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Presos no tanque

‘Líbano’ Mostra a guerra que os israelitas travaram em 1982 pelo olhar de quatro soldados fechados num tanque a ver o horror por uma mira
Joana Amaral Dias 30 de Maio de 2010 às 00:00
Presos no tanque
Presos no tanque

Pior que estar fechado num tanque? Talvez morrer num caixão. Pois prepare-se para estar uma hora e meia enclausurado numa tumba com rodas, um blindado que marcha na Síria no primeiro dia da primeira guerra do Líbano (1982). Esse conflito tornou-se para Israel o equivalente cinematográfico do Vietname, surgindo agora uma geração que faz a sua catarse no grande ecrã, como em ‘Valsa com Bashir’. Mas existem vários tipos de filmes em ambientes claustrofóbicos (desde submarinos a minas) e este podia ser em qualquer país e em vários combates do século XX. Não importa. O que interessa é aguentar entrar e ficar numa sepultura móvel cujos soldados, embora ainda respirem, são condenados à morte. Se para o espectador é uma experiência sufocante, imagine-se para eles. De cortar a respiração. À bomba.

‘Líbano’ é um filme puramente cinematográfico. O espectador só vê o que vêem esses gladiadores imberbes lançados no circo romano. Que não é muito. Um tanque é como um rinoceronte couraçado e meio cego, que destrói tudo à sua passagem e cuja visão se limita ao periscópio. Igualmente asfixiante. Todas as imagens do "lá fora" são enquadradas por uma mira que remete para o interior do blindado. O pouco que se avista do exterior são os chamados efeitos colaterais, as sobras após a aniquilação, restos de vida, como grandes peças de carne num talho e a face desesperançada de uma mulher que assiste à execução aleatória da sua família.

De resto, o filme desenrola-se sempre dentro do veículo.

A sala de cinema é o tanque e os espectadores são combatentes involuntários que só sabem o que os vivos a prazo sabem (ou ainda menos), porque são privados das suas histórias e passados.

TERRAMOTO

Assim, ‘Líbano’ é também uma peça de teatro em que se vive num permanente terramoto. Tudo trepida. Os soldados anónimos estão rodeados de escuridão e sujidade, de um negro viscoso que se torna mais repelente à medida em que entram em território mais perigoso e moralmente mais pantanoso. O tanque, afinal, é como a própria guerra. Irrespirável, de visão estreita, estúpida, sempre suja, imunda.

‘Líbano’ não é um filme partidarizado. Mas também não é neutro. É emocional, um soco no estômago sem grandes retóricas ou proselitismo. A moral sujeita-se às leis da sobrevivência, o objectivo supremo do combatente.

Ironicamente, logo no início desta longa-metragem a inscrição que se pode ler dentro do veículo é: "O homem é de aço. O tanque é só de ferro". Mas depois da guerra começar, o blindado transforma-se num pedaço de ferro-velho, enquanto os homens se tornam em cadáveres ou em montes de carne carcomidos pelas tentativas de esquecer a guerra. Ou em pessoas com cicatrizes e memória, que fazem filmes assim. 

RESUMO

Samuel Maoz combateu no Líbano aos 20 anos. O seu primeiro filme recorda a guerra e recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

TÍTULO

‘Líbano’

REALIZADOR

Samuel Maoz

INTÉRPRETES

Yoav Donat, Itay Tiran, Oshri Cohen

FILME: ‘POLÍCIA SEM LEI’

"Parece só um filme sobre corrupção policial. Mas Herzog foge aos clichés, quando menos se espera. Este agente sem lei é uma pessoa. Não um lugar-comum. E a sua decadência caminha para a redenção sinuosamente, como as serpentes que infestam as águas de Nova Orleães".

RESUMO

Condecorado por heroísmo após o furacão ‘Katrina’, o agente McDonagh (Nicolas Cage) torna-se dependente de drogas

Título original: ‘The Bad Lieutenant’

Realizador: Werner Herzog

Classificação: Maiores de 16

LIVRO: ‘LIVROS & CIGARROS’

"Esta colectânea de textos é ensaística e autobiográfica, tal como a harmonia entre obra e vida do escritor. Não é ficcional mas esteticamente rigorosa e absurdamente actual meio século depois. Destaque-se ‘A Prevenção da Literatura’, antecâmara de ‘1984’. Até arrepia".

RESUMO

George Orwell escreveu vários ensaios. Estes falam de literatura e do seu percurso literário e político

Título original: ‘Books v. Cigarettes’

Autor: George Orwell

Editora: Antígona

GULBENKIAN: ARTE NA INTERNET

"O imperdível espólio do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian já está disponível na net. Qualquer pessoa, a qualquer hora, pode consultar as obras. Uma óptima medida de divulgação cultural. Excelente para apreciadores de sofá".

RESUMO

Obras de artistas como Pablo Picasso, Salvador Dalí e os portugueses Almada Negreiros e Amadeo de Souza-Cardozo, entre muitos outros nacionais e estrangeiros

Site: http://www.cam.gulbenkian.pt

Visita: O CAM está aberto de terça a Domingo, das 10h00 às 18h00. Última entrada no museu às 17h45

FUGIR DE:

KUSTURICA & THE NO SMOKING ORCHESTRA

"Outro concerto por cá desse extraordinário cineasta sérvio... Trocam--se duas entradas por um bilhete para um filme novo de Kusturica".

Concerto: A 9 de Junho no Coliseu de Lisboa

‘PESADELO EM ELM STREET’

"Uma versão novo-rico do clássico dos anos 80. Qualquer dia temos remakes de filmes do ano passado. Tal como na música pop".

Título: ‘Pesadelo em Elm Street’’, de Samuel Bayer

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