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“Pode ser a nossa vizinha do lado, sem nós sabermos”

Trabalham quase sempre por conta própria. Ocultam da família a sua ocupação. Ser acompanhante de luxo é nunca parecer prostituta nem se vestir como tal. O sociólogo conta como vivem estas mulheres no livro ‘Corpo Adentro’.
17 de Janeiro de 2010 às 00:00
“Posso dizer-lhe que o valor mais baixo que encontrei foram 200 euros”, refere
“Posso dizer-lhe que o valor mais baixo que encontrei foram 200 euros”, refere FOTO: Sérgio Lemos

- Vamos desmistificar: uma acompanhante de luxo é, na prática, uma prostituta como qualquer outra?

- Se definirmos a prostituição como um acto que materializa uma relação sexual tendo por base um pagamento, as acompanhantes encaixam na definição. Mas há outras características que as distinguem de outras prostitutas. Em primeiro lugar, o grau de autonomia com que exercem a actividade. As prostitutas de rua têm quase sempre um chulo. Estas mulheres tendem a não ter. São diferentes das de ‘alterne', porque o bar também faz esse serviço de mediação e controlo. Outro critério são os valores mais elevados do que em qualquer outra das formas de prostituição. E, depois, tem a ver com os serviços prestados por estas mulheres prostitutas, que vendem sempre o seu tempo, presença, acompanhamento efectivo, e esses actos podem ser sexuais mas não exclusivamente. Pode ser o acompanhamento para um jantar, para uma festa, para uma viagem. Apenas para conversar. Mas também, e quase sempre, incluem os actos sexuais.

- E o que é que isto tem de romântico?

- Não sei se terá alguma coisa. Aliás, essa visão romântica sobre esta forma de prostituição em particular é muito veiculada pelos midia, pela ficção dos romances ou das séries televisivas. Tendem a construir uma com glamour deste tipo de prostituição.

- Que na realidade não existe?

- Não existe com esse glamour. As viagens são um dos serviços que estas mulheres podem prestar. Mas nenhuma das mulheres com quem eu falei alguma vez fez uma viagem.

- Será então uma grande minoria as que vão também a festas?

- As festas podem acontecer. O acompanhamento para um jantar. Agora, nunca é apenas só isso.
Mesmo que elas os acompanhem a festas ou a jantares, há sempre uma relação sexual depois?
Quase sempre. São muito raros os encontros em que não há a concretização do acto sexual.

- É ou não imoral ser acompanhante de luxo?

- Não faço esses julgamentos morais.

- Mas, moralmente, como é que a sociedade julga estas acompanhantes?

- Este tipo de prostituição surge, em grande parte, pela necessidade de a esconder. Essa razão existe porque ser-se prostituta é carregar um estigma ou ser-se cliente de prostituição pode significar, sobretudo na contemporaneidade, a exclusão de uma masculinidade moderna.

- E essa relação vive dessas duas exclusões.

- Vive da fuga da mulher ao estigma de ser ‘pu**' e da fuga de ser cliente de prostitutas.

- Berlusconi e Tiger Woods mantiveram relacionamentos com acompanhantes de luxo. Então qual é, na verdade, o perfil do cliente?

- O perfil-tipo ainda não o consigo definir cabalmente. Posso-lhe dizer que um dos critérios de distinção deste tipo de prostituição é o dinheiro. É definidor de quem pode aceder a este tipo de prostituição.

- Acima dos 100 euros à hora...

- Sim. Posso dizer-lhe que o valor mais baixo que encontrei foram 200 euros.

- Ser acompanhante e não prostituta de rua é sinónimo de mais beleza, de corpo escultural. Como são fisicamente estas mulheres?

- É, claramente, sinónimo disso tudo. Um dos critérios de distinção em relação a outras formas de prostituição é o corpo. E não são só as formas. É também o investimento que fazem no seu corpo. Os cuidados estéticos, a forma como se vestem, os adereços que utilizam, sensualizando-se. Nos anúncios, sobretudo na Internet - que é aí que está a grande base de acesso a estas mulheres -, as imagens são profundamente erotizadas.

- Vestem-se de modo diferente como acompanhantes do que na sua vida social e familiar habitual?

- Não. Elas não se vestem para se anunciarem prostitutas. Investem é na sua erotização - mas com alguma discrição.

- O estudo subjacente ao seu livro tem por finalidade, entre outras, a de desvendar a parte oculta do dia-a-dia das prostitutas de luxo. O que descobriu de surpreendente?

- O que é, fundamentalmente, surpreendente enreda-se na comunalidade da vida destas mulheres. De poderem ser a nossa vizinha do lado, sem nós sabermos. E não há necessidade de o sabermos. O facto de em algum momento da sua vida terem decidido tornar-se prostitutas acompanhantes significa, num certo sentido e para algumas delas, tomarem efectivamente as rédeas das suas vidas. Umas porque se sentem encurraladas, outras por uma opção mais ou menos livre de alguns constrangimentos, outras até por experimentação sexual.

- Qual é o grau de satisfação delas em relação ao seu trabalho?

- É uma pergunta complicada na medida em que não se consegue avaliar assim o grau de satisfação. O que elas me dizem é que a opção que tomaram, mais ou menos constrangida pela realidade, permite-lhes viver a vida da forma que elas pretendem. Agora se isso significa uma satisfação total com a vida ou com aquilo que fazem, não sei.

- Os seus altos padrões de rendimentos transformam-se numa prisão?

- O facto de estas mulheres pedirem muito dinheiro por um encontro não significa que elas ganhem muito. Têm menos procura. Para ganharem muito dinheiro têm que trabalhar muito. Podem é ter o rendimento suficiente para a concretização dos seus projectos e que, se calhar, não conseguiriam no mercado de trabalho tradicional. Para muitas delas esta foi a solução da precariedade. Para a mais nova com quem falei, ter entrado na prostituição permite-lhe continuar a estudar numa universidade privada e sair de casa dos pais para viver com o namorado.

- O namorado não sabe?

- Os maridos, os familiares ou os filhos quase nunca sabem.

- Como é possível viver duas vidas?

- Surpreendeu-me que essa incerteza de serem apanhadas só existe no início. Depois, para ocultarem a actividade dos familiares, elas usam os mesmos mecanismos que para se ocultarem da generalidade das pessoas e para se manterem em segurança nesta actividade.

- Estas mulheres conseguem manter um relacionamento amoroso fixo?

- Conseguem e desejam-nos ter. São tão normais como os relacionamento de outras pessoas quaisquer. Afirmam amar e envolver-se com os seus parceiros.

- A vida destas mulheres é feita, essencialmente, de sexo?

- Não. É tanto quanto a vida de qualquer outra pessoa. A questão é que elas passam mais horas a fazê-lo.

- Sentiu que elas tenham fantasias sexuais e que as ponham em prática?

- Não com os clientes.

- Ao nível da história sociológica: houve alguma alteração no que se refere à visão que cada um dos intervenientes tem acerca das acompanhantes de luxo?

- Mais do que uma alteração sobre a representações sociais das acompanhantes de luxo, há uma alteração da visão sobre a prostituta e sobre a prostituição. A prostituta de rua mantém-se com a mesma representação de sempre, o mesmo estigma, é vulnerável, está sempre associada a outros fenómenos de delinquência ou marginais como o tráfico de droga, o consumo de droga, o alcoolismo. Estamos a falar de estereótipos. Uma versão mais actualizada da prostituta de rua são as mulheres que estão no sistema do alterne. São igualmente estigmatizadas, são é menos visíveis. Relembremos o que aconteceu no fenómeno das ‘mães de Bragança'. Toda a gente sabia quem eram aquelas mulheres e nesse sentido o estigma está lá. Porque o meio é relativamente pequeno, aquelas mulheres foram facilmente identificadas com aquele espaço, com o alterne e com a prostituição. Rapidamente o estigma da ‘pu**' lhes foi rotulado. Agora, o tipo de prostituição da acompanhante de luxo é outra coisa. A sua característica básica é a fuga ao estigma pela ocultação.

'SOU HOMEM, POSSO RECORRER A ELAS COMO CLIENTE'

- Foi obrigado a pagar uma quantia, fazendo-se passar por cliente, para entrevistar as acompanhantes com quem falou?

- Sim, e o pagamento deve-se a um simples facto: senti-me encurralado porque quando, primeiro, comecei a contactar estas mulheres explicitei os meus objectivos. E isso causou uma grande incerteza de quem estava do outro lado. E o que fazem estas mulheres quando se sentem inseguras? Não existe contacto. E eu pensei: há uma solução: sou homem, posso recorrer a estas mulheres como cliente.

- Quanto dinheiro gastou?

- Próximo dos mil euros.

- Qual a situação mais embaraçosa? Sei que tomou banho num dos quartos, para não levantar suspeitas.

- Esse será, claramente, o melhor exemplo. O facto de me ver obrigado a tomar banho era um sinal claro - para outras pessoas, neste caso para as colegas de apartamento - de que tudo corria com normalidade.

PERFIL

Bernardo Coelho, de 32 anos, investigador no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia CIES-ISCTE- IUL, é licenciado em Sociologia e está a fazer um doutoramento sobre as acompanhantes de luxo e os seus clientes. Assim surgiu o livro ‘Corpo Adentro', da Difel, que retrata o universo das acompanhantes através dos seus depoimentos e da análise sociológica.

'Há pessoas que, pronto, já me conheciam e chegaram por amigos e tal... Mas sempre tudo muito discreto... Aqui não há anúncios, as pessoas para terem o meu contacto têm de estar referenciadas (...) as pessoas resguardam-se, né?' Este depoimento de Joana, 23 anos, é o retrato deste mundo oculto.

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