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Correio da Manhã

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Portista radical

Um enorme ‘Hulk’ estampado nas costas sublinha as suas simpatias. Falta meia hora para o FC Porto-Sporting
Victor Bandarra 20 de Maio de 2012 às 15:00
Revolução, 24 de Abril, Eanes, Soares, Sampaio, Paulo de Carvalho, FMI
Revolução, 24 de Abril, Eanes, Soares, Sampaio, Paulo de Carvalho, FMI FOTO: João Miguel Rodrigues

Franzino e aprumado sob amplo equipamento azul-e--branco, o rapaz perscruta os horizontes, de pé, encostado à mesa da esplanada da marginal de Luanda. Atento, toma pulso ao ambiente e senta-se com as devidas calmas. Um enorme ‘Hulk’ estampado nas costas sublinha as suas simpatias. Falta meia hora para o FC Porto-Sporting. As mesas preenchem-se de azul e verde – o azul-dragão a ganhar com descarado avanço ao verde-leão.

Percebe-se porquê – Mantorras foi chão que deu uvas no Benfica e as vitórias portistas dos últimos anos preenchem bem os espaços de orgulho do país novo e cheio de jovens, onde os mais-velhos se recordam das proezas de Coluna e Eusébio e os muito-velhos das goleadas dos 5 violinos. Ainda assim, contabilizam-se cinco mesas com rapazes de verde e raça clubista à Sá Pinto. Todos preparados para esquecer as desventuras do Petro, Asa ou 1º de Agosto, olhos vidrados no desmesurado ecrã.

O sol foge no mar em frente da nova silhueta de Luanda – arranha-céus e guindastes plantados por entre arruamentos congestionados de trânsito. Pouco à-vontade, o rapaz acomoda-se com dignidade. Um entre 5/6 milhões que a guerra empurrou para a capital, está-lhe no jeito que cresceu num bairro popular – talvez Sambizanga, ou Samba ou Prenda. Na esplanada à pinha não há uma mesa vazia. Os adeptos muangolés fustigam-se com gongóricas análises ao jogo.

O rapaz, concentrado, não vai em conversas nem em companhias. Ali está ele, orgulhoso e só na sua mesa, acompanhado por uma cadeira vazia. Pede um ‘fino’ e um pratinho de moelas e puxa de uma nota de mil kuanzas. Ciente da loucura inflacionista dos restaurantes da Baixa, paga à cabeça, para saber se pode arriscar segundo ‘fino’.

O jogo está a começar. Agitam-se emoções. De repente, um português cinquentão bate-lhe no ombro. "Ó jobem, a cadeira está libre?" O rapaz hesita. "Sou portista, carago!" O tripeiro já está sentado, o jovem abre-se em sorriso de solidariedade clubista. Minutos depois, ataque rápido de Hulk, duas fintas desenxabidas e desarme sem mácula de Polga. O homem dá um salto. "Olha-me este cabrão do Hulk! O Pintinho debia era despachar metade da equipa, carago!"

Carrancudo, o rapaz aponta o dedo ao português. "Você não disse que era portista!?" Surpreendido, o emigrante puxa dos galões. "Desde pequenino, carago!" Ainda de dedo alçado, o angolano lança-lhe primeiro e último aviso: "Aqui na minha mesa, ninguém diz mal do Porto! Percebeste?" Até ao fim do jogo, o tripeiro só abriu a boca para pedir ‘finos’ atrás de ‘finos’.

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