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“Portugal não é um outro Brasil”

O embaixador brasileiro em Lisboa acredita que o Brasil deverá aumentar a sua aposta no mercado português. Reconhece que os seus compatriotas ainda se interessam pouco por Portugal.


25 de Outubro de 2009 às 00:00
“Portugal não é um outro Brasil”
“Portugal não é um outro Brasil” FOTO: Jorge Paula

O embaixador brasileiro em Lisboa acredita que o Brasil deverá aumentar a sua aposta no mercado português. Reconhece que os seus compatriotas ainda se interessam pouco por Portugal.

- Quando chegou a Portugal teve dificuldades em perceber o que as pessoas diziam?

- Não, de jeito nenhum. Sou neto de portugueses, escutei muito falar português na minha infância.

- Sei que é neto de transmontanos.

- O meu avô era de Galafura, perto de Peso da Régua. A minha avó era de Chaves. Mas foram cedo, com as suas respectivas famílias, para o Rio de Janeiro. Viviam cercados de compatriotas.

- Como avalia a diminuição do ritmo de imigração do Brasil para Portugal?

- Será que houve um ritmo de diminuição? – pergunto. É difícil hoje avaliar. Fala-se em 76 mil, o SEF fala em 106 mil, ouve-se falar em 120 mil. As fronteiras são porosas e a gente não pode saber se houve realmente uma diminuição da população brasileira em Portugal. Acho que a questão está muito relacionada com o mercado de trabalho no Brasil e outras coisas.

- Quer dizer que as condições económicas das famílias brasileiras aproximam-se das portuguesas?

- Acho que sim, isso é uma tendência.

- Tem algum familiar cá imigrado?

- Não. A minha família está toda no Brasil. Tenho um filho em S. Paulo e duas moças no Rio de Janeiro, uma delas empregada numa empresa de comunicação.

- A Comunicação Social é muito diferente nos dois países?

- Se olhar o aspecto da reportagem no Brasil, ela é menor. O jornal televisivo dura 4o a 45 minutos. Aqui é uma hora. Se você folhear uma revista em Portugal, uma reportagem é mais extensa do que no Brasil.

- Também lê jornais desportivos?

- Não, embora eu goste muito de futebol!

- Qual é o seu clube português?

- Gosto muito do Benfica. Acho que tem agora um grande treinador, o Jorge Jesus, que fez um belo trabalho no Belenenses e depois no Braga. Ele está levando o Benfica a um novo conjunto. O que não se notava com o Quique Flores.

- E sobre Scolari: que avaliação faz do trabalho dele na Selecção?

- Foi bem, Scolari chegou à final da copa da Europa. Perder com a Grécia por 1-0 é uma conjuntura.

- Usa mais seguranças quando visita o Rio de Janeiro do que em Portugal?

- Não uso. Mesmo no Rio de Janeiro, moro no Leblon. Mas claro que a segurança é uma preocupação no Rio de Janeiro. Há certas áreas que não deve frequentar em determinadas horas. Não sei, mas em Lisboa também deve ser assim?

- Como avalia os confrontos recentes no Rio, agora que se sabe que o Brasil receberá os Olímpicos de 2016?

- É uma política clara do Estado do Rio de Janeiro de retirar das favelas os pontos de venda de droga, que está muito relacionada com a violência. Portugal, aliás, tem uma iniciativa muito ‘exitosa’ (usando uma palavra vulgar no Brasil) que se chama IDT [Instituto da Droga e da Toxicodependência], que funciona no Ministério da Saúde e não no Ministério da Justiça ou no da Administração Interna. Seria um bom exemplo a ser copiado no Brasil.

- Já partilhou essa informação com o ministro da Saúde brasileiro?

- Vou partilhar dentro de dias, quando ele vier agora a Portugal.

- O que mais seria interessante partilhar com o Brasil?

- Acho que Portugal tem uma experiência muito boa com a Loja do Cidadão. Na organização de clubes de futebol, Portugal é muito melhor que o Brasil. Outro dos aspectos positivos seria Bolonha, que é uma experiência europeia. Uma série de coisas.

- Voltando à violência. Os brasileiros têm uma cultura de violência diferente da portuguesa?

- Não, de jeito nenhum. Acho que, no fundo, a criminalidade ou a violência estão muito ligadas ao fenómeno da droga e podem estar ligadas a uma complexidade do sistema jurídico, que passa uma noção de uma certa impunidade. Mas não acredito que haja uma predisposição de português ou de brasileiro para o crime.

- Assusta-o que os brasileiros estejam associados à criminalidade violenta?

- Não. Acho que há criminalidade violenta por parte de todas as populações presentes em Portugal. O que houve foi uma certa evidência na imprensa, em determinado período, pelo assassinato do ourives, ou no caso do sequestro do BES.

- Acha que Portugal é o outro Brasil?

- Portugal foi o Brasil de outrora. Portugal não é um outro Brasil, somos parecidos.

- Pelos vistos, estamos a ficar com um clima mais quente. As temperaturas poderão aliciar os brasileiros?

- (risos) Não tem nada a ver.

- Chegou a ir à praia cá, este ano?

- Não, o mar aqui é muito gelado!

- Os brasileiros interessam-se pelo que se passa em Portugal?

- Assim como o português médio não tem boa noção do Brasil, o brasileiro também não terá de Portugal, não contextualiza o país, não sabe da boa infra-estrutura que tem, não sabe da estrutura universitária. Eu acho que o brasileiro talvez tenha uma ideia de um Portugal menor do que ele é.

- Na sua carreira diplomática, que país mais o surpreendeu?

- O Egipto. Talvez seja a cultura mais contrastante com a ocidental. É um país-chave no Médio Oriente, costuma-se dizer que 'não há guerra sem a Síria, nem paz sem o Egipto'. Eu acho que o Egipto foi uma extraordinária experiência.

- Os embaixadores do Brasil em Lisboa eram, por tradição, políticos. Lula da Silva preferiu dar lugar a diplomatas de carreira. Está a fazer a transição?

- Com o presidente Lula, pela primeira vez vejo o Itamaraty (o Ministério das Relações Exteriores) colocar diplomatas de carreira ocupando todas as missões no exterior. Ainda ontem se reformou aqui na Embaixada, onde há chefes de missão desde 1825, um funcionário com 71 anos que entrou para cá em 1960. Nesse período, ele teve como chefes dois presidentes da República e cinco ministros de Estado.

- Chegou a integrar algum governo?

- Não. É claro que quando trabalhei na Presidência da República fui como funcionário público requisitado.

- Que relação tem com Lula da Silva?

- Tenho grande admiração pelo presidente Lula. Teve uma política universalista para o Brasil. Lula é um homem com extrema responsabilidade de representar um país em desenvolvimento, de representar todo um mundo em desenvolvimento.

- Acredita que o Brasil será uma grande potência mundial?

- Acho que sim. Está em todas projecções feitas para 2020, 2050. O Brasil evidentemente tem uma agenda a cumprir e tem que fazer certas reformas.

- Como analisa o declínio do comércio bilateral (Portugal-Brasil)?

- Não há um declínio. O comércio estancou um pouco. Até ganhou um crescimentosinho. Acho que vamos chegar a um estágio em que haverá mais investimentos cá e lá. O Brasil está começando a investir também em Portugal. Os empresários brasileiros começam a sentir que Portugal é uma plataforma para a Europa.

- Não acha que esse investimento em Portugal é muito reduzido?

- É, ainda é muito reduzido.

- Falta motivação?

- Não, acho que não. O Brasil sofre um pouco o fenómeno do país grande: muito voltado para dentro de si.

- Tem 65 anos. Gostava de seguir a carreira até que idade e em que país?

- Não sei. Depois de Portugal é difícil ir para outro país onde você tenha uma realização pessoal e profissional tão boa.

'VÍDEO DE MAITÊ É IRRELEVANTE'

- Qual foi a sua primeira reacção ao vídeo de Maitê Proença?

- Aquilo parece que foi feito há dois anos!? É uma coisa tão pequena, é irrelevante.

- Falou com ela?

- Não, eu falei com a Maitê quando ela esteve aqui na Embaixada. Mas acho que é realmente uma coisa menor.

- Foi dada demasiada importância, é isso?

- Acho que sim, aquilo está supercontextualizado.

- Aprecia telenovelas portuguesas, ou acha que a receita desvirtua as brasileiras?

- Acho que são parecidas com as brasileiras.

- Acha que é um conteúdo enriquecedor?

- Eu acho que não. O que me surpreende em Portugal, intelectualmente, é a qualidade do texto e a qualidade do falar das pessoas. Acho que o texto jornalístico é muito bom, o texto literário é muito bom. As pessoas falam, em geral, bem.

PERFIL

Celso Marcos Vieira de Souza, 65 anos, nasceu no Rio de Janeiro. É embaixador do Brasil em Portugal desde 2007. Antes chefiou as missões na Áustria e no Egipto. Diplomata de carreira, trabalhou no Ministério da Educação, depois no das Finanças. Trabalhou no Banco Central e na Presidência da República.

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