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QUANDO LISBOA SE PERDEU

De onde veio essa estranha música de raízes africanas e ritmos contagiantes, que destronou a valsa e pôs salas de baile em polvorosa?Viagem à Lisboa dos anos 20, ambiente perfeito à propagação de clubes nocturnos, com jogo, mulheres, banquetes e muito 'jazz'
18 de Maio de 2003 às 00:00
Lisboa não escapou aos loucos Anos 20, com o jazz a invadir todas as salas de dança e as bandas a enlouquecerem os dançarinos com os ‘charlestons’, ‘stomps’, ‘shuffles’, ‘fox-trots’ e ‘fox-blues’.
A valsa, sobretudo, foi completamente destronada por esta forma de música sincopada e tocada de forma a contagiar o ritmo a toda a gente que a ouvisse.
Mesmo um só piano podia pôr uma festa a pular o ‘charleston’ ou os pares a flutuar num ‘fox’ bem marcado.
Apenas o tango sobreviveu de parceria com a nova música, que tinha tido origens em Nova- Orleães.
A cultura social dos Anos 20 - de viver intensamente; de gozar tudo o que a vida podia proporcionar o mais rápido possível; o modernismo e a ‘avant-gard’ em todas as artes - surgiram também em Portugal, com centro na capital.
Lisboa foi uma verdadeira ‘terra de perdição’ nessa época de revoluções, de permanentes mudanças de governos e de grandes movimentos artísticos, comandados por homens de letras e artes que ainda hoje não foram esquecidos - tendo feito história da arte moderna no nosso país.
A par de todo este movimento artístico, desenvolveram-se em Lisboa grandes clubes nocturnos, com jogo, mulheres e grandes banquetes. Neles imperava o ‘jazz’ da época, selvagem rouco e ensurdecedor. Todos tinham ‘jazz- bands’, cantoras e cantores, e a grande maioria exibia ‘shows’ em palco, com bailarinas e números eróticos. A maioria estava localizada na baixa e na Avenida da Liberdade, mas também existiam noutras áreas da cidade. De entre os mais importantes, destaque para o “Bristol Club”- na Rua Eugénio dos Santos, ao lado da actual sede do Benfica - e o Ritz, no Palácio Foz, aos Restauradores, local onde também funcionou o Maxim’s. Por aquela zona muitos mais existiram no palacete da família Alverca surgiu um dos mais belos, o Magestic/Monumental, na Rua Tomé de Barros Queiroz, com a sua decoração neo-árabe, que ainda hoje embeleza a Casa do Alentejo, actual ocupante das instalações. Mas também o Olympia, onde hoje é o cinema da rua dos Condes; o Clube Mayer/Avenida Parque, no Palácio Mayer, Avenida da Liberdade (hoje Consulado de Espanha); O Clube Montanha na Rua da Glória; o Clube Internacional na Rua 1º de Dezembro; o Regaleira, no Palácio Regaleira, no Rossio ou o Salão Alhambra, no Parque Mayer.
Fora desta zona, e já longe da baixa, encontravam-se o Clube das Avenidas -na Avenida da República, esquina com a Elias Garcia -, o Clube Moderno, na Avenida Almirante Reis, e o Clube Rato, na Praça do Brasil.
A vida à volta destes fez história em Lisboa e desenvolveu a cultura da época em todas as suas vertentes - a literatura e as artes foram muito influenciadas pelos ambientes modernistas trazidos pela liberdade dos anos 20.
DE ALMADA NEGREIROS A ANTÓNIO FERRO
Nos próprios clubes, a decoração feita com obras de homens como Almada Negreiros ou Eduardo Viana era já um convite ao modernismo. Mas os anúncios publicitários destas ‘casas’, com trabalhos de Jorge Barradas, Tom, Bernardo Marques e Stwart - nas revistas ‘Ilustração Portuguesa’, ‘Ilustração’ , ‘ABC’ e ‘Domingo Ilustrado’ - foram um verdadeiro festival de arte e de inspiração.
No campo das letras, António Ferro foi sem dúvida o maior entusiasta desta forma de música e de todo o processo social nela integrado. Mais do que isso, Ferro foi um verdadeiro apreciador de ‘jazz’, coleccionador de discos e, sempre que podia, espectador de concertos em Paris ou nos Estados Unidos, com os músicos mais importantes de então.
Os seus livros – ‘A Idade do Jazz-Band’, ‘Novo Mundo MundoNovo’ e ‘Praça da Concórdia’ - são permanentemente tocados pela música e pelos sentimentos que esta traz ao autor e aos ambientes vividos.
Almada, como artista literário, também retrata no seu romance ‘Nome de Guerra’ a vida de boémia das noites dos clubes de Lisboa e Reynaldo Ferreira, o célebre ‘Repórter X’, escreve o livro ‘A Virgem Do Bristol Clube’ e centenas de artigos que envolvem a vida nos clubes, com o jogo e a corrupção, não esquecendo as drogas da época: a cocaína e a morfina.
As grandes notícias dos jornais eram os assaltos nos próprios clubes ou nas suas imediações por bandos organizados. Mário Domingues escreve em 1929 o romance ‘O Preto do Charleston’ que reflecte a sua experiência como porteiro do Clube Ritz.
LOUCURA CHEGOU AO PARQUE MAYER
A música em si estava completamente dominada pelas ‘Jazz-Bands’, que até já ofereciam os seus serviços em anúncios de jornal, para os organizadores de bailes nas colectividades e festas particulares. Também por essa época aparecem os primeiros espectáculos de negros americanos em Lisboa.
A Companhia de Dança de Louis Douglas apresenta-se, em 1928, no Teatro da Trindade, com a revista ‘Black Follies’ e Mário Domingues faz uma espantosa entrevista ao seu mentor, que é publicada na revista ‘Ilustração’ sob o título ‘A Excentricidade e Comédia no Bailado Negro’.
O director, bailarino e coreógrafo explica o que é o espectáculo estilo ‘jungle’, criado no ‘Cotton Club’ de Nova-Iorque, no qual se integra completamente a revista trazida ao Trindade.
Nesta época já os negros americanos falavam abertamente do racismo que os oprimia e do tipo de espectáculo que faziam, onde os vectores eram sempre a selva de África e a vida nas plantações do Sul dos EUA.
A música, essa, era já composta pelos espirituais, ‘blues’ e, claro, a força dos ‘charlestons’ dançados por bailarinos negros, que sentiam o ritmo como ninguém. Nestes espectáculos, um dos grandes momentos era o do sapateado, também dançado com uma esfuziante alegria.
O grande escritor Ferreira de Castro escreve em 1923 um excelente artigo na ‘Ilustração Portuguesa’ sobre ‘A Propagação do Jazz-Band’ – escrito com maestria e versando o fenómeno da época, visto sob o prisma da análise social, o artigo é ilustrado por excepcionais desenhos de Bernardo Marques.
Esta Lisboa dos anos 20 também viu as revistas do Parque Mayer cheias de alusões aos clubes da época, aos clientes e às meninas de Cabelo à ‘ninon’ –corte que caracterizava as frequentadoras profissionais, especialistas em emagrecer as carteiras dos jogadores.
Independentemente destas actividades, os Clubes eram também locais de grandes banquetes e de festas sociais: o Bristol o Magestic e o Maxim’s foram os mais procurados para eventos sociais.
Pese embora o facto do‘jazz’ e dos clubes terem sido, sobretudo, figura central da cultura e do divertimento, de uma Lisboa já ida, o certo é que esta ‘estranha’ forma de música também conseguiu influenciar o povo - que apesar de tudo não deixava de amar o seu fado. Aliás, é desta época o filme ‘A Severa’, de Leitão de Barros, um campeão de bilheteiras da época.
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