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PORTUGUESES INDESEJADOS EM CARACAS

Com o nome de João Gouveia devem existir centenas de homens em Portugal. Mas nenhum deles gostaria de estar na pele do madeirense que, a 6 de Dezembro, matou três pessoas na Praça Altamira, em Caracas. A oposição acusa o presidente Chávez de ser o cérebro do crime.
19 de Dezembro de 2002 às 13:59
A comunidade portuguesa da Venezuela está indignada com a conduta do conterrâneo João Gouveia, taxista,de 39 anos, natural de S. Roque, Funchal (Madeira). Este homem, que se define a si próprio como um ‘tímido’, foi o autor dos disparos que no dia 6 de Dezembro puseram termo à vida de três pessoas (entre elas uma menor) e feriram gravemente 29 outras, na Praça Altamira, em Caracas.

As organizações antigovernamentais consideram que o presidente Hugo Chávez foi, na verdade, o “cérebro” do crime mas, pelo caminho, apontam o dedo ao povo português pelos actos de um dos seus compatriotas. A situação política da Venezuela afecta todos os habitantes do país, mas os cidadãos portugueses ali radicados vivem agora momentos bastante difíceis. Indignação e vergonha são apenas dois possíveis sentimentos que caracterizam o estado de alma da comunidade lusa.

Tida como a colónia mais silenciosa e trabalhadora das que emigraram para aquele país, ela gera uma riqueza económica inegável, facto que tem despertado algumas tensões com os locais. A cadeia Central Madeirense, a mais poderosa na Venezuela, é um bom exemplo do ‘sucesso’ comercial dos emigrantes lusos, muitos deles donos de padarias, frutarias e outros estabelecimentos do pequeno comércio. João Gouveia, conhecido como ‘o pistoleiro’ da Praça Altamira – há quase dois meses convertida em ponto de contro para os opositores ao governo de Hugo Chávez – é um assassino com perfil esquizofrénico, procurado pela autoridades britânicas por vários crimes.

E agora, Chávez?

Na tarde do dia 6 de Dezembro, João Gouveia sacou de uma pistola ‘Glock’ modelo 40 e começou a disparar contra a multidão que se encontrava no local. Logo após a confusão que reinou na praça, e com o sangue das vítimas ainda fresco, as vozes da oposição voltaram-se imediatamente para Chávez, chamando-lhe “assassino”. O presidente contestou várias vezes “a acusação imediata e o juízo prévio” da oposição, considerando, isso sim, “suspeita” a acção do canal de TV privado Globovisión. Chávez acha estranho que aquela cadeia tenha emitido uma reportagem junto da sede da petrolífera estatal em La Campiña, a Leste de Caracas, na qual se vê João Gouveia junto ao alcaide local, Freddy Bernal.

Para o líder venezuelano, trata-se de uma conspiração dos meios de comunicação social para relacionar o autarca e, indirectamente, o Governo, com o autor do tiroteio. E é aqui que começam as contradições. Segundo investigações da Polícia local, Gouveia entrou no país 13 horas após a citada manifestação, pelo que nunca poderia lá ter estado.

Quem é este homem?

A João Gouveia não se lhe conhece residência fixa ou relação sentimental. O seu estranho comportamento dificulta a identificação de um círculo de relações e amizades, já que a sua atitude é idêntica à de um nómada. Segundo algumas testemunhas, duas horas antes de perpetrar o horrível crime, o indivíduo, que se apresentava de cabelo roxo, foi visto a comprar dois livros – “Renacer” e “Un minuto de sabeduría”.
Funcionários da Polícia venezuelana dizem que utilizava diferentes rostos para cometer acções suspeitas. Misterioso é também o facto de ter adquirido dois táxis, quando se sabe que não possuia recursos financeiros próprios.

Fontes não oficiais dizem que os automóveis foram cedidos pelo governo aos chamados círculos bolivarianos (criados por Chávez para salvaguardar a essência da chamada revolução bolivariana) e especula-se que os mesmos possam ser uma forma de pagamento por serviços prestados. Em declarações recentes, o próprio João Gouveia afirmou que a sua intenção nesse dia era ir a um cinema na Praça Altamira, e que ao passar pelo local foi abordado por duas pessoas que lhe disseram que a sua imagem aparecia na Internet numa pose pornográfica. “Recordo que abri o bolso, saquei da pistola, carreguei-a… Fui eu que apertei o gatilho”, confessou.

Já detido, contou que ia duas vezes por ano à Galeria Mágnum (local onde se pratica tiro) mas afirmou não ter recebido indicações de ninguém para cometer o crime. João Gouveia residia há 26 anos no país, 24 dos quais em Caracas, e define-se a si próprio como um homem tímido, desconfiado e com dificuldade em estabelecer amizades. Aos 16 anos teve mesmo meia-dúzia de sessões com um psicólogo para tratar esse problema. O taxista foi detido juntamente com outros seis suspeitos – libertados logo em seguida –, tendo sido o único a reconhecer a participação no crime. O estranho é que há uma semana foram encontrados nos corpos das vítimas vestígios de bala que não são compatíveis com o calibre da sua arma, o que confunde as investigações. O Governo português não fez qualquer comentário sobre o assunto e ainda não se sabe qual o destino do madeirense. Certo é que a oposição venezuelana assegura que há quem esteja interessado em provar a sua demência, livrando-o de um julgamento normal.

Reacções da comunidade lusa

João Manuel Figueira, um madeirense que reside há 40 anos na Venezuela, diz que o “pistoleiro” deve ser expulso e encarcerado 30 anos por cada morte. Uma opinião partilhada por Angelo Rodríguez, que vive há 25 anos naquele país, e que defende que independentemente da nacionalidade do assassino, ele merece o castigo da lei. Este padeiro acredita que o acontecimento não vai afectar a imagem que o país tem da colónia portuguesa, reconhecida como muito trabalhadora. “Por uma pessoa não pagam todas. Em qualquer parte do mundo há bons e há maus, há de tudo. Segundo o que entendi, foi um louco que cometeu o crime. O que lamentamos é que ele seja um português”, declara.

Finalmente João Soares, que ali vive há 30 anos, sublinha que é a primeira vez que sabe do envolvimento de um português num acto horrendo como este. E lamenta que ele tenha ocorrido numa altura de crise política. “Não sei que problemas terá esse senhor, mas não deve estar bom da cabeça, porque o que fez é uma loucura”, defende o dono de uma frutaria de bairro, acrescentando que o homicida terá que ser castigado. “Estamos todos preocupados mas isso não influencia a imagem que os venezuelanos têm de nós. Nestes anos tenho feito boas amizades e, além disso, tenho netos venezuelanos”, conclui.
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