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Presidentes de pouca gente

À população de Bigorne, Colmeal e São Bento da Ana Loura coube ficar sem junta de freguesia, na reforma que limpa do mapa mais de mil
18 de Novembro de 2012 às 15:00
O presidente Albino Pedrinho tem 30 vacas, que são o seu “ganha-pão”
O presidente Albino Pedrinho tem 30 vacas, que são o seu “ganha-pão” FOTO: Nuno André Ferreira

Nas últimas duas décadas, Albino Pedrinho, de 46 anos, viveu os dias dividido entre as tarefas de presidente da Junta de Freguesia de Bigorne e de pastor nos lameiros daquela localidade do concelho de Lamego. Com 46 habitantes nos Censos de 2011 - na realidade residem ali em permanência metade, dos quais uma dezena são menores -, Bigorne é uma das freguesias do País atingida pela reforma da administração local do Governo de Passos Coelho. Vai ser agregada à vizinha freguesia de Mangueija, juntamente com Pretarouca. O presidente da Junta de Bigorne diz "entender" a decisão - "somos poucos".

"Fui um presidente honesto, que vai ficar para a história como uma espécie de ‘coveiro'", lamenta Albino Pedrinho, que ficou conhecido no País por, em 1996, liderar a luta contra a construção do aterro sanitário - "uma guerra perdida", reconhece. Mas, por estes dias, Bigorne parece um estaleiro de obras. "É coincidência... Só agora conseguimos dinheiro para melhorar as ruas da aldeia", justifica-se Albino Pedrinho, enquanto tenta controlar o ‘Rebimba', o boi garanhão, perante uma das 30 vacas arouquesas, que são o seu "ganha-pão".

Nos 19 anos que leva à frente da freguesia, Albino Pedrinho, pai de dois filhos, elege o negócio da colocação das torres eólicas como a sua "grande conquista". "Foi um negócio extraordinário, feito com grande honestidade. Cada torre rende cerca de dez mil euros por ano. O rendimento de duas reverte para a associação de baldios, o das outras cinco é para particulares. Podia ter-me armado em ‘chico-esperto' e antes de fechar o negócio, comprar os terrenos que antes não valiam nada. Agora tinha uma reforma choruda. Fui honesto, ao contrário de muitos políticos".

Sempre eleito em lista de independentes, Albino Pedrinho teve o "gabinete na rua e nos campos onde pastam os meus animais. Os meus fregueses sempre souberam que podiam contar comigo a qualquer hora. Agora vão perder isso. Muitas vezes digo que nasci para ser presidente de junta, mas agora, confesso que estou cansado com isto". Pela função ganha 267 euros: "É pouco mas faz-me muito jeito."

Bigorne é uma aldeia às portas de Montemuro, junto à A24, entre Viseu e Lamego. As pessoas que ali resistem, ou dependem da agricultura, ou estão reformadas. "Temos todas as condições para uma vida tranquila longe da crise. Da terra tiramos alimentação e temos acessos", diz Humberto Ribeiro, de 58 anos, bancário reformado. Também Vasco Pereira Matança, de 76 anos, goza em Bigorne a sua reforma e "não acha piada nenhuma" ao fim da freguesia: "Vamos ter de passar a ir de táxi para resolver os assuntos. Este Governo só complica a vida das pessoas."

No Café Giesta - o único da aldeia - está Isabel Ramalho, de 43 anos, a proprietária e também tesoureira da junta. "Vamos perder qualidade no atendimento e ficar dependentes da vontade e do esforço de pessoas de outras localidades", mas o fecho das escolas, acrescenta, "é bem pior".


ENTRE SERRAS

Entre as serras da Lousã e do Açor, a 20 quilómetros de Góis, uma estrada serpenteia monte acima até à freguesia de Colmeal. Integra nove aldeias, 195 pessoas, é uma das freguesias apagadas pela reforma administrativa de Passos Coelho. Com uma população envelhecida, onde os serviços públicos escasseiam, a junta é também aqui vista como fundamental. "Há pessoas que choram por causa disto. Perdemos a escola, o centro de saúde, não temos transportes públicos e agora vamos perder a freguesia. É uma injustiça para uma população envelhecida, onde este serviço faz toda a diferença", refere Carlos de Jesus, de 60 anos, o presidente da junta que protesta ainda uma decisão "traçada em Lisboa".

"Vamos lutar até ao fim contra esta lei penalizadora. As pessoas procuram a junta para preencher documentos, para pedir lenha, apoios sociais, limpezas de terrenos, apoios a instituições e ajuda na questão da TDT. Somos o apoio da população", diz o presidente. Prevista está a junção de Colmeal à freguesia vizinha de Cadafaz. As duas vão passar a ter a designação de União das Juntas de Freguesia de Colmeal e Cadafaz. "Os munícipes vão passar a ter de deslocar-se quilómetros até à sede", diz Carlos de Jesus, um reformado da Marinha, que ganha pela dedicação 274 euros.

Lisete Marques, moradora na freguesia, utiliza com frequência a internet no edifício da junta. "Faço nove quilómetros para aceder à internet, pois o serviço que tenho em casa tem falhas. O fim desta freguesia é uma machadada nas expectativas da população. Vai contribuir para o abandono do território."

É Abel Marques, taxista no Colmeal, quem remata: "As pessoas estão revoltadas. A nova freguesia ficará a mais de 30 quilómetros de algumas aldeias. O Interior também é Portugal!"

A MAIS PEQUENA DO PAÍS

"Fico desiludido por não ter conseguido a melhoria do acesso à freguesia a dois quilómetros da Estrada Municipal 505. Ninguém quer gastar dinheiro numa aldeia onde há meia dúzia de votos", admite Paulo Dias, um jovem de 24 anos que ganhou nas últimas eleições a presidência da Junta de São Bento da Ana Loura, freguesia do concelho de Estremoz, que é a menos povoada de Portugal (18 habitantes) e com menos eleitores inscritos (36). "Sou contra. Mas, por outro lado, entre as hipóteses que nos foram colocadas, aceito a agregação à freguesia de São Lourenço de Mamporcão", referiu o presidente, que representa o MIETZ - Movimento Independente por Estremoz, força que lidera também a câmara.

Esta é a primeira experiência política de Paulo Dias, solteiro e agricultor de profissão. "Não sei o que será depois deste edifício e dos equipamentos que aqui estão, bem como da escola primária, que também pertence ao património da junta." Enquanto o dia não chega, Paulo vai gerindo os poucos recursos da freguesia - com um orçamento anual de 20 mil euros que paga a despesa média de 1500 euros mensais com equipamentos e pagamentos a técnicos e ao próprio presidente (274,77 euros). O que sobra não dá para grandes voos. Mesmo assim, Paulo Dias recuperou o telhado da igreja e voltou, em 2010, a organizar as festas da terra: "Fez com que as pessoas, sobretudo as que migraram, regressem por uns dias à terra onde nasceram."


Paulo Dias vive com os pais e a irmã numa casa contígua ao edifício da junta; é agricultor e produtor de gado na região. "Dedico todos os dias entre meia hora e uma hora à junta. Ao final da tarde, vejo a correspondência e o e-mail. Falo também com as pessoas para saber as suas necessidades. É fácil, somos poucos."

Dos 18 habitantes, metade são idosos, cinco crianças. Na freguesia, com 26,53 km2, chegaram a viver, nos anos 70 e 80, cerca de 300 pessoas. Quase todas abandonaram a terra por causa da falta de trabalho.

Foi por causa da identidade de pequena aldeia - e para contribuir de alguma forma para estancar a desertificação - que Paulo avançou com a candidatura à junta, numa lista onde consta a sua mãe, como secretária, e o pai, como presidente da Assembleia Geral. Na primeira volta, conseguiu um empate a 11 votos com a lista da CDU, liderada por Telma Russo, a anterior presidente. Na segunda, ganhou por mais um voto: "Foi renhida, mas foi a última."

POUPANÇA OU "ATAQUE AO PODER LOCAL DEMOCRÁTICO"

Em favor da poupança e da reorganização dos recursos do País, a maioria no Governo fez passar na Assembleia a lei que extingue, agrega ou funde mais de mil freguesias das 4260 existentes (INE 2008) - um processo polémico que deverá estar concluído até Dezembro. Contra esta revolução já se manifestou a Plataforma Nacional Contra a Extinção de Freguesias, que considera a reorganização "um ataque ao poder local democrático", e também o Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local, para quem a reforma conduzirá inevitavelmente à extinção de dois mil postos de trabalho, entre os oito mil actuais.

Em Portugal e até ao Liberalismo, ‘freguesia' e ‘paróquia' eram sinónimos, por não haver uma estrutura civil separada da estrutura eclesiástica. O termo ‘freguês' servia para designar os paroquianos, que eram, por assim dizer, ‘fregueses' do pároco. Com a reforma administrativa de 18 de Julho de 1835, aparece a estrutura civil da Junta de Paróquia, autonomizada da estrutura eclesiástica; e com a Lei n.º 621, de 23 de Junho de 1916, as paróquias civis passam a freguesias e a Junta de Paróquia a Junta de Freguesia.

 

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