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Provar a liberdade a cantar ópera

Jovens reclusos de Leiria preparam espetáculo musical baseado na música de Mozart.
Isabel Jordão 24 de Setembro de 2017 às 06:00

É de Mozart a música que agora se escuta pelos pátios e corredores da antiga prisão-escola, atual Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens. Os reclusos estão a ensaiar uma nova obra de teatro musical, com base na ópera ‘Cosi fan Tutte’, do compositor Wolfgang Amadeus Mozart. Depois de ‘Don Giovanni 1003, Leporello 2015’, estreado há dois anos na antiga serração, agora o espetáculo vai subir ao palco na zona oficinal da cadeia, transformada em Pavilhão Mozart.

Aos 25 anos, Mathieu Pinto é repetente no projeto: "Gostei muito da experiência, sobretudo do rap em francês que cantei no final, e voltei a inscrever-me. Se houver um terceiro projeto vou lá estar outra vez", diz, com orgulho. Tinha 18 anos quando entrou na cadeia, por homicídio e roubo, e achava que a ópera era para "velhinhos", mas a experiência fê-lo mudar de opinião e agora não tem dúvidas em afirmar que "a ópera é para todos, inclusive para os que estão presos".

Inscreveu-se para "não estar sempre fechado na cela e sem nada para fazer", mas a participação no projeto já o ajudou a "aprender a trabalhar em grupo" e a relacionar-se com outras pessoas. Agora considera-se "muito mais calmo e racional", menos individualista e pronto para se reintegrar na sociedade.

"Estou preso, mas enquanto estou nos ensaios, ou a cantar para as pessoas, sinto-me livre e sem as grades à minha frente e gosto disso", afiança, garantindo: "Já fui uma pessoa má, agora considero-me um rapaz normal e não vou voltar à vida do crime. Já não faz sentido para mim".

Com pais franceses e avós portugueses, Mathieu Pinto reuniu a família na estreia do espetáculo anterior. "A minha família veio de propósito de França e ficaram todos muito surpreendidos com as minhas capacidades. Não tinham noção de que eu sabia cantar desta maneira."

Esquecer os problemas

Quando Fábio Veiga, de 24 anos, natural da Marinha Grande, entrou na cadeia, o primeiro projeto "já estava em andamento" e por isso não participou. Mas inscreveu-se assim que este surgiu, não se arrependeu e explica porquê: "Dá para esquecer os nossos problemas e sentirmo-nos valorizados, mas o que mais me fascina é perceber que as pessoas acreditam em nós, sem preconceitos, têm muita paciência para nos ajudar e confiam em nós."

Não tem experiência de palco, com exceção do espetáculo de apresentação da nova ópera, em julho, no Teatro Miguel Franco, em Leiria, em que esteve sempre "muito ansioso e nervoso". Também não sabe que personagem lhe vai calhar, uma vez que os ensaios ainda agora começaram e os papéis não estão distribuídos pelos participantes.

Fábio Veiga diz estar "completamente empenhado em virar a página" da sua vida e deixar para trás a "má fase" e os "erros" que cometeu e o levaram para a cadeia. Mas nem quer contar porque está a cumprir dez anos e três meses de cadeia.

"Foi uma má fase da minha vida que não quero repetir. Acho que é possível mudar, aprender com os erros e ser melhor no futuro. Quando sair quero construir família e ter uma vida estável, com trabalho e com a família do meu lado a ajudar. Tenho o apoio a 100 por cento de todos - mãe, avó, tias - e não os quero deixar ficar mal", conta.

Com a participação no projeto, Fábio Veiga diz que está a "aprender a estar com os outros, a saber ouvir e a respeitar" opiniões diferentes da sua. "Pode dar-me alguma visão sobre aquilo que quero fazer quando sair da cadeia e ajudar-me a ser conhecido por boas razões", defende.

Escola de artes

Este segundo projeto de reintegração social através das artes, de novo com a chancela da Sociedade Artística Musical dos Pousos (SAMP), é ainda mais ambicioso do que o primeiro, já que contempla, além do espetáculo de ópera, a criação de uma escola de artes com foco na música. O espaço é uma das antigas oficinas - de carpintaria, tipografia, encadernação e sapataria - da cadeia, que foram desativadas por se terem tornado obsoletas.

Com a duração de três anos, o projeto Pavilhão Mozart surge após a ‘Ópera na Prisão’ e tem financiamento comunitário através do programa Portugal Inovação Social. São 175 mil euros, cofinanciados em 70 por cento pela União Europeia e o restante pelas fundações Gulbenkian e Caixa Agrícola de Leiria.

"O que é inovador é o cruzamento entre a inclusão social - neste caso de jovens reclusos - com a arte e a música, dando novas perspetivas de desenvolvimento pessoal que transcendem muito a experiência pessoal que estão a ter, num contexto habitualmente antagónico", diz Filipe Almeida, presidente da Estrutura de Missão Portugal Inovação Social, frisando que "é um dos primeiros projetos de inovação social a ser financiado na Europa e pode ser uma experiência referencial para outros, noutros contextos".

O projeto está aberto à participação de todos os reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria - Jovens, que recebe apenas jovens com idades entre os 16 e os 25 anos, em prisão preventiva ou a cumprir pena por todo e qualquer crime. É a única cadeia portuguesa reservada a jovens do sexo masculino.

Neste segundo projeto inscreveram-se 53 reclusos e atualmente mantêm-se 29, que participam com regularidade nos ensaios, duas vezes por semana.

Desenvolver qualidades

Os ensaios começam sempre com uma canção de apresentação. Seguem-se exercícios de aquecimento, dos músculos e da voz. Com jornalistas presentes, os reclusos contam, sem rodeios, porque estão ali.

Para um "é uma oportunidade para evoluir", para outro "uma aventura, por estar a aprender coisas novas com os colegas". Mas o que a ópera tem mesmo de especial é a "grande oportunidade de mostrar que sabemos cantar e também temos valor", diz outro jovem recluso, que logo a seguir afirma: "É tão especial que eu casei-me com a ópera, o que eu nunca imaginei".

A maior parte inscreveu-se para ocupar o tempo livre e só depois, com o evoluir do projeto, os jovens reclusos perceberam que tinham ali uma oportunidade única para "de-senvolverem qualidades e capacidades pessoais". Não só esquecem problemas como aprendem coisas novas. É também uma forma de se sentirem iguais a jovens da sua idade que se encontram em liberdade.

"É respirar ar fresco e sentir-me livre", diz um, ao que outro acrescenta que "é terapêutico e lúdico" e "ajuda a esquecer o que é mau".

Ao longo dos ensaios aprendem a ler italiano e depois a cantar nesse idioma, descobrindo em cada página do guião detalhes da peça. Através de dois casais apaixonados de noivos, esta ópera fala do amor e levanta duas questões: amo o que o outro é, ou o que quero ver nele?

Desafiados por um velho sábio, eles fingem ir para a guerra para provar que as noivas não os vão trair. Disfarçam-se e cada um tenta conquistar a noiva do outro, com sucesso, acabando por perceber que elas os trocam por outros no primeiro momento, porque é "assim que fazem todas" as mulheres. Ou ‘Cosi fan Tutte’, como escreveu Mozart.

O projeto começou com a "fase de conhecimento", em que "tivemos um ano para nos conhecermos", diz Paulo Lameiro, diretor artístico da SAMP. Neste segundo ano "estamos a montar uma ópera", que será apresentada ao público em junho de 2018 e terá um coro com funcionários da cadeia. Até lá, trabalha-se com afinco, nos ensaios e fora deles, sempre que há tempo livre. E assim se vai escutando Mozart pelos pátios e corredores da cadeia.

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