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PNEUMONIA ATÍPICA: POUPANÇA MATA MEDO

Vêm para o Senhor Santo Cristo e encontram grande aparato médico por causa da pneumonia atípica. Mas o mesmo avião que os traz do Canadá, volta a Toronto cheio de ilhéus que aproveitam o baixo preço para umas férias mais baratas. Sem medo
11 de Maio de 2003 às 17:44
PNEUMONIA ATÍPICA: POUPANÇA MATA MEDO
PNEUMONIA ATÍPICA: POUPANÇA MATA MEDO FOTO: Arquivo CM
O aparato em torno dos emigrantes açorianos no Canadá - um dos países mais castigados pela pneumonia atípica – não assusta os ilhéus, habituados a ventos e intempéries. A despeito das festas do Senhor Santo Cristo e, sobretudo, do medo que se tem instalado, muitos açorianos estão a aproveitar os ‘saldos’ dos voos para visitar familiares em Toronto.
Aos domingos de manhã, quando chegam os de ‘fora’, poucos se lembram que, na véspera, o mesmo avião levou para o Canadá dezenas de ilhéus. E a esses, quem fará o rastreio quando voltarem para Portugal?
Esta é a época do ano em que os voo para o Canadá são mais baratos, com a transportadora aérea açoriana (SATA) a oferecer descontos especiais para viagens a partir de Ponta Delgada. A ideia é manter as taxas de ocupação elevadas nos dois sentidos.
Este ano, e mesmo com a terrível ameaça da pneumonia atípica, as reservas da transportadora aérea não sofreram quebras. Isso mesmo defende Ricardo Madruga, para quem “os números se mantém dentro do normal para a época”. “Não foi possível detectar qualquer movimentação expressiva já que o número de desistências terá sido compensado por novas reservas”, defende o mesmo responsável.
Ana Correia, uma das passageiras que com destino ao Canadá, pertence ao clube das corajosas. “Não me parece que vá correr grandes riscos”, admite, garantindo que as conversas que tem mantido com os familiares lhe inspiram “tranquilidade”. Em Toronto, diz, “a situação está controlada, pelo que não tenho receio”. Por outro lado, a inexistência de casos entre a comunidade portuguesa constitui também um motivo para algum descanso: “Vou estar com a minha família e, de certeza, que não iremos a locais de risco. Não tenho medo”, conclui.
ESTADO DE SÍTIO NO AEROPORTO
“Se em Portugal houvesse um só caso de pneumonia atípica, ninguém nos deixava sair dos Açores!”. Aos domingos de manhã, no aeroporto de Ponta Delgada - local de chegada semanal de quase duas centenas de emigrantes da cidade de Toronto – esta frase é repetida muitas vezes. Mas a compreensão manifestada entre quem está, raramente encontra eco junto de quem chega.
A maioria das pessoas vindas para as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres (as maiores festividades religiosas do arquipélago açoriano) não entende o aparato com que é recebida: um formulário preenchido ainda a bordo e, logo depois, uma equipa médica com máscaras, óculos especiais, batas e luvas só para verificar a temperatura dos passageiros.
Esta espécie de comité de recepção tem causado alguma irritação à maioria dos passageiros. Muitos questionam, em primeiro lugar, o facto das medidas de segurança adoptadas em Ponta Delgada nada terem a ver com o que ocorre no local de partida. “Não se passa nada disto em Toronto”, contou um dos passageiros, considerando que todo o ambiente vivido nos Açores “parece o de uma crise e não corresponde à realidade”. À contrariedade do rastreio, há que somar a espera. Os meios médicos deslocados para o aeroporto de Ponta Delgada são manifestamente reduzidos para o número de pessoas que esperam desembarcar. Chegam a estar dois médicos e cinco enfermeiros para controlar 175 passageiros, desembarcados em grupos após seis horas de viagem. “Não se percebe todo este aparato”, reclama um passageiro, salientando a ‘normalidade’ vivida em Toronto. “No aeroporto” – assegura – “ninguém vê nada disto”.
LUVAS E MÁSCARAS A BORDO
Já dentro do avião português são explicados pela primeira vez os procedimentos que serão adoptados em Ponta Delgada. A bordo, os passageiros têm já uma pequena amostra do que os espera: todos os elementos da tripulação viajam com máscaras e luvas. “Parece que todos os passageiros são suspeitos”, reclamaram vários tripulantes, após o desembarque.
As medidas em curso no aeroporto de Ponta Delgada vão continuar a ser adoptadas, pelo menos enquanto Toronto for considerado local de risco (embora a Organização Mundial de Saúde [OMS], responsável pela classificação, já tenha levantado o alerta contra as deslocações rumo àquela cidade canadiana).
Para as autoridades açorianas, a questão é simples: enquanto o Canadá estiver na lista de risco dos países onde existem casos de pneumonia atípica, as medidas de segurança serão mantidas no arquipélago.
O governo regional dos Açores decidiu, por isso, “seguir escrupulosamente” o que tem sido ditado pela OMS, conforme explicou ao ‘Domingo Magazine’ Paulo Barcelos, assessor de imprensa da Secretaria Regional dos Assuntos Sociais, responsável pelo rastreio dos passageiros que chegam directamente de Toronto (além de Ponta Delgada, a Sata mantém também ligações entre o Canadá e a ilha Terceira).
“Não queremos arriscar”, explica Paulo Barcelos, sublinhando, porém, que o governo regional açoriano “também já levantou a indicação que aconselhava à não realização de viagens para Toronto”.
O BEIJO
A maioria dos peregrinos que se desloca a Ponta Delgada para cumprir promessas, entra na Igreja e beija a pequena placa de prata que se encontra no gradeamento. É este beijo - afinal um acto de fé - que sela o cumprimento da promessa e que marca o final de todo o ritual.
Este ano, por determinação de Monsenhor Agostinho Tavares, responsável pelo Santuário da Esperança, tal não vai ser possível. A Igreja decidiu colocar uma faixa junto à placa, explicando que devido à pneumonia atípica e à possibilidade de contágio, deve-se evitar qualquer contacto entre os peregrinos. O beijo na placa é, precisamente, um dos rituais mais perigosos para a transmissão deste tipo de doenças.
A chegada de três mil emigrantes propositadamente para as festividades, mais de mil chegados do Canadá, levaram à adopção de alguns cuidados. Um manual de emergência tem sido distribuído pelos passageiros.
No local onde decorrem as festividades também estão a ser tomadas algumas medidas. Mas apesar do receio instalado, várias entidades admitiram já que não há muito a fazer. “Se uma pessoa infectada se deslocar ao Santuário da Esperança (onde se encontra a imagem do Senhor Santo Cristo) é quase certo que acabará por contaminar outras pessoas”, explica um médico de Ponta Delgada, que pediu para não ser identificado.
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