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Propriedades na terra

O funcionário respira fundo, testa transpirada, verão quente em Lisboa
e no país
18 de Agosto de 2013 às 15:00
Propriedades na terra
Propriedades na terra

Bem arreada, gaiteira, cheirosa e algo chorosa, a velha quer conversa, mas o Fisco não vai em conversas. Ainda assim, o funcionário, atencioso e condescendente, acaba por escorregar no paleio de circunstância, enquanto espera que o sistema informático se recomponha. E fica a saber que a mulher nasceu na serra algarvia, tem 76 anos, sem filhos, com uma "reformazita que não chega para mandar cantar um cego!" Olhinho gozão, orgulha-se da casinha apertada e do pedaço de terra que possui na aldeia."A única coisita que o mê paizinho me deixou!"

Sistema operacional, o funcionário informa que "há aqui uma coisita… e é para pagar". A velha, como todas as velhas, quer falar do passado. O Fisco, a contas com o futuro, insiste em falar do presente, quando muito vasculhar o passado recente. "E nã se pode pagar em prestações!?", quer saber a senhora. "Nã pode ser em duas ou três vezes..." Profissional, o homem do Fisco informa que "só em duas vezes". Conformada com as regras, inconformada com o regime, a mulher avança na conversa. "Tiram-nos tudo! Qualquer dia ainda me levam a casita e o terreno..."

O funcionário respira fundo, testa transpirada, verão quente em Lisboa e no país. A mulher alça a voz, expectante do apoio da assistência. "Isto é uma roubalheira!"

Magote de contribuintes começa a agitar-se na fila, gente impaciente e ciente das conhecidas e desvairadas razões do Fisco. Por estes dias, o meu amigo Zé dos Pneus indigna-se por os "gurucratas" das Finanças inventarem "pentelhos mais ou menos legais" para retardar o reembolso do IRS. Os funcionários, uns mais casmurros que outros, oscilam entre o dito "estamos-cá-para-isso" e o pensado "pró-qu`eu-tava-guardado". A mulher já fala da vergonha de "catraios a mandarem no Governo" e da pouca-vergonha que é "andarem por aí a esmifrar" pensionistas e reformados. Afogueado da espera, contribuinte afoito acaba por lançar a piada. "Está-se prái a queixar, mas tem propriedades lá na terra. Venda-
-as!" De malinha aviada, a velha algarvia alça o queixo e deixa o desafio. "Se alguém me der já aqui alguma coisita pelo jazigo e pelo niquinho de terra lá no cemitério, vendo já! O mê paizinho que me perdoe!"

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