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PROFESSORAS: UMA VIDA A ENSINAR A LER E A ESCREVER

Quando Maria da Luz começou a dar aulas, Cristina escrevia as primeiras letras. No dia 15, estas professoras entram nas salas de aula para mais um ano lectivo do 1º Ciclo do Ensino Básico.
7 de Setembro de 2003 às 15:16
“Eu nunca quis ser professora”, dispara Maria da Luz Oliveira, 44 anos, natural de Castelo Branco, mãe de dois filhos, e docente do ensino básico da Escola Padre Agostinho da Silva, em Tires.
No entanto, um ano após a inscrição no Magistério Primário, em Lisboa, a educadora já estava convencida que tinha tomado a atitude mais correcta. “Naquela altura, os cursos eram muito bem estruturados. Os professores ensinavam-nos a sonhar. E passavam mensagens que hoje parecem terem saído de moda, como a amizade ou o respeito. Foi uma surpresa total”, recorda a docente, que se dedica ao ensino há quase 24 anos. Vocação, talvez não tivesse. Mas assim que viu nas suas mãos o diploma de graduada, fez uma promessa: “Ia fazer tudo o que estava ao meu alcance para ser uma boa professora”.
Um compromisso que tem mantido ao longo destes anos – às vezes com muito custo. Apesar dos docentes do Magistério Primário a terem avisado, por diversas vezes, que a realidade é muito diferente do que se aprende nos livros, nada preparara Maria da Luz para as inúmeras situações que já viveu dentro de uma sala de aula. “Quando estava a leccionar numa escola, no concelho de Oeiras, junto a um bairro degradado, lidava com miúdos de 14 anos, que ainda estavam a fazer a 4ª classe. Foram tempos muito difíceis. Mas eu sempre acreditei que as coisas podiam vir a melhorar”, relembra.
Apesar de nunca ter perdido a esperança, a sua fé foi abalada quando se apercebeu que um dos alunos se preparava para a agredir fisicamente. Apesar da pouca experiência, Maria da Luz conseguiu defender-se e lá acabou por resolver a situação da melhor forma possível. “O miúdo chamava-se Samuel e tinha uma vida familiar muito complicada. Infelizmente, o que não faltam são crianças com histórias tristes”, realça a educadora, que apesar de ter passado por este episódio traumático, reforça que nunca perdeu a capacidade de gostar de crianças. Neste caso, o corpo é que acabou por ‘pagar’. Quatro anos depois de ter começado a leccionar naquela escola, Maria da Luz sofreu um esgotamento - consequência da tensão acumulada: “Fomos ensinados a adaptarmo-nos a todas as situações. ‘Realidades diferentes, professores diferentes’, é o que nos dizem nos cursos. Só que nenhum docente está preparado para ser agredido na escola”, declara.
COMPRIMIDOS PARA DORMIR
A ouvi-la com muita atenção está Cristina Manso, 29 anos, natural do distrito de Portalegre, que há apenas sete anos começou a leccionar no distrito de Coimbra, mais precisamente na pequena aldeia de Ponte Velha, praticamente isolada do resto do país. Mas a vida de um professor do ensino básico – ou secundário - tem destas coisas. “De repente, tive de me despedir dos amigos, da família e recomeçar uma vida nova, num local onde não conhecia ninguém. Recordo-me que estava um pouco assustada porque era a primeira vez que saia de casa dos meus pais”, admite a jovem que, nos últimos anos, conseguiu ficar colocada na zona de Oeiras, onde actualmente vive. Este ano, já sabe que vai trabalhar para um colégio do concelho de Cascais, onde vai dar aulas às crianças da 1ª classe. Um golpe de sorte, tendo em conta que 28 mil professores, com habilitações para a docência do 2º e 3º ciclo do ensino básico ou secundário, ficaram sem emprego – ou seja, há mais de 40% de docentes sem trabalho em Portugal.
Em Ponte Velha, a professora dava aulas numa pequena escola, com apenas 19 alunos – da 1ª à 4ª classe – que, por falta de espaço, tinham de partilhar a mesma sala. Além disso, Cristina depressa descobriu que as crianças que vivem no interior do país têm uma rotina diferente dos ‘meninos’ da cidade: “Alguns já estavam acordados desde as 6 horas da manhã porque ajudavam os pais na agricultura. Além disso, têm menos brinquedos e bens materiais do que as crianças que vivem em regiões mais desenvolvidas”.
Alguns anos antes, a professora Maria da Luz passou por uma experiência semelhante à da Cristina. Logo após a conclusão do curso – e depois de ter leccionado no ensino privado – Maria é colocada no concelho do Cadaval, numa pequena aldeia de costas viradas para a civilização. Também ela teve de deixar a mãe e a irmã em Sassoeiros, Oeiras (onde estava a viver desde os 12 anos) e mudar-se de armas e bagagens para a zona oeste do país. A escola só tinha dez crianças e a professora depressa se afeiçoou a elas. Mais complicado foi lidar com o isolamento da região: “As aulas terminavam às três horas da tarde e a partir daí não tinha mais nada para fazer. O quarto onde eu estava a viver nem tinha televisão, rádio ou aquecimento. Como não falava com ninguém, fui perdendo a motivação. Ao fim de alguns meses, farta daquilo, comecei a tomar comprimidos para dormir. Só acordava no dia seguinte”, admite, sem tabus, a actual coordenadora da Escola Padre Agostinho da Silva.
Nos dias de hoje, casos como o da Maria da Luz continuam a repetir-se um pouco por todo o lado. Estudos revelam que os professores que se vêem sozinhos, afastados dos familiares, colocados em locais isolados, e muitas vezes sem condições de trabalho, estão mais sujeitos a esgotamentos, depressões, reacções neuróticas e situações ‘stressantes’.
De olhos bem abertos, Cristina continua a prestar atenção às palavras de Maria da Luz. No futuro, as histórias desta educadora experiente, que já passou por várias reformas do ensino básico e perdeu a conta ao número de crianças que ensinou a ler, escrever e fazer contas, ainda lhe vão ser úteis.
Apesar de terem personalidades diferentes - assim como percursos – as duas professoras escolhidas pelo Domingo Magazine para traçarem o retrato do actual professor primário, partilham a mesma paixão pela educação dos mais novos. Para Cristina, o seu sonho de infância tornou-se realidade. Já em pequenina fingia que dava aulas às amigas e imitava os ‘tiques’ da sua educadora, a Lurdes (Lurdinha, para as crianças). “Ela era o meu ídolo porque não era uma professora primária tradicional. Recordo-me que era muito criativa e até nos incentivou a ir buscar livros à biblioteca itinerante. A forma como ela se relacionava com os alunos marcou-me muito”, afirma a educadora, que faz questão de seguir o exemplo e esforça-se para construir uma relação de amizade com os alunos. “Só assim é que conseguimos entrar no mundo deles”, remata.
UMA BOA DOSE DE MIMO
“Quando estava na primária, o meu sonho era ser gorda”, atira Maria da Luz, provocando de imediato o riso. “Como a professora estava sempre ao colo com a menina mais gordinha da escola, eu pensava que se engordasse também tinha essa sorte!”, explica a coordenadora de escola. Durante a adolescência, Maria foi uma ‘rebelde’ e deu várias dores de cabeça às professoras do liceu. Mas no ensino básico, não tinha outro remédio senão ser bem comportada. “Tinha medo que ralhassem comigo. Nessa altura, os professores ficavam sentados na cadeira, e com o ponteiro, chamavam os alunos para virem fazer os exercícios ao quadro. Havia muito pouco contacto físico entre o professor e os estudantes”. Uma tendência que Maria da Luz fez questão de contrariar quando começou a dar aulas. “Gosto muito de dar ‘mimo’ aos meus meninos. Mas quando é preciso, também sei fazer-me ouvir”, remata, entre risos.
Tirando um ou outro caso mais dramático, a coordenadora revela que nunca precisou de ser severa ou ríspida com os alunos. O método que a professora Maria da Luz encontrou para manter as crianças concentradas durante as aulas, tem dado bons resultados: “No primeiro dia de aulas, peço aos pais para acompanharem os filhos à sala. Todos juntos, estabelecemos as regras que são necessárias para o bom funcionamento das aulas. Isso facilita-nos o trabalho. Felizmente, o distanciamento entre pais e professores já acabou. A maioria sabe que o nosso trabalho é fundamental na formação de uma criança saudável”, explica.
TEMPOS DIFERENTES
Também Cristina Manso vê com bons olhos a nova mentalidade dos pais portugueses. Apesar de ter nascido no ano da Revolução dos Cravos, e de conhecer pouco a realidade do sistema educativo durante o Estado Novo, a jovem professora está convencida que a actual forma de ensino - mais próxima dos alunos, menos rígida ou exigente - é a mais correcta. Mas ressalva: “Não se pode dizer que antigamente era pior e hoje ensina-se melhor. Simplesmente, foram tempos diferentes”.
Como começou a dar aulas no início da década de 80 – altura em que Cristina estava a dar os primeiros passos no ensino básico - Maria da Luz não ficou indiferente à mudanças decretadas pelo novo Ministério da Educação. “Hoje não se faz tanto o apelo à memória. Mas em termos de conteúdos, os alunos saem bem preparadas do ensino básico. Talvez não tenham a memória tão treinada porque não são obrigadas a decorar os rios de Moçambique ou as linhas férreas”, confirma a professora. “Mas de acordo com a minha experiência, as crianças estão hoje mais atentas ao que se passa no mundo e têm opiniões sobre tudo”, remata.
Segundo o calendário do Ministério da Educação, as escolas do ensino básico deverão reabrir no próximo dia 15 de Setembro. Tal como acontece todos os anos lectivos, as duas professoras estão preparadas para dar o seu melhor e ajudar os alunos a desenvolver as suas capacidades. Para Cristina, a escola é a sua segunda família. Opinião partilhada por Maria da Luz, que este ano tem (ainda) mais razões para sorrir: “Estou contente com as novas alterações porque nos permitem dar as matérias curriculares de uma forma mais dinâmica e activa. Sinto que estou a voltar às minhas raízes. E quando a criança gosta do que está a aprender, não há indisciplina”. Fala a voz da experiência...
MENOS ALUNOS, MENOS PROFESSORES
Nos próximos anos, prevê-se um decréscimo no número de alunos que frequentam os três níveis do Ensino Básico – na ordem dos 55 mil estudantes. Como consequência dessa evolução, também o número de professores vai ser reduzido. Até 2010, o 1º ciclo do Ensino Básico, deverá registar um decréscimo na ordem de 19 mil alunos. Tal como se pode observar nas estatísticas que se seguem, ao longo dos anos o número de crianças matriculadas no 1º ciclo não tem parado de diminuir. Segundo estatísticas, o corpo docente do 1º ciclo do Ensino Básico tem uma estrutura etária envelhecida. No público, 46% dos docentes ultrapassam os 45 anos.
ANO ESCOLAR 2002/2003 - DADOS GLOBAIS DE REFERÊNCIA
Total de Alunos no Ensino Básico: 1098 000
Total de Alunos no 1º Ciclo: 466 000
Docentes:
Ensino Básico – 1º Ciclo: 30 300
Alunos Matriculados no Ensino Público
e Privado (Evolução)

ENSINO BÁSICO
2002/2003: 1098 000
2001/2002: 1098 303
2000/2001: 1122 305
Alunos Matriculados no Ensino Público (Evolução)
ENSINO BÁSICO
2002/2003: 982 000
20001/02: 982 058
2000/01: 1006 315
Pessoal Docente dos Quadros Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico
2002/2003: 36941
2001/2002: 36998
Variação: 0,15%
Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico (2002/2003)
Vagas a Concurso: 2809
Candidatos: 30250
Colocações: 5652
Vinculados 1ª Vez: 2030
A VIDA DIFÍCIL
Actualmente, os professores em geral não têm a vida facilitada. Os crescentes casos de violência ou indisciplina na sala de aula, e por vezes, a falta de condições de trabalho, chegam a provocar problemas de ordem psicológica - e até física - a alguns docentes. Vários estudiosos têm tido o cuidado de se debruçarem sobre esta temática. Eis algumas das suas conclusões
(por ordem decrescente no que respeita ao número de professores afectados):
1) Sentimentos de desajustamento
e insatisfação perante os problemas reais da prática do ensino, em aberta contradição com a imagem ideal do professor.
2) Pedidos de transferência, como forma de fugir a situações conflituosas.
3) Desejo manifesto de abandonar
a docência (realizada ou não).
4) Absentismo laboral, como mecanismo para cortar a tensão acumulada.
5) Esgotamento, como consequência da tensão acumulada.
6) “Stress.”
7) Ansiedade.
8) Depreciação do eu. Auto culpabilização perante a incapacidade de ter sucesso no ensino.
9) Reacções neuróticas.
10) Depressões.
11) Ansiedade, como estado permanentemente associado, em termos de causa-efeito, a diagnósticos
de doença mental.
JUVENÁLIA:PROFESSORA NOUTROS TEMPOS
Corria o ano de 1960 quando a jovem Juvenália Dias, recém licenciada, fez as malas, despediu-se da família, dos amigos e foi dar aulas para o concelho de Castro Verde, no Alentejo. Apesar de ter nascido em Beja, a família Dias mudou-se para Lisboa quando a pequena Juvenália tinha apenas 12 anos – e foi amor à primeira vista. Quanto mais conhecia os recantos da capital, mais a alentejana se ia esquecendo das extensas planícies que caracterizavam a paisagem rural da sua terra. Mas quis o destino que Juvenália regressasse às origens e assim que concluiu os estudos a jovem professora foi dar aulas para a escola primária de Castro Verde. “Não gostei nada de ser ali colocada. Já estava habituado ao ambiente da cidade. Quando me vi ali sozinha, numa escola sem água, nem electricidade, fiquei de rastos”, recorda a docente, que ansiava pela chegada do fim-de-semana, altura em que viajava até Lisboa para ‘matar saudades’ dos familiares. “Vinha respirar a civilização”, segundo as palavras desta educadora, que só ao fim de doze anos de serviço é que conseguiu arranjar uma colocação em Lisboa, mais precisamente na Escola Primária Nº1 da Pontinha.
Aos 66 anos, a professora Juvenália ainda se recorda bem dos tempos passados no Alentejo, primeiro em Castro Verde e depois no concelho de Alenquer: “Os alunos eram amorosos. Lembro-me que muitos deles passavam fome e nós é que lhes oferecíamos as senhas do almoço que, nessa altura, custavam 25 tostões por mês”, conta a docente, para quem ensinar não é só uma profissão. É um modo de vida.
Apesar de ter pensado enveredar pelo curso de professora de matemática foi o destino que mais uma vez lhe trocou as voltas e Juvenália acabou por se dedicar, de corpo e alma, à educação dos mais novos: “Apaixonei-me completamente por esta actividade. Os professores primários têm o privilégio de moldar as mentes dos mais novos, abrir-lhes os horizontes”, explica a docente, a quem muitos dos alunos chamavam ‘mãe’. Juvenália tentou sempre criar laços afectivos com as crianças, para que eles se sentissem à vontade de desabafar com ela. “Às vezes, até contavam coisas que não deviam”, recorda, entre risos.
100% DEDICADA AO ENSINO
Após o 25 de Abril de 1974, a professora teve de se habituar aos novos métodos de ensino. Actualmente, já não se importa de admitir que fez algumas ‘batotas’: “Vi algumas alterações com muitos bons olhos. Mas outras nem por isso. Por exemplo, o Ministério da Educação dizia para não fazermos ditados. Só que eu nunca acatei essa regra”, relembra a docente que, no entanto, ficou satisfeita quando na 4ª classe deixou de ser obrigatório decorar os nomes das estações de caminhos-de-ferro portuguesas. E se, antigamente, os alunos saiam melhor preparados do 1º Ciclo do Ensino Básico, segundo a opinião de Juvenália, a verdade é que hoje os educadores têm mais problemas dentro da sala de aulas. “A indisciplina é uma dor de cabeça. É por isso que eu digo que os professores têm a vida mais dificultada”, explica a docente, que faz questão de elogiar o trabalho dos actuais professores primários. “Estão mais bem preparados. Mas continuo a achar que os professores mais velhos são mais exigentes.”
Ao longo de uma vida dedicada ao ensino, não foram só os seus alunos que tiveram direito a serem premiados com boas notas nos exames. Também Juvenália, segundo os relatórios dos inspectores do Ministério da Educação, foi sendo sucessivamente distinguida com comentários elogiosos: “Não se poupa a esforços para o benefício dos alunos”, escreveram, por várias vezes, os inspectores. E quem sabe, sabe...
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