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Presos à depressão

Os portugueses sofrem cada vez mais desta doença. É impossível ignorar os sinais
3 de Fevereiro de 2013 às 15:01
A procuradora da República Maria José Lascas sofre de depressão há 17 anos
A procuradora da República Maria José Lascas sofre de depressão há 17 anos FOTO: Sérgio Lemos

"O afeto é muito importante. Conseguir dizer: ‘Eu gosto de ti, quero-te bem. Tu estás doente, vamos lutar por ti. Marcamos uma consulta, vou contigo, fico lá fora. Só tu é que falas dos teus problemas, não tenho nada com isso. Para mim, teria feito a diferença."

Maria José Lascas vive com depressão. Repete as palavras que nunca ouviu; que gostava de ouvir. Fala de um passado bem presente: há 17 anos tentou suicidar-se, como se o silêncio desse gesto não fosse notado por ninguém. Como se simplesmente apagasse a ‘luz’ da depressão. Estava iminente, mas não o fez. Pensou que os dois filhos nunca iriam recordá-la como boa mãe, dos beijos que lhes deu; "teriam sempre como última imagem que a mãe se suicidou". O seu caso é o oposto do de Eliana Sanches, 40 anos. A professora de Artes Visuais encontrada morta na semana passada, a 50 metros do carro, no Jamor, Oeiras, suicidou-se. Antes, envenenou os filhos com bolos. Rúben Daniel, de 12 anos, e David Tiago, 13, morreram dentro do carro. Tida como depressiva, Eliana tinha sido confrontada com a notícia de que o ex-marido – que a acusava de desleixo e maus-tratos aos filhos e com quem passou por episódios de violência – tinha ganho a guarda das crianças. A professora estava judicialmente proibida de ficar sozinha com os filhos.

"Eu acho que sou uma sobrevivente. A depressão é dolorosa. É horrível. Eu preferia ter um cancro a ter depressão, pela maneira como as pessoas olham para quem tem uma e outra doença" – confessa Maria José Lascas, 50 anos. "É difícil viver tantos anos em que por mais que eu tente, ou que as pessoas mais próximas – pais, marido, filhos, alguns amigos – digam que entendem a minha doença, nunca a entenderam."

Maria José Lascas passou por muitos momentos negativos. "Numa das vezes em que estive em crise, precisava de ir à casa de banho – e tentava ir –, mas as pernas vergavam e não conseguia. Nesses períodos piores parece que o próprio funcionamento do organismo pára, não se sente fome, o intestino fica muito lento. Parecemos um fantasma de nós próprios, ficamos separados da realidade até do nosso corpo." Nunca deixou de ser mãe e boa profissional. Maria José é procuradora da República no Alentejo. Um cargo de responsabilidade que a obriga a não falhar. A sua doença não interfere neste sentido. São os afetos. O problema é quando se isola por pensar que aqueles que ama já não precisam dela.

Afeto: esta é a palavra que Carlos (nome fictício) mastiga no pensamento vezes sem conta. "A depressão, para mim, centra-se na área afetiva. Tendo a ter uma atitude e um pensamento pessimistas." Carlos tem 60 anos. Vive em Lisboa, desempregado, sozinho – com uma vida afetiva "inexistente", aliás – mas antes chegou a partilhar a sua vida com outra pessoa durante 13 anos. "A depressão destrói, arruína a vida afetiva às pessoas porque lhes retira capacidades, força anímica."

Carlos deixou de tomar qualquer medicação. Acha os antidepressivos "inúteis". Prefere as consultas de psicologia na Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB). E como se sente no dia a dia? "Na melhor das hipóteses, sinto desconforto. Na pior, penso em suicídio – tem ocorrido várias vezes. Mas a certeza de que sou capaz de o fazer sem falhar acaba por ser dissuasora, se o fizesse seria a única vez."


Os pensamentos suicidas dependem de muitos fatores, explica o psiquiatra Pedro Afonso: "Da gravidade da depressão, da personalidade do doente, da existência de fatores graves desencadeantes, do suporte familiar, etc. De qualquer modo, os pensamentos suicidas, no contexto de uma depressão, são um sinal de gravidade, expressam muitas vezes desespero, e não devem ser menosprezados." Nestes casos, o doente tem de ser observado por um psiquiatra para que seja avaliado o risco de suicídio. "Muitas vezes é necessário proteger a pessoa de si própria, obrigando-a a um internamento psiquiátrico."

MAIS MEDICAMENTOS

Os portugueses compraram, em média, 20 500 embalagens de antidepressivos por dia, no ano passado. As vendas bateram recordes, segundo dados da consultora IMS Health – corroboram os do Infarmed, diz fonte oficial –, refletindo um aumento de 7,6 por cento num total de 7,5 milhões de embalagens vendidas. Já a DECO estima que 250 mil portugueses terão sinais de dependência de ansiolíticos ou de medicamentos para dormir. Quatro em cada dez portugueses já tomaram algum destes remédios pelo menos uma vez na vida. Portugal é o país da Europa com maior prevalência da doença e o segundo do Mundo – só os norte-americanos andam mais deprimidos.

"A perda de prazer nas atividades habituais é o fator crítico que deixa logo um clínico de orelha arrebitada. Não é o facto de a pessoa estar ou não triste. A tristeza não é doença, é a reação saudável a um evento na vida, normalmente uma perda", explica a psicóloga clínica, fundadora da Oficina de Psicologia, Madalena Lobo. Mas associada a este desinteresse existe uma série de outros sintomas: "Alterações no apetite e no sono, raciocínio ruminante numa espiral negativa – a pessoa só consegue ver o negativo –, muita letargia e uma sensação de impotência muitas vezes com culpabilização associada."

O desemprego e as dificuldades económicas são causas que podem levar à depressão. "Afinal, é o que se passa atualmente entre nós. Não é por acaso que, contrariando a descida nas vendas de muitos medicamentos, as vendas dos antidepressivos em Portugal continuam a aumentar", explica o psiquiatra Pedro Afonso.

"Qualquer pessoa que tenha um negócio apercebe-se de uma certa anemia na economia e na reatividade portuguesa. É como se o povo português estivesse anémico" – acrescenta a psicóloga Madalena Lobo. "Só duvido que este seja um fenómeno só português, mas sim de países que estão em crise aguda e não sabem como sair dela."

José Monteiro, 42 anos, culpa o desemprego. Tinha passado por uma longa carreira de gestor na área da restauração e hotelaria quando uma falsa proposta de ascensão o obrigou a mudar de profissão. Tornou-se diretor comercial na área imobiliária. Em 2010, no último ano em que ainda se vendiam casas, faturou 35 mil euros. No ano seguinte, caiu a pique para os 14 mil. "Passava os dias a ver se tinha dinheiro para trabalhar no mês seguinte. Andei dois ou três meses sem dormir. Até que fui parar às urgências com uma crise de ansiedade." Já sofria de depressão e iniciou a medicação.


A psicóloga Madalena Lobo explica que a esmagadora maioria dos casos de depressões que lhe aparece no consultório é reativa a um estado de ansiedade que, mantendo-se e fazendo perder qualidade de vida em um ou dois meses, dá origem à tal depressão.

Foi o que aconteceu com José Monteiro. Sentia-se impotente perante as dívidas que ia acumulando. Deixou a mulher e os filhos em Lisboa e tentou a sorte na Bélgica. Mais uma vez, não conseguiu. Voltou para Portugal e agora pondera recorrer à ajuda de um psicólogo.

CONSULTAS DESDE UM EURO

"Não é preciso conhecer as causas para se tratar a depressão", explica Madalena Lobo. "E até se consegue tratar uma depressão e eliminar os sintomas de uma forma relativamente rápida. Nós, na Oficina de Psicologia, temos por hábito lançar grupos de tratamento psicoterapêutico da depressão muito eficazes, estão escalonados para 12 sessões, três meses."

A Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB) dá consultas de psicologia a preços entre um e 15 euros – depende dos rendimentos da pessoa. Delfim Oliveira explica que não deixam de atender alguém que os procure numa situação de crise ou com ideações suicidas. Mas, na generalidade, "as pessoas procuram a ADEB como complemento ao diagnóstico e à terapêutica medicamentosa". Na associação – que está presente em Lisboa, Porto, Coimbra e Évora – é feita uma avaliação clínica e social para que o doente seja encaminhado para uma de três valências: consulta individual de psicologia; grupos psicoeducativos (onde abordam temas sobre a doença e os cuidados a ter sobre eventuais recaídas); e grupos de autoajuda.

No Sul do País, a Unir (Associação dos Doentes Mentais, Famílias e Amigos) não deixa Paula (nome fictício) cair. Vive na zona de Loulé, aos 67 anos, sozinha. "Tive ainda quem gostasse de mim. Mas eu só vivia para a doença. Aquela tristeza profunda que sentia dentro de mim", conta. Pensou em suicídio. Aos 22 anos entrou em depressão. Ficou meses sem dormir uma noite inteira, teve vários esgotamentos, até que procurou a ajuda de um psiquiatra. "Sofria terrivelmente e não dizia a ninguém. Nunca mais voltei a ser a pessoa que era", lamenta Paula.

"É a medicação que me põe de pé", conta. A reforma de 250 euros – trabalhou em hotelaria –, não chega para uma vida condigna. A psicóloga clínica da Unir, Margarida Trindade, explica que só em medicamentos Paula gasta 150 euros por mês. A associação é que a ajuda com o resto: o corte de cabelo, dentista, roupa e legumes para fazer sopa ao jantar. O almoço toma-o na Unir.


Segundo explica o psiquiatra Pedro Afonso, nos casos de uma depressão ligeira, a psicoterapia pode ser uma ajuda útil e pode não haver necessidade de tomar medicação. "No caso da depressão major – a forma mais grave –, a medicação é obrigatória, já que ocorrem alterações fisiológicas importantes no organismo que é necessário tratar." Sendo que este tratamento com antidepressivos "é feito por um período mínimo de seis meses, embora possa haver casos em que se torne necessário prolongar por mais tempo."

Ao contrário dos ansiolíticos, os antidepressivos não causam dependência.

As dificuldades económicas são também a causa de tudo na vida de Ana (nome fictício), 60 anos. Em setembro do ano passado foi-lhe diagnosticada uma depressão. Antes, o marido sofreu um AVC e ela passou a ser o suporte financeiro da casa, até que ficou desempregada, com um filho estudante também a cargo. O medo de preocupar a família fê-la suportar a angústia durante o tempo suficiente para ir parar às urgências. "Eu não tinha dinheiro para dar uma boa alimentação ao meu filho. E esta é a base para uma mãe não faltar ao filho" – lamenta.

"Tive de pedir ajuda a familiares para ir ao psiquiatra e para pagar os medicamentos. Já não dormia. Tudo o que me dissessem fazia-me chorar. Comecei a emagrecer. Havia dias em que até comia, mas nada me fazia proveito. As dores de cabeça eram constantes, os calafrios. Cheguei a pensar em suicídio – era pegar no carro e bater em qualquer sítio. Eu tive ideias horríveis." Entretanto, o marido de Ana já está a receber a reforma, que mesmo assim é insuficiente para pagar a medicação. "Até escadas tenho andado a lavar para ir agora levantar estes remédios. O Governo devia ter um departamento só para nos ajudar."

Ana, Paula, José, Carlos e Maria José todos os dias aprendem a enfrentar a depressão. "Eu tive de aprender a viver com a depressão. Interiorizei que eu sou assim agora" – conta Maria José. "Tenho de viver a vida real e tentar tirar o máximo. E admitir que há momentos em que não estou assim tão bem-disposta, vou estar mal, vou chorar, vou isolar-me."


"A ATUAL CONJUNTURA É UM FATOR DE RISCO" (Ricardo Gusmão, psiquiatra e coordenador português da Aliança Europeia Contra a Depressão)

- A atual conjuntura ajuda ao aparecimento de doenças mentais, como a depressão?

- A atual conjuntura de recessão económica funciona como fator de risco. As empresas têm por objetivo maximizar os seus resultados. Isso é colocado em causa quando os recursos humanos estão doentes e ausentes por baixa médica ou no ativo mas muito menos produtivos. O absentismo e o presentismo por depressão são elementos a ter em conta na produtividade das empresas e é do interesse delas minimizá-los. Essa tem sido a estratégia de empresas nos EUA e na UE. Nomeadamente, através de despiste regular pela Medicina do Trabalho. Não se trata de ‘obrigar’ as empresas a dar apoio; trata-se do interesse dos acionistas e de uma prática de gestão.

- Devido à prevalência da depressão em Portugal, existe alguma preocupação por parte da Aliança Europeia?

- É um enigma por que é que Portugal tem uma prevalência tão elevada. Por outro lado, não há vontade das autoridades de dar resposta ao problema.

- O consumo de antidepressivos atingiu um valor recorde em Portugal. A automedicação acompanha esta tendência?

- Não é possível afirmar que sejam valores desnecessários. O aumento da utilização de antidepressivos, nos últimos 30 anos, no Mundo é o principal responsável por uma quebra das taxas de suicídio, em particular na Europa. O tratamento adequado da depressão e da ansiedade pode aumentar o uso de antidepressivos em pelo menos mais 50%. A automedicação será negligenciável e não parece ser um problema em Portugal. A automedicação com benzodiazepinas ou tranquilizantes, sim, é um problema gravíssimo.

QUAIS OS SINTOMAS DA DEPRESSÃO?

Para estar a sofrer um episódio de depressão major, uma pessoa deve apresentar, pelo menos desde há uma semana, no mínimo, cinco dos nove sintomas descritos durante grande parte do dia e quase todos os dias, segundo a Oficina de Psicologia. Os sintomas não são causados por consumo de álcool ou drogas.


1- Humor depressivo, que em crianças e adolescentes pode corresponder a irritabilidade.

2- Perda de interesse ou prazer na maioria ou em todas as atividades.

3- Perda ou ganho de peso significativos (ex: 5% ou mais de alteração no peso ao longo de um mês, sem esforço de regime alimentar); ou aumento ou diminuição de apetite.

4- Dificuldade em adormecer ou permanecer a dormir (insónia) ou dormir mais do que o habitual (hipersónia).

5- Comportamento agitado ou lentificado, de uma forma observável para os outros.

6- Fadiga ou decréscimo de energia.

7- Sentimentos de desvalorização pessoal ou de culpabilização elevada (não referente ao facto de estar doente).

8- Dificuldades de raciocínio, concentração ou tomada de decisões.

9- Pensamentos frequentes sobre morte ou suicídio (com ou sem um plano específico) ou tentativa de suicídio.

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