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Profissionais do sexo em linha

A Internet abanou o negócio das linhas eróticas, mas ainda há mulheres que fingem ou não orgasmos para quem as escuta.
13 de Novembro de 2011 às 22:00
A maior parte dos clientes são homens, mas também aparecem casais
A maior parte dos clientes são homens, mas também aparecem casais FOTO: Getty Images

Para soar mais natural, imaginou que a voz do lado de lá da linha "era uma espécie de namorado" virtual. Só assim conseguiu empenhar-se no serviço. Era a primeira vez que o fazia e estava nervosa. Tinham-lhe dito que não custava nada. Que era só entrar na ‘onda’. Quanto mais entusiasmada estivesse, ou parecesse, mais tempo duraria a chamada e mais dinheiro cairia na sua conta. Um euro por minuto, já excluindo a comissão da empresa. Teve "sorte. O primeiro cliente foi gentil. Não me tratou mal, como muitos fazem. Há homens que gostam de ofender porque só assim se excitam. Outros têm vergonha, gostam de falar sobre outras coisas e só depois começar com o sexo, tem de se ir devagar com os tímidos. Com esses tento perceber o que os trouxe a mim, do que precisam e se for só vergonha começo a ser atrevida", conta Mariana (nome fictício). A estreia foi há sete meses.

O trabalho como secretária num escritório e o part-time num restaurante mal davam para pagar as contas e Mariana, 35 anos, resolveu aceitar o desafio de um amigo, dono de uma agência, para experimentar oferecer a voz a linhas eróticas. Cedo percebeu que com os telefonemas não ia enriquecer – numa altura em que a imagem é tudo e a internet um mundo ao alcance da maioria – e acrescentou uma webcam ao processo, um upgrade à linha erótica tradicional, através do chat Messenger.

Joana, ‘mulher portuguesa maluca na cama’ (como se descreve), faz o mesmo com um grupo de amigas. ‘Gostamos de sexo virtual e sexfone. Temos webcam e telemóvel 3G, temos casa e carro próprio, somos independentes e sem tabus. Mas é só para homens educados’ – garantem as quatro amigas que também estão ligadas ao Atrevidas Cam, um site que proporciona ‘sexo virtual com mulheres, casais e travestis’ e que funciona a créditos. Utilizando as novas tecnologias, como o Twitter, onde tem conta, o site vai anunciando as meninas que estão disponíveis para conversar no momento.

‘Estão agora nove modelos online’ ou ‘A Gostosa faz tudo para te agradar. Está sempre online’ são algumas das entradas na rede social. Também por lá se anunciam as promoções nas chamadas. Raquel (nome fictício) chegou a pedir informações a uma empresa que estava a organizar um casting para operadoras de linhas eróticas para à última da hora desistir. "Achei muito estranho eles pedirem para ver fotos nossas. Se só íamos falar ao telefone com os homens para quê saberem o nosso aspecto?" – questiona.

DINHEIRO EXTRA

Quando adicionou a imagem à voz, Mariana percebeu que enquanto se dedicasse ao cibersexo ia ganhar dinheiro suficiente para pagar as contas – mora sozinha nos arredores de Lisboa – e ainda conseguir poupar para um amanhã desconhecido. Mais do que apenas emprestar a voz para conversas sexuais, mostrar o corpo dava mais resultado. O ritual é o mesmo: usar uma lingerie bonita. "Alguns só começam a falar quando eu começo a despir-me. Aí ficam doidos". Para já, só quer aproveitar a facilidade em pôr dinheiro na conta ao fim do mês. "Até porque qualquer dia estou velha para fazer isto, tenho de aproveitar para juntar enquanto posso, além de que posso viver mais à-vontade assim" – confidencia a brasileira, em Portugal há dois anos. Quando ‘atende’ pelo telemóvel pode estar em qualquer lugar – até no insuspeito trabalho onde ninguém sabe da sua ocupação paralela. "Cheguei a ir para o WC do emprego falar ao telemóvel mas o valor é muito diferente, raramente passa dos cinco euros, até porque não posso falar muito tempo, que desconfiam". Com a câmara ligada à internet, Mariana ganha até 40 euros por conversa. Normalmente à noite, quando chega a casa do trabalho. A divisão eleita é a sala, "pequena e branca. Ponho a câmara na mesa e eu estou no sofá em frente. Não dá para ver fotos, nem decoração, nada que ajude a identificar-me a mim nem ao sítio". A conversa mais longa durou mais de uma hora. "Ele disse que pagava o que fosse preciso. Primeiro conversámos, depois masturbámo-nos os dois, durou bastante, com brincadeiras e pedidos especiais. Levei a câmara para o duche e ele viu-me no banho, sempre a pagar. Quando acabei fizemos de novo masturbação na cama". Habituou-se a fingir orgasmos mas ainda assim já passou "por situações quentes. Já me excitei algumas vezes de verdade".

Ao final do mês, a jornada clandestina rende-lhe "entre 500 e 1000 euros por mês, um valor que vale a pena, até porque não tenho de me expor". São raras as vezes em que mostra a cara. Para que isso aconteça tem de se cumprir alguma das premissas: "Só quando já conheço bem, quando os clientes são de longe ou se pagam mais para que eu arrisque. O que faço é tapar o rosto com um lenço quando não quero estar a apontar a câmara só para baixo" – explica a mulher de 1,65 metros que se considera "mais sexy do que bonita".

ENCONTRO AO VIVO

Ainda assim – e porque ela não mostrar a cara não quer dizer que os clientes façam o mesmo – já viveu histórias caricatas de reconhecimento alheio. Como o casal que reencontrou no centro comercial dias depois de uma ardente sessão através da webcam. "Foi dos pedidos mais estranhos que me fizeram. Perguntaram-me se eu tinha um amigo comigo. Como eu disse que não, pediram-me para os imitar com um vibrador; ou seja, fui fazendo o que eles faziam do outro lado. Quando os vi no shopping a passear e percebi que eram os mesmos deu--me imensa vontade de rir; a sorte é que eles não sabiam que era eu, não lhes mostrei mais do que o corpo". Além de homens e casais também há mulheres que procuram Mariana. Para conversas eróticas e striptease virtual. "Mas são poucas. A maior parte dos meus clientes são homens com mais de 45 anos, casados. Os que não são casados são carentes, não foge muito disso". Quase todos a tentam conhecer pessoalmente, "mas eu nunca conseguiria fazer isto pessoalmente, ser virtual é uma barreira que me agrada. Até porque sou uma mulher formada em secretariado, com valores, de boas famílias".

Para a agência de Mariana trabalham outras dez mulheres. "A maioria são casadas e nem sabemos onde moram e o que fazem além disso. Fazem pelo dinheiro e morrem de medo que alguém descubra".

Paula tornou-se Letícia quando aceitou o emprego numa linha erótica. Tinha na altura 19 anos e só percebeu que o anúncio a que respondera era de uma linha de conversas sexuais quando entrou no call-center da empresa, no Rio de Janeiro. "Ao princípio fiquei assustada, mas depois habituei-me. Percebi rapidamente como funcionam estas linhas, inventei uma personagem bem diferente de mim – a Letícia é morena e alta, eu sou loira e de estatura média e procurei dar voz a todas as fantasias dos clientes", conta.

Quem liga para uma linha erótica procura a fantasia que uma ligação vídeo ao site na internet não consegue proporcionar. "Temos de construir uma história com princípio, meio e fim, senão o cliente desliga. Tem de haver coerência, não posso dizer ao cliente que estou a acariciar os seios e logo de seguida contar-lhe que estou de joelhos a fazer-lhe sexo oral. A conversa tem de ser conduzida de forma a que o cliente acredite que está a haver um acto sexual".

CONVERSAS PERIGOSAS

Mas nem tudo foram rosas no emprego de Letícia. Lembra uma conversa muito estranha em que "um homem ligou a dizer que estava a acariciar a irmã, enquanto esta dormia". "Deu--me instruções para, caso ela acordasse, eu simular que queria falar com ela para justificar o facto de ele estar ali ao pé dela com o telefone". A incerteza sobre o que os clientes dizem é permanente – "nunca sabemos onde eles estão realmente nem quais as suas intenções".

Mas o emprego tornou-se insuportável no dia em que lhe telefonou um homem com um desejo sinistro: "Disse que estava com vontade de ter sexo com uma criança. Foi a primeira vez que desliguei o telefone. Desisti do emprego nesse mesmo dia". Enquanto esteve na linha telefónica, só uma vez Letícia se encontrou fisicamente com um cliente. "Havia um homem que dizia sempre que ia estar à minha espera num determinado bar, com uma gravata amarela. Um dia fui lá com uma amiga e conheci-o. Nessa altura recebíamos muito mal e pedi-lhe dinheiro para a minha amiga chegar a casa. Depois ficámos sozinhos e ele perguntou se eu fazia ‘programa’ (sexo pago)". Mas Letícia recusou e a conversa ficou por aí.

Ironia do destino, quando Letícia voltou a ser Paula tornou-se acompanhante de luxo em Portugal. Vende o corpo por preços elevados e anuncia os serviços sem grandes pruridos num site da internet. Não voltou a trabalhar em linhas eróticas. "Hoje em dia, com a internet e as câmaras de vídeo, há menos espaço para as linhas eróticas. Mas haverá sempre mercado para este serviço, porque vive da fantasia que a internet não consegue proporcionar".

INTERNET GANHA TERRENO

Até ao final dos anos 90, o casal António e Olinda, de Braga, apostou nas linhas eróticas. Era o tempo em que o prefixo 00681 atraía milhares de clientes no País. Mas o negócio revelou-se pouco rentável. "As chamadas custavam 1,20€, mas as empresas telefónicas ficavam com a maior parte do dinheiro. Nós recebíamos 50 cêntimos e tínhamos de pagar às funcionárias", conta Olinda. "Era simples, as meninas gemiam muito, faziam as conversas a partir de casa e não era difícil manter os clientes satisfeitos".

A explosão da internet fez o casal investir num projecto mais ousado. Há oito anos, criaram o primeiro site de chat vídeo, com modelos disponíveis para tirar a roupa e falar com os clientes através de câmara e microfone.

Hoje o portal atrevidascam.net tem 2540 clientes registados e 287 modelos, a maioria brasileiras. Mas também há portuguesas. "Neste momento são 25, e notamos que, desde que a crise se agravou, cada vez aparecem mais. Muitas são casadas e até já tem acontecido que os maridos participem em sessões de sexo, transmitidas em directo pelas webcams", explica Olinda.

Os clientes vêm de todas as profissões. "Até temos polícias e juízes. É curiosos que as pessoas com profissões em que têm de mandar são as que pedem que as modelos os dominem, lhes dêem ordens e até que os insultem". Os clientes compram minutos com cartão de crédito e escolhem as modelos disponíveis on-line. Para elas há uma regra principal – têm de tirar toda a roupa. "Ao princípio nota-se vergonha, mas depois libertam-se divertem-se".

ANTROPÓLOGA TRABALHOU EM LINHAS ERÓTICAS PARA FAZER ESTUDO

A antropóloga e activista internacional Ana Lopes, que nasceu no Porto em 1975, trabalhou na indústria do sexo durante quatro anos como operadora de linhas eróticas. Simultaneamente, desenvolveu a sua tese de doutoramento na Universidade de East London sobre os direitos e a organização laboral nesta indústria. Aliás, foi a vontade de conhecer realmente o ser humano que a levou, quando chegou a Londres, a concorrer a um anúncio numa revista que pedia operadoras para linhas de sexo: além de conseguir obter mais rendimentos, queria perceber como era estar do outro lado, porque sempre se interessou pelos grupos marginalizados da sociedade. Enquanto trabalhava nas linhas eróticas – e também como stripper em casas nocturnas – definiu a linha do doutoramento e a iniciativa que o integrou, a International Union of Sex Workers, uma espécie de sindicato dos trabalhadores do sexo, que criou. O livro ‘Trabalhadores do Sexo: Uni-vos’ (ed. Dom Quixote, 2006) descreve a luta de um sector que diz sofrer discriminação, estigmatização e exploração. Ana pretende ser testemunho de um processo pioneiro que culminou na criação de um colectivo internacional de profissionais do sexo e na sua sindicalização oficial no Reino Unido. Ana Lopes está actualmente em Londres: dá aulas na Universidade de East London, a mesma onde fez o doutoramento em Antropologia.

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