãe’, ed. Guerra e Paz

" (...) Numa reviravolta, voltou-me as costas, deitou-se sobre o lado direito e começou a brincar consigo mesma, sem mais preâmbulos ao sacrifício do seu pudor. Depois, com um gesto que me divertiu, fechou os lábios da sua virgindade; e fez bem, pois eu teria acreditado nela poder entrar apesar dos meus juramentos. (…) Ia perguntar-lhe se não estava a magoá-la, quando, encostando a boca à minha, assegura-me do contrário:
- Tu já enrabaste virgens.
- Porque dizes isso?
- Contar-te-ei se me disseres como soubeste que me masturbava.
- Minha desavergonhada! Tens o botão mais vermelho e mais grosso que alguma vez vi numa virgindade.
- Como ele está entesado! – murmurou ela, com olhar doce. – Não é assim tão grosso… Não lhe toques… Deixa-o para mim… Querias saber como é que percebi… que já tinhas enrabado virgens?
- Não. Mais tarde.
- Pois bem, aí está a prova! Tu sabes que não se deve perguntar nada a uma virgem que se masturba enquanto a enrabam. Ela não está em condições de responder.
O seu riso extinguiu-se. Os olhos distenderam-se. Cerrou os dentes e abriu os lábios.
Depois de um silêncio, disse:
-Morde-me… Quero que me mordas… Aí, no pescoço, debaixo dos cabelos, como os gatos fazem às gatas.
Em seguida:
- Contenho-me… Mal me toco… mas… não posso mais, vou-me vir… Oh!, vou-me vir, meu… como te chamas?... meu querido… Vá, faz como tu gostas! … com toda a força! Como se me fodesses! Gosto assim! Mais… Mais!...
O espasmo retesou-a, fê-la contrair-se em palpitações… Depois a sua cabeça tombou e eu apertei o pequeno corpo desfalecido contra mim.
(…) Meia hora mais tarde, a mãe entrou-me pela casa adentro. (…) Mal coberta por um roupão justo, atado em cima da cintura ágil, recusou a poltrona que lhe oferecia, veio sentar-se na borda da cama e disse-me à queima-roupa:
- O senhor enrabou a minha filha?" 

Do livro "Manual de Civilidade", ed. Fenda

"Não digais: "Tenho vontade de foder". Dizei: "Sinto-me nervosa".
Não digais: "Vim-me como uma louca". Dizei: "Sinto-me um pouco cansada".
Não digais: "Vou-me masturbar". Dizei: "Volto já."
(…) Não digais: "Ela vem-se como uma égua a mijar." Dizei: "É uma exaltada".
(…) Não digais: "Vi-a foder pelos dois lados." Dizei: "É uma eclética."
Não digais: "Deixa-se enrabar por todos quantos lhe façam minete." Dizei: "É um pouco namoradeira."
Não digais: "Ele entesoa como um cavalo."
Dizei: "É um jovem perfeito."
(…) Evitai as comparações temerárias. Não digais: "Dura como uma pissa, redondo como um colhão, molhado como a minha racha, salgado como esporra, não maior que o meu grelinho", e outras expressões que não são admitidas pelo Dicionário da Academia."

APOIOS

Amante da Grécia
A partir de 1890 o escritor passou a escrever o seu apelido com y (i grego) e a pronunciar o s (Louÿs), para sublinhar a sua paixão pela cultura da Grécia antiga.

Musicado por Debussy
Três poemas eróticos de ‘As Canções de Bilitis’, atribuídos a uma poetisa contemporânea de Safo, foram musicados pelo compositor Claude Debussy, seu amigo.

Grande biblioteca
Era dono de uma biblioteca com mais de 20 mil livros, incluindo edições únicas. As suas fichas deram origem ao livro ‘Pierre Louÿs e a história literária’ (Paris, 1925).

B.B. e António Vilar
A adaptação ao cinema de ‘A Mulher e o Fantoche’ fez furor em 1959, com Brigitte Bardot e o português António Vilar nos papéis principais.

Filme de Buñuel
O último filme do realizador Luis Buñuel, ‘Esse Obscuro Objeto do Desejo’ (1977), com Carole Bouquet e Angela Molina, foi outra adaptação daquele livro.

Desenhado por Manara
O romance ‘Aphrodite’, publicado por Pierre Louÿs em 1896, foi adaptado a banda desenhada pelo ilustrador italiano Milo Manara, em 2003.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)