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Portugueses devem ao Nobel da Paz

Portugal pode não ser o Bangladesh mas muitos precisam de pouco para a vida melhorar muito. As histórias do microcrédito.
22 de Outubro de 2006 às 00:00
Miguel Pinho, português de Luanda, foi saltimbanco de país em país, concertou telhados, fez animação cultural, trabalhou em restaurantes, plataformas petrolíferas, foi agricultor. Quando finalmente parou em Lisboa, quis abrir um restaurante mas o seu IRS não comovia banco algum. E precisava de pouco. Foi o microcrédito que o desenrascou, com 5000 euros. Também Raquel, Manuel e Carlos Alberto foram candidatos aceites na Associação Nacional de Direito ao Crédito, que aplica em Portugal o conceito criado pelo Nobel da Paz deste ano. Nenhum deles esteve alguma vez à beira da pobreza, à beira das dificuldades dos camponeses do Bangladesh. São todos portugueses comuns a quem a vida trocou as voltas.
Uma gota de água acaba de encher um copo. Pouco dinheiro ajuda a mudar uma vida. Mudou a de todos eles.
O convés de um barco estava abandonado na sede do Clube Naval de Lisboa, num dos barracões da administração do porto. Miguel lixou-o durante dias, até perder o vermelho velho e sujo e recuperar a cor da madeira. É hoje o balcão do Café Malaca, no primeiro andar daquele clube a atirar-se ao Tejo.
Em Lisboa, Miguel tinha trabalhado num outro restaurante e quando pensou em estabelecer-se por conta própria, em sociedade com Yoon Chin, mulher de um adido cultural francês, procurou um espaço de “renda atractiva” para um restaurante de comida de fusão. O local foi encontrado junto ao rio. Em Dezembro de 2005 abriu. Depois fechou. A arte do improviso que os levara a procurar coisas em segunda mão para fazer bonito, e poupar, não tinha sido suficiente. Estavam sem dinheiro, faltava-lhes coisas essenciais como um exaustor.
A aventura dos bancos tinha deixado Miguel Pinho acabrunhado. Aos 46 anos ninguém lhe emprestava um cêntimo que fosse. “Não tive qualquer hipótese. E nem quero falar da maneira como fui atendido. Também não tinha nada que pudesse vender. Por isso, estivemos mesmo em risco de fechar. O microcrédito foi o sopro vital que nos permitiu dar a volta.” Cinco mil euros, o mesmo que custaria um televisor com ecrã plasma de 50 polegadas.
Raquel Fonseca é casada há sete anos, tem dois filhos. Nasceu e viveu sempre em São João da Madeira. Trabalhava como chefe de sector num supermercado quando a crise atingiu o patrão e depois, como costuma acontecer, a ela. “Quando o meu contrato acabou, aproveitaram para não o renovar. Estavam a cortar no pessoal. Trabalhava lá há já quatro anos.”
Disposta a não cansar a vista nos anúncios de empregos, resolveu estabelecer-se. No supermercado onde tinha trabalhado, percebera a apetência insatisfeita dos clientes por produtos saudáveis. Encontrou um nicho, palavra da economia moderna que só quer dizer uma oportunidade num negócio pouco explorado. Resolveu procurar um espaço em que pudesse instalar uma loja a que chamasse sua para satisfazer os insatisfeitos clientes do supermercado que a tinha mandado embora. Raquel não baixou os braços mas acabaria por embrulhar a mágoa nos guichés dos bancos. Ninguém empresta a desempregados, ninguém empresta a quem ainda paga hipoteca da casa, mesmo quando se tem um projecto de pé, o tal nicho de negócio.
O preço de um computador portátil em promoção, quatro mil euros arranjados através do microcrédito, deu para comprar as prateleiras e o frigorífico e abrir a loja, a que ela chamou Sóvida. Assim, tudo junto e por tão pouco.
Três hectares entre montes e lameiros verdes do Barroso, uma casa de pedra com 170 metros mudaram a vida de Manuel Luís Barros. E abelhas. O ex-designer gráfico da Maia que trabalhou de vento em popa para a Porto Editora e para a Asa viu-se com o negócio em águas paradas quando a crise soprou no sector. Se não fosse filho de mãe transmontana e no sangue lhe corresse a paixão pela terra, quando bicho algum mete medo, teria sido improvável que do perito em grafismo nascesse um apicultor. “Em 1990 ou 1991, já tinha comprado o terreno com uma casa de pedra e de início pensava em explorar o sítio para o veraneio ou para a agricultura biológica...” Nem uma coisa, nem outra. As coisas da vida chegam quase sempre enviezadas. Quando foi obrigado a mudar de vida, como diz a cantiga de António Variações, gastou o que tinha amealhado para pôr de pé o negócio do mel. “Vinte mil contos”, diz deitando contas ainda em moeda antiga. Ficou nas lonas mas feliz.
Em 2002 tinha já a seu cargo “o único gado a que não é preciso abrir a porta” – abelhas – e dispensava intermediários entre a produção e o cliente.
Quando pensou na fase seguinte, utilizar frutos secos no mel, pô-los bonitos em frasquinhos, faltava-lhe muito menos dinheiro do que já investira, só que não tinha já nenhum. Viu Jorge Sampaio, então Presidente da República, na TV. Falava de Muhammad Yunus e do microcrédito. Foi à lista telefónica e num processo rápido – menos de um mês – arranjou cinco mil euros. No concelho de Montalegre, aos 48 anos, Manuel Luís Barros acha que está no melhor sítio do mundo.
Carlos Alberto Costa perdeu o conto ao anos de desemprego. Diz que o desalento lhe toldou a memória e até é bom que assim seja. Camionista de profissão por conta de outrem, a crise atravessou-se à sua frente para o deixar sem trabalho. Quando deu por isso, também não tinha a segurança social do Estado – não fizera descontos. “Depois de uma vida de trabalho, ao volante, com a idade que tinha já não havia quem me desse a ganhar.”
Entre telenovelas e séries estrangeiras, Carlos Alberto viu na sua casa de Aveiro a história do microcrédito. Pensou em não contar mais com os outros para arrecadar euros ao fim do mês. Comprou um camião. A entrada foi comparticipada pela Associação Nacional de Direito ao Crédito, a ligação do Banco Grammeen em Portugal.
Nos dias que correm é difícil apanhar Carlos Alberto parado num sítio. Aos 51 anos roda as estradas portuguesas no seu pesado da Renault, sem bandeira de clube ou santo que zele pelo percurso pendurado no retrovisor. “Não tenho clube, nem religião, só os meus dois braços e este camião.”
Agora, Miguel Pinho sente-se a pisar um fio de arame, em equilíbrio precário com uma vara nas mãos. A imagem da actividade circense serve para dizer que mesmo que comece a trabalhar à séria, que mesmo que já tenha clientela fixa no seu restaurante, está dependente do apetite do Porto de Lisboa pelas instalações do velhinho Clube Naval. “O Clube F e o restaurante Vírgula, aqui ao lado, pagam chorudas rendas. Nós aqui somos uma sereiazinha entre tubarões.”
Em São João da Madeira, Raquel começa também a ter clientela fiel que lhe compra algas, tofu ou lentilhas, entre outros produtos. No dia em que contou a sua história, tinha a filha consigo na loja. “Houve greve na escola. Até nisso é mais fácil que esta loja seja minha. Posso-a ter ao pé de mim.”
Carlos Alberto roda de camião, sabe que do comprimento da estrada depende o seu ganha-pão. Logo ele que nunca gostou do volante ou de ser camionista. No dia em que conta a sua aventura pessoal, seguia de Chaves para o Algarve para a fábrica da Unicer.
Manuel Luís Barros faz transumância de abelhas, da urze de Montalegre, para o eucalipto, para o rosmaninho da Torre de Moncorvo, atrás de outras flores para outros méis e trabalha para lojas gourmet. No silêncio das terras despoluídas de Montalegre, hoje em dia só sonha em expandir o seu negócio.
ENTRE 1999 E AGOSTO DE 2006
MICROCRÉDITOS
Estes são os números do microcrédito em Portugal. Os dados são fornecidos pela Associação Nacional do Direito ao Crédito, a ponte do Grammeen no país.
2.686.724 euros é o total de créditos concedidos.
416 059 euros de créditos entre Janeiro e Agosto de 2006.
615 projectos já aprovados.
4369 euros são em média atribuídos em cada empréstimo.
711 postos de trabalho criados.
324 projectos são de mulheres.
36 a 45 anos é a faixa etária da maioria dos beneficiários.
236 projectos só em Lisboa, o distrito onde se recorre mais ao microcrédito. Segue Porto e Setúbal.
30 por cento dos créditos concedidos são para negócios nas áreas dos serviços e da restauração.
ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA
O DIREITO AO CRÉDITO
A Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC), a ponte do Banco Grammeen em Portugal, ajuda a estabelecer um plano para a formação da empresa e depois os candidatos ao crédito fazem o pedido junto de instituições bancárias como o BCP, a CGD ou o BES. A associação tem sede na Praça José Fontana, em Lisboa, n.º 4, 5.º andar, Lisboa, página na Internet http://www.microcredito.com.pt/ e pode ser contactada através do telefone 21 315 62 00. O crédito está acessível a pessoas com menos de 65 anos, desempregadas ou com trabalho precário. A taxa está indexada à Euribor mais dois por cento. Em Portugal, a concessão do microcrédito com o apoio da Associação Nacional de Direito ao Crédito, que acompanha depois a implementação dos projectos, tem como limite máximo cinco mil euros. Através do BCP, o empréstimo máximo é de 15 mil euros.
O conceito em Portugal já criou 711 postos de trabalho. Oitenta por cento continuam a contribuir para a economia.
BANCO SÓ DÁ A QUEM JÁ TEM
MUHAMMAD YUNUS
Idade: 66 Anos / Profissão: economista, fundador do Banco Grammeen
Muhammad Yunus explicou em 2002, em entrevista ao ‘Correio da Manhã’, como começou o Banco Grammeen: “Verifiquei que os bancos do Bangladesh não emprestavam 27 dólares, montante sem significado, a 42 aldeões. (...) Dei-lhes o dinheiro do meu próprio bolso, afinal, eram só 27 dólares (21,5 euros). Pensei que ia ficar por aqui. Só que eles ficaram tão contentes! Foi impressionante ver como tão pouco dinheiro podia fazer tanta gente feliz. Nessa altura passou-me pela cabeça criar algum tipo de sistema que lhes permitisse ter acesso ao crédito.” Esta ideia, que se traduziu no Banco Grammeen em 1983, valeu a este economista bem nascido no Bangladesh, o Nobel da Paz deste ano. Nessa entrevista ao CM, Yunus dizia: “O problema é a forma como as instituições financeiras olham para o mundo. Se repararmos bem, os bancos só emprestam dinheiro a quem o tem. O acesso ao crédito é impossível para mais de metade da população do mundo.” A ideia germinou em 1976, desde então o modelo foi adoptado em mais de meia centena de países.
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