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Por uma lata de tinta

A morte de três graffiters levanta questões sobre uma arte envolta em polémica.
Ana Maria Ribeiro 13 de Dezembro de 2015 às 12:00

Pintar um comboio parado durante o percurso chama-se ‘backjump’. Se a pintura for de uma ponta a outra do comboio é ‘end to end’, e se encher uma carruagem inteira de uma ponta à outra e de cima a baixo chama-se ‘whole car’. Se um comboio vier em sentido contrário e apanhar os graffiters em plena função, chama-se morte. O acidente aconteceu segunda-feira, no apeadeiro de Águas Santas, no concelho da Maia, e deixou o País consternado. Três jovens – dois espanhóis e um português, com idades entre os 18 e os 20 anos – foram trucidados enquanto desafiavam o perigo em nome de algo que lhes parece superior. Chame-se-lhe arte, vontade de deixar uma marca duradoira ou desejo de fazer ouvir uma voz de contestação.


Pedro Soares Neves, especialista em arte urbana – e ele próprio graffiter nos anos 90 – partilha o sentimento de choque que abalou a sociedade portuguesa mas explica que, mais do que condenar, é preciso compreender o entusiasmo destes jovens. Que não vão parar de grafitar. Com mortes ou sem elas.


"No mesmo sítio onde faleceram os rapazes, foram atropeladas – e continuarão a ser – outras pessoas. O que cria a notícia, aqui, é o facto de eles estarem a pintar. Foi isso que lhes trouxe uma morte ridícula, embora o ato em si nada tenha de ridículo", sublinha. "Há, por trás dele, um impulso muito grande... A transgressão faz parte do crescimento e este tipo de transgressão partilhada faz-se em prol de algo maior. Da expressão pessoal, da procura de uma plasticidade própria..."


COMO TUDO COMEÇOU

Considera-se um graffiti "uma inscrição caligrafada ou um desenho pintado ou gravado sobre um suporte que não é normalmente previsto para esta finalidade" e estão registados desde o tempo dos Romanos. No filme ‘A Vida de Brian’, dos Monty Python, grupos de judeus escrevem nas paredes contra a ocupação romana. São apanhados e devidamente punidos. E Pedro Soares Neves não nega o efeito destruidor de algumas das intervenções feitas ainda hoje. Estima-se que, por ano, a Câmara Municipal de Lisboa gaste cerca de um milhão de euros em operações de limpeza na cidade. Na CP [Comboios de Portugal], os prejuízos chegam aos 300 mil euros, enquanto na empresa Transportes de Lisboa (que junta o Metro e a Carris) são gastos cerca de 20 mil euros por ano na remoção das pinturas.

Mas já há locais próprios – legais – para exercer as chamadas artes de rua. Porque os tempos mudaram. "Na minha altura éramos um grupo de dez e operávamos na área metropolitana de Lisboa, onde se começou a desenvolver este tipo de práticas. Mas era tudo um pouco virgem..."


Os primeiros graffiters encontraram pelas paredes antigos murais do PREC com a tinta a descascar e uma cidade cheia de cartazes semidescolados. "Nessa altura, um jovem ir para a rua com uma lata de spray era uma extravagância que ninguém compreendia e, inicialmente, foi vista com espanto e depois
com repúdio." Só mais tarde viria o reconhecimento. Afinal, nem todas as intervenções eram iguais e muitos dos graffiters ganharam admiradores. Foram assimilados pelo circuito comercial e chamados de ‘artistas contemporâneos’.


VHILS COMEÇOU ASSIM

Foi assim que começou Vhils, por exemplo, que em entrevista à ‘Domingo’ já este ano garantiu orgulhar-se do passado de graffiter e confessou que "foi um ato de rebeldia" no seu percurso. Pedro Soares Neves lembra também o caso dos artistas conhecidos por Gémeos (os brasileiros Otávio e Gustavo Pandolfo), que fizeram uma exposição no Museu Berardo, em Lisboa, em 2010, e que, "durante essa passagem, aproveitaram o tempo para ir grafitar um comboio, embora pouca gente o saiba". "A arte, de uma forma geral, tende a ser antissistema e a querer contribuir para as mudanças sociais."


Mas, em Portugal, a prática de pintar comboios não é comum, embora não seja inédita. Em 2003, um graffiter conhecido por Vneno foi eletrocutado na linha de Metro de Lisboa, na estação do Rato. Como o Metropolitano de Lisboa não permite a circulação de carruagens pintadas, o seu ato teria ainda mais impacto. De acordo com a hierarquia dos artistas de rua, o risco e a dificuldade de acesso aos locais intervencionados conferem um estatuto superior aos artistas.


"Há muitas matizes neste meio. Há quem nunca tenha feito nada de ilegal na rua e se restrinja a trabalhar nos espaços legais. Mas na parte ilegal da atividade a intervenção nos comboios é aquela que é mais reconhecida. Sobretudo junto dos mais ortodoxos, ou seja, aqueles que estão focados na dimensão de guerrilha deste tipo de práticas."


MUDANÇA PARA MELHOR

Mas também no meio dos artistas de rua tem havido evolução. Pedro Soares Neves, que depois de um passado como graffiter tem, atualmente, duas licenciaturas, um mestrado e está a doutorar-se em Ciências da Arte na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, diz que há um foco cada vez maior na mensagem que as intervenções pretendem veicular. "Há um reconhecimento gradual de que a qualidade é mais valorizável do que a destruição ou a ousadia de chegar a determinado lugar mais inacessível", garante. "Há um processo de maturação envolvido nisto e que tem a ver com o facto de sermos jovens ou menos jovens..." Da outra parte, ou seja, da parte das instituições, espera também que haja mais compreensão para um fenómeno que não tem fim anunciado. A repressão, lembra, nunca funciona.


"Os responsáveis têm tomado sempre a mesma atitude: colocar obstáculos, pôr mais polícia, mais segurança. Isso não resolve nada." 
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