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“Praxe pela igualdade”

O estudante de Coimbra defende que a praxe existe para criar unidade e igualdade mas critica as formas desadequadas de alguns que a praticam.
4 de Outubro de 2009 às 00:00
Youri Paiva, do Movimento Antitradição Académica (à esq.), e Nuno Ribeiro, estudante da Universidade de Coimbra
Youri Paiva, do Movimento Antitradição Académica (à esq.), e Nuno Ribeiro, estudante da Universidade de Coimbra

Youri Paiva - Usas traje para te distinguires de quem?

Nuno Ribeiro - Em Coimbra, os estudantes do ensino superior que assim o desejem não usam 'Traje' mas sim 'Capa e Batina'. A Capa e Batina não tem como objectivo criar um espírito sectário, federacionista ou segregador, mas sim uma unidade e igualdade entre todos os estudantes universitários. Todos os que optarem livremente por não usar Capa e Batina pertencem de igual modo a todo o espírito estudantil de igualdade e unidade no que diz respeito às questões verdadeiramente importantes, nomeadamente a defesa de um ensino superior de qualidade ou a preservação de alguns usos e costumes que são símbolos e embaixadores da cultura portuguesa, como é o caso da Canção de Coimbra ou o folclore da região centro. Claro que existirá sempre a diferença de posições e opiniões, sendo necessário haver uma cultura de respeito e tolerância. A Capa e Batina não faz ninguém ser superior ou melhor, mas traz muitas mais responsabilidades a quem a usa por todo o seu simbolismo.

YP - Porque é que preferes conhecer pessoas novas nas praxes, em que uns mandam e outros obedecem, e não de igual para igual?

NR - O grande problema da sociedade portuguesa é não entender a essência e o significado da palavra 'praxe', pelo que acaba por ser associada erradamente a situações de desrespeito e falta de educação. É muito importante perceber que a praxe não pode ser resumida à forma desadequada como os alunos do primeiro ano são recebidos e 'integrados' pelos estudantes mais velhos nas instituições de ensino superior. No meu caso, tudo tenho feito nos últimos anos para que os núcleos de estudantes que estão ligados à Associação Académica de Coimbra (AAC) possam transmitir a verdadeira praxe coimbrã aos novos alunos e que consiste, muito resumidamente: em todas as actividades culturais e desportivas que a AAC tem para oferecer; na aquisição de uma consciência crítica e construtiva acerca de temas tão variados como História, Política ou Economia; na defesa e promoção da Canção de Coimbra, o principal embaixador cultural da cidade; na obtenção de um espírito de companheirismo e solidariedade.

Em relação ao que o vosso movimento julga ser a praxe, discordo da forma como actualmente se usa e abusa da hierarquia para humilhar e desrespeitar os estudantes, na maioria dos casos. No entanto, considero ser um conceito benéfico, tendo em conta tudo o que referi anteriormente e, se correctamente aplicado, pois pode ser bastante divertido, integrador e educativo. Nunca poderá ser obrigatório participar em qualquer iniciativa nem ser sinónimo de descriminação, mas não nos podemos esquecer que este conceito irá estar presente em todo o mercado de trabalho.

YPTu achas mesmo que a 'mulher gorda não convém a ninguém' (música cantada na praxe por todo o país)?

NR - A música a que se referem nunca a ouvi ser entoada por estudantes da Universidade de Coimbra. Penso que faz parte do repertório popular português do conhecido conjunto António Mafra, o qual sempre se pautou por criar músicas alegres e sarcásticas. Se isso desvirtua a mentalidade dos jovens universitários em relação à aparência física do sexo feminino, teremos que 'democraticamente' extinguir mais de metade da obra musical e tradicional portuguesa. No entanto, como não entendi verdadeiramente a questão por vós colocada, também posso afirmar que actualmente se deixou de compreender o significado para palavra irreverência.

Coimbra é uma escola de vida por todos os motivos já enumerados e pela enorme diversidade de mentalidades. O estudante universitário deve ser capaz de abraçar o mercado de trabalho com maturidade, respeito e responsabilidade. Porque não vêm a Coimbra e à AAC conhecer a essência e a origem do que julgam ser a praxe universitária praticada por todo o país? Visitem a Secção de Fado da AAC, a qual foi fundada como consequência directa do Movimento de Pró-Organização e Restauração da Praxe Académica de Coimbra de 1979 e que colocou um ponto final no luto académico iniciado na crise de 1969.

YP - Não teria problema nenhum em ir a Coimbra, mas se vieres a Lisboa (ou a outro sitio qualquer) verás  um espelho de Coimbra. A defesa do ensino superior público e dos direitos dos estudantes deveriam ser pontos óbvios para qualquer estudante. Na praxe vejo o contrário: a alienação nessas actividades, sempre humilhantes e hierarquizadas (uns podem trajar; uns gritam, mandam e pintam, outros calam-se, rastejam e são pintados), afastam os estudantes dessas lutas. Melhor exemplo é esse que tu deste, o luto académico de 1969 deveu-se a motivos políticos - a luta anti-fascista. Depois do 25 de Abril as coisas deveriam acompanhar a evolução cultural, política e intelectual, não regressar ao passado sombrio pré-1974 com laivos de boçalidade.

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