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Pintado pela História no barro e no azulejo

É a última sobrevivente das centenárias cerâmicas da Grande Lisboa. Há 20 anos a carolice de dois sócios impediu-a de fechar. E Bill Clinton pode lá fazer compras. Hoje produz uma média de 30 mil azulejos por mês. Pintados à mão com assinatura Sant’Anna.
6 de Maio de 2007 às 00:00
Pintado pela História no barro e no azulejo
Pintado pela História no barro e no azulejo FOTO: Sérgio Lemos
Quando Bing Crosby visitou a Sant’Anna, ficou fascinado. Com o embaraço da escolha, e, como dinheiro não lhe faltava, pôs-se a sapatear por entre peças de faiança e painéis de azulejos. A cada paragem, a peça designada pela bengala engrossava a encomenda do actor norte-americano. Já o ex-presidente Bill Clinton não se atrapalhou: mandou fazer o retrato dos fiéis companheiros, o gato Socks e o cão Buddy.
Quase três séculos de História são outros tantos de estórias. Que o diga António Tomás, economista, que há 20 anos assumiu com o sócio Alberto Bruno a difícil tarefa de salvar da falência a centenária fábrica de azulejos e faianças – a única do género em Portugal. A mesma que em 1974 empregava 120 trabalhadores e hoje produz cerca de mil azulejos por dia, para além de jarras, floreiras, bacios e outras peças, tudo com 40 empregados. E usando métodos exclusivamente artesanais, desde a recolha do barro até à pintura das peças, depois de vidradas. As terras da região de Lisboa são ricas em bom barro: “Ainda usamos o do Colombo”, conta António Tomás. E explica: “Quando há grandes obras, compramos a terra das escavações. Contrariamente ao que se pensa, a boa terra não é a vermelha. Nós usamos uma de tom claro, cor de pele”. Há 20 anos, até a escolha da terra se fazia de forma empírica: “O empregado, que entornava uns copos, ia até ao local e urinava para cima da terra. Se esta borbulhasse de uma certa maneira, estava aprovada”.
Hoje, a Sant’Anna faz outro tipo de análises para escolher a terra, e raramente acende os fornos de lenha que coziam centenas de azulejos a mil graus centígrados. Os fornos são eléctricos, já que os fumos expelidos pelos seus antecessores deixaram de ser compatíveis com o bem-estar da vizinhança.
Actualmente, a cerâmica exporta 85% da sua produção. O melhor mercado é o norte-americano, mas também se vende para a Europa e Ásia. Em geral, os clientes são pessoas bem informadas. Conhecem a qualidade daquilo que estão a comprar. Como aquele rico fazendeiro brasileiro que, há uns anos, mandou pintar um enorme painel com cenas oitocentistas. E não se importou de desembolsar 10 mil contos, “uma fortuna para o Brasil”, salienta Tomás. Ou aquele americano que, 40 anos atrás, estava resolvido a comprar um enorme jarrão em exposição na loja: “O proprietário da época, o sr. Quental (era sobrinho-neto de Antero de Quental) respondeu-lhe: ‘Essa peça não está à venda’. Como o americano insistisse, o sr. Quental, que estava em dificuldades financeiras, fez--lhe uma proposta: que pagasse os vencimentos dos empregados da fábrica. E o homem pagou 120 ordenados”.
A maior parte dos 40 assalariados da Sant’Anna tem hoje cerca de 50 anos e trabalham na cerâmica há 30. Aprenderam, alguns com os pais, outros com os colegas, o ofício, sem recurso a sebentas. Aferindo com as mãos da temperatura e da humidade da matéria--prima. “Atirando com o barro à parede” – sim, é daí mesmo que vem a célebre expressão: Atirava-se o barro à parede. Se pegasse, estava com a humidade certa. Quando descolasse, estava pronto para ser trabalhado.
Adélia Tavares Ribeiro foi para a fábrica com 16 anos, pela mão do pai, Orlando Tavares. Já o avô, Semião, era artesão da Sant’Anna. Hoje, passados 28 anos e já desaparecidos os seus antecessores, representa, com a irmã Laurinda, três gerações de assinaturas no rodapé dos painéis. As iniciais T.R. (Tavares Ribeiro) sucederam a O.T. e a S.T. Quando Adélia e a irmã deixarem de trabalhar, já não haverá representantes da família na Sant’Anna. A pouco e pouco, os lugares vão vagando e não são preenchidos por sangue novo.
Uma boa parte das encomendas consiste no restauro ou reprodução de peças antigas, algumas centenárias. Há cinquenta anos, o multimilionário boliviano Antenor Patiño recorreu à Sant’Anna para mandar fazer um painel de azulejos destinado ao palácio com o seu nome, no Estoril, hoje convertido num hotel. “Quando os azulejos ficaram prontos”, conta Tomás, “o empresário foi chamado para dar o aval à encomenda: ‘Está quase como eu quero’, sentenciou. ‘Mas ainda não é bem’. Olhou à volta, e avistou um operário de tamancas grossas. ‘Você, aí!’, chamou. “Caminhe ali com as tamancas”, pediu. Assustado, o empregado olhou para o patrão – o sr. Quental não era para brincadeiras. Mas ele autorizou e o homem lá fez o que o Patiño estava a dizer. Claro que se partiram uma data de azulejos. ‘Pronto’, disse ele. ‘Agora sim. Podem restaurar tudo’. No dia da inauguração, os jornais escreveram todos que o Patiño era um grande mecenas e que tinha mandado restaurar um painel do século XVIII! Tudo feito aqui de raiz!”
A RESISTENTE DE UMA DISTINTA LINHAGEM
A Constança fechou. A Viúva Lamego foi vendida. No Portugal do Século XXI, apenas a Sant’Anna resiste ao grande invasor industrial. Nascida em 1741, nas terras hoje ocupadas pela Avenida Infante Santo, cedo foi deslocada para a Calçada da Boa-Hora à Ajuda onde ainda hoje perdura. Antes, porém, deixou o nome de baptismo à rua que ficou doravante no lugar que ocupava: Rua de Santana à Lapa.
Após o terramoto de 1755, a Sant’Anna e as suas congéneres conheceram grande crescimento, já que a pedra, que anteriormente revestia os edifícios, se tornara demasiado cara. O Marquês de Pombal recorre então às cerâmicas para criar azulejos artísticos que possam substituir a pedra. É assim que nasce o dito “azulejo pombalino”.
Ao longo de mais de 250 anos de vida, a Sant’Anna desenvolveu uma identidade própria que se traduz numa forte cultura de empresa e numa colecção de oito mil desenhos guardados em arquivos metálicos desde que, há trinta anos, um incêndio destruiu parte do valioso espólio. Segundo os directores da fábrica, os estagiários estrangeiros têm mais facilidade em compreender que, para aprender a pintar azulejos “é preciso sentir todo o processo, embrenhar-se na Sant’Anna, mexer no barro, ir aos fornos”. Os portugueses querem logo ir pintar. Mas, para aprender a pintar ‘Sant’Anna’, é preciso permanecer cinco ou seis anos na fábrica. Talvez por isso não haja renovação das gerações à medida que os pintores da casa vão envelhecendo. À Sant’Anna vêm pessoas de todo o mundo aprender as técnicas de pintura no azulejo. Na próxima semana, uma equipa de funcionários da Glaxxo irá passar um dia nos ateliers para fazer “formação em meio adverso”.
A PEÇA MAIS CARA
Custa cerca de 10 mil euros mas é apenas uma réplica. Na Cordoaria Nacional encontra-se o original que vale, nas palavras de António Tomás, “uma pequena fortuna”. Uma peça como esta implica dois meses e meio de trabalho, e foi preciso fazer pelo menos outras três. Pelo caminho, diversos percalços ocorrem, inclusivamente algumas das partes que a constituem quebram-se. Mas, para os entendidos, isso é o menos. O importante, explica o director da Sant’Anna, “é que esteja bem pintada”. E para isso, entrega-se ao melhor pintor da casa.
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