Primeira-dama de Salazar: Cilinha

Oliveira Salazar desaconselhava as mulheres de fumar em público. Dizia tratar-se de um hábito comunista. Cilinha partilhava a aversão do presidente do Conselho pelos comunistas, que ainda hoje considera “pessoas detestáveis”, inimigas da ordem, da moral católica e do bem-estar das famílias. Mesmo assim, Cilinha fumava. “Nunca deixou de fumar à sua (de Salazar)frente, ou de quem quer que fosse, em público ou em privado”, escreve Sílvia Espírito Santo, investigadora do Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais, em “Cecília Supico Pinto, o Rosto do Movimento Nacional Feminino” (ed. Esfera dos Livros), que a Domingo apresenta em pré-publicação.
27.01.08
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Cecília Maria de Castro Pereira de Carvalho foi a primeira de quatro filhas. Nasceu em Lisboa, a 30 de Maio de 1921, para alegria de uma família da alta burguesia financeira lisboeta. No ano em que, com 33 anos, Salazar chegou ao poder para meter ordem nas Finanças, Cilinha tinha sete e brincava no Largo do Picadeiro. Quando ia à casa dos avós, na António Maria Cardoso, entretia-se num pátio contíguo às instalações da PIDE. Ainda criança conheceu ‘Xixa’, que vinha do Porto em visita aos seus tios, os condes de Mafra. ‘Xixa’ era Sophia de Mello Breyner. Já mulheres e em quadrantes políticos opostos, nunca deixaram de ser amigas. Outra amizade que valeu a ‘Cilinha do Ultramar‘ após o 25 de Abril foi a que manteve, desde a adolescência, com Francisco Costa Gomes, que viria a ser comandante da Região Militar de Moçambique, chefe das Forças Armadas e mais tarde conselheiro da revolução.
Cilinha mostrou, desde miúda, talento artístico: imitava vozes e fisionomia, cantava o fado e música brasileira. Salazar apreciava-lhe as habilidades, que ela havia de praticar em cenário de guerra – para dar ânimo aos militares.
Aos 16 anos, uma operação ao apêndice, seguida de infecção grave, impediu-a de ser mãe. Um “trauma”, refere Sílvia Espírito Santo, que lhe traça a biografia com base nas conversas que durante cinco anos manteve com ela, interpretação documental e testemunhos de quem a conheceu. Naquela altura a procriação era a principal virtude feminina. Para Cilinha, a maternidade social e espiritual terá sido uma extensão da virtude de que se viu privada. Mulher do seu meio, fez o percurso das senhoras de bem, assumindo a prática da caridade, “dever moral das mulheres salazaristas”.
NAS PEDRAS SALGADAS
Nas termas das Pedras Salgadas conheceu o que viria a ser seu marido, Luís Supico Pinto, 13 anos mais velho, à época subsecretário de Estado das Finanças, mais tarde ministro da Economia e depois presidente da Câmara Corporativa. Quanto a Salazar afirma: “Conheci-o pessoalmente no ano em que me casei (1945), num jantar oferecido pelo embaixador da Inglaterra... Ficou sentado à minha frente e tive a sensação, durante todo o jantar, que ele me estava a observar...”. Só nos anos 60 viriam a trabalhar juntos. Salazar era solteiro e o presidente da Assembleia Nacional, Albino dos Reis, viúvo. Mesmo se não gosta da expressão, Cilinha era a primeira-dama.
Cilinha ficou irritadíssima com o assalto, a 22 de Janeiro de 1961, ao paquete Santa Maria, que iniciava uma nova forma de luta política contra a ditadura. Salazarista até à medula e dona de uma crença inabalável na “originalidade da colonização portuguesa”, achou que tinha de fazer alguma coisa.
Quando, nesse mesmo ano, a guerra começou em Angola, não havia qualquer estrutura de apoio aos militares ou às suas famílias. Cilinha pensou colmatar o vazio criando o Movimento Nacional Feminino. Mais tarde, nas deslocações a Moçambique, Angola e Guiné apresentava-se sempre bem vestida. Só levava camuflado quando ia para o mato. Tentou convencer Salazar a visitar as ‘colónias’. “Para que quer a menina que eu vá a Angola se a menina ma traz aqui?”, retorquiu o ditador.
CITAÇÃO DA OBRA
“Cecília Maria de Castro Pereira de Carvalho foi a primeira de quatro filhas de uma família da alta burguesia financeira lisboeta com raízes na velha nobreza, território onde enraíza o seu forte pendor monárquico. Nasceu em Lisboa, às doze horas e trinta minutos do dia 30 de Maio de 1921, no segundo andar do número dez da rua da Luta, na freguesia dos Mártires.
Castro Pereira pelo lado da mãe, Maria do Carmo, cuja estirpe aristocrática descendia directamente de D. Pedro IV – uma tia-avó foi aia da rainha D. Amélia – e Casal Ribeiro de Carvalho pelo lado do pai, Manoel, igualmente oriundo da velha nobreza portuguesa, mas cuja profissão de advogado ligou ao comércio, ao mundo das finanças e ao regime de Salazar. (...)
Apesar de a sua propensão para a enfermagem ser publicamente reconhecida – uma vertente salientada, em 1971, pelo general Arnaldo Schulz durante uma homenagem... –, (Cilinha) nunca levou em linha de conta o poder emancipador do trabalho como profissional.
Conquanto, desde a I Grande Guerra, a necessidade do trabalho das mulheres fora de casa e a consciência da sua realização numa profissão se fosse difundindo na Europa, em Portugal nos anos 40 essa orientação não era ainda um dado consensual. Nem Cilinha nem a maioria das raparigas da sua geração e classe social sentiam qualquer apelo, motivação ou necessidade dessa valorização. Almejavam, sim, o estatuto de mulheres casadas – o que também significava mulheres respeitadas e protegidas – e mães de uma família numerosa. Era nessa esfera privada e resguardada, mas que elas sabiam como fazer poderosa, que poriam em prática os conhecimentos ancestrais que lhes permitiam dar continuidade ao conservadorismo secular de onde provinham, uma ambição que merecia o apoio e incentivo dos ideólogos do regime (...)
Cilinha, para além de ser visita frequente, escrevia com regularidade ao Presidente do Conselho. Envia este cartão juntamente com o n.º 3 da revista Presença e escreve: “(...) preciso muito de estar ao pé de si um bocadinho (...)”
‘Eu era, se quiser, a segunda dama, conheci a D. Maria do Carmo Carmona, a D. Berta Craveiro Lopes e a D. Gertrudes Tomás, primeiro eram elas, só depois era eu. E eu era: era bonitinha! Em Portugal a primeira-dama não existe! Na República não existe primeira-dama! Eu sou monárquica e para os monárquicos só a rainha é que conta. A primeira-dama é uma cópia da first lady americana, dá-me uma vontade de rir, é uma parvoíce dizer isso, é completamente piroso.’
O facto de, durante o tempo que a guerra colonial durou, o seu protagonismo social e político ter ultrapassado o do marido, parece, segundo a avaliação de Cilinha, não ter tido especial significado para nenhum dos dois.
Ao apoiar, desde o início, a criação do Movimento Nacional Feminino, Luís Supico Pinto não podia suspeitar que a mulher se lhe entregaria ‘de corpo e alma’ e ficaria mais tempo do que ele fora de casa: ‘doze ou catorze horas por dia no MNF’, não contando com as inúmeras viagens pelo país e pelo ‘Ultramar’. (...)
Antecipando uma prática, que se vulgarizou no final do século XX, das figuras públicas se deslocarem aos ‘teatros de guerra’, Cilinha viajou incessantemente, ao longo de treze anos, por Angola, Moçambique e Guiné – de onde regressou no princípio de Abril de 1974.
Como escreveu na ‘Presença’, tinha a noção de que a sua autoridade como presidente do MNF e a sua respeitabilidade junto dos militares e famílias passavam pelas suas deslocações ao terreno. Mais do que qualquer político da Metrópole, e dando mostras de uma resistência física imbatível, viajou pelas ‘cidades provinciais’, visitou aquartelamentos no mato, indagou sobre as necessidades dos militares e das populações, viu e ouviu as condições em que viviam e morriam os militares. (...)
Em Maio de 1964, no início de mais uma viagem a Angola destinada a fundar o maior número possível de delegações do MNF e a visitar militares, Cilinha partiu um pé ao descer do avião, em Nambuangongo, acidente que encarou como mero ‘contratempo’ e que não a impediu de cumprir rigorosamente o roteiro previamente traçado.
‘Fui a Angola para abrir delegações do Movimento, para visitar as unidades e para ver as condições em que estavam os militares. Não fui a Angola para partir pernas! Não ia interromper a viagem por causa de uma perna partida. Não disse nada para a ‘Metrópole’, nem deixei que dissessem à minha família. Isso só os ia incomodar sem necessidade.’
O relato desta viagem foi publicado na revista Presença, sob a forma de diário com o título ‘Por aqueles que dão a vida pela vida da Pátria’, e devido ao estilo vivo mas íntimo constituiu-se como um importante elemento de aproximação à personalidade da biografada. (...)
‘Depois de vir de Luanda fui falar com o comandante Ernesto Vilhena, da Companhia dos Diamantes de Angola. Toda a gente tinha imenso medo dele mas eu não tinha medo nenhum. Quando me perguntou se não tinha medo dele, respondi-lhe que não, que só tinha medo das pessoas estúpidas e ele não me parecia estúpido. Ficou derretido. Deu quinhentos contos ao MNF e eu sabia que podia contar com ele sempre que estava aflita.’
O MNF foi fundado em 1961 para intervir na retaguarda de uma ‘luta armada’ em Angola por um curto período de tempo, conforme estimavam na época os poderes político e militar. Mas o posterior alastramento da guerra às colónias de Moçambique, em 1963, à Guiné em 1964 e o seu prolongamento por mais de uma década, exigiu da organização um considerável esforço de adaptação e resposta. Principalmente a partir de 1966, quando, conforme os textos de Cilinha, a ‘desmobilização’ da sociedade civil, traduzida na redução de donativos, tornou evidente que o país estava a ficar inerte, falho de convicções e coesão e por isso a cultivar clandestinamente ‘alternativas utópicas’. (...)
‘Eu tinha vindo poucos dias antes (do 25 de Abril de 1974) da Guiné e sabia que alguma coisa estava para acontecer. Alertei o ministro e até ao Costa Gomes eu disse. Eu tratava-o por Chico, conhecia-o e conhecia a família. Conheci-o quando eu tinha pr’aí 13 anos, era o António, era o gargalhadas e era o Chico. E ele disse-me: Você tem é que dizer isto ao nosso ministro. E eu respondi-lhe: Oh, Chico Costa Gomes, por amor de Deus, você está a querer convencer-me de que não tem influência e que não manda lá dentro? É por isso que lhe estou a dizer isto a si, não sacuda a água do capote.’
Como ponto alto da revolução ficaram a tomada do Largo do Carmo e a rendição sem qualquer resistência de Marcello Caetano como se avaliasse a inutilidade de tal gesto (...)
‘Não sei explicar como isto aconteceu. As altas esferas não se aperceberam porque não quiseram, houve muita indiferença aos sinais. Houve um excesso de optimismo. Olhe, comparo isto com o futebol. Por excesso de optimismo o adversário marca um golo no último minuto. Se tivesse havido uma qualquer reacção do poder, por pequena que fosse, o golpe não se tinha dado. Os militares não estavam preparados’.
UMA HISTÓRIA PARA CONTAR AOS 'RAPAZES'
“Em 1964, nas vésperas de viajar para Angola, fui ao Forte despedir-me do Dr. Salazar e vi que tinha partido um pé. Quando indaguei da sua saúde respondeu-me:
– Oh, menina! O meu pé não tem importância nenhuma, agora se fosse o do Eusébio, aí sim, aí é que podia ser um desastre nacional!
– Ora aí está uma boa história para eu contar aos ‘rapazes’, eles vão gostar de saber que o Sr. Dr. também está a torcer pela nossa equipa!”

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