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Correio da Manhã

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“Quando o Alouette aterrou, dezenas choravam o amigo”

"Na zona militar norte, o camarada António foi mortalmente atingido. No leste, perdemos mais dois amigos em combate."
Marta Martins Silva 17 de Fevereiro de 2019 às 10:00
atal de 71, norte de Angola
atal de 71, norte de Angola FOTO: Direitos Reservados

"No dia 14 de janeiro de 1971 embarquei no paquete ‘Príncipe Perfeito’ e cheguei a Luanda no dia 22 de janeiro, tendo ficado sedeado no ATmA - Agrupamento de Transmissões de Angola, onde de imediato comecei a trabalhar na rede do teatro de operações da ZMN-zona militar norte -, que incluía os postos de comando das cidades de Carmona, São Salvador e Cabinda.

Porque todas as equipas de transmissões das companhias formadas na então província de Angola tinham que ter dois cabos radiotelegrafistas    e    porque    supostamente havia escassez de meios humanos, em julho de 1971 eu e outro camarada    fomos    transferidos    para    a Companhia    de    Caçadores    1102, formada no RI20 de Luanda, mais tarde colocada, por quatro meses, na    zona    de    baixa    intensidade    do Zenza do Itombe. Em outubro de 1971 fomos transferidos para a povoação do Bembe, localizada na zona militar norte.

Aqui, numa das constantes operações, com confrontos pontuais, realizadas pelos nossos grupos de combate com a duração de três dias e duas noites dormidas no capim, o nosso saudoso    camarada    António Amadeu da Fonseca Frade foi mortalmente atingido por uma rajada    de    Kalashnikov.    Este grupo, do qual o António fazia parte, já andava perdido na floresta no dia da emboscada e assim permaneceu nos quarto e quinto dias sem rações de combate e sem comunicações, uma vez que tinha esgotado as baterias do emissor/recetor RACAL TR 28.

Ao quinto dia, o resgate do corpo do António foi feito por um grupo helitransportado,    do    qual    eu    fiz parte, num local com pouca proteção, uma vez que a maior parte dos    camaradas    já    tinham    sido evacuados pelos meios aéreos.

Quando o heli aterrou no local do resgate senti medo pela primeira vez, pelo facto de estarmos ali no meio do nada, da selva e dependendo    unicamente    da    máquina que nos transportou. As aves cantavam de forma muito sincronizada, mas as aves não cantam assim, sabíamos que os guerrilheiros imitavam o canto das aves para comunicarem entre si.

Sentíamos que os guerrilheiros estavam por perto, mas não nos flagelaram, talvez por saberem que estávamos a resgatar o corpo do nosso camarada, porque também sabiam respeitar os mortos, os deles e também os nossos… Continuo a recordar o momento em que o Alouette aterrou no    quartel    e    me    confrontei    com dezenas de jovens militares, negros e brancos, a chorar pela perda do tão querido amigo e camarada. Larguei    a    pistola-metralhadora Uzi,    as    granadas,    o    cinturão    e    o equipamento    de    transmissões, sentei-me e… também chorei.

Privações e fantasmas

No mês de agosto de 1972 fomos deslocados para a área do Rio Munhango, a cerca de setenta quilómetros da povoação de Cangumbe na ZML-zona militar leste, onde atuava    a    UNITA    comandada    por Jonas Savimbi. Ficámos acantonados    em    tendas    de    lona    durante todo o tempo em que a Companhia ali permaneceu. Foi um período de muitas privações: fome, frio, medos e de ansiedade pelo passar do tempo que me levasse ao termo da comissão.    Aqui    perdemos    mais dois    camaradas    em    combate,    os saudosos Frederico Augusto Esteves e o Horácio de Oliveira Maia.

Em abril de 1973 embarquei de regresso à Metrópole a bordo do Boeing  707 da Força Aérea Portuguesa e deixei para trás uma guerra    vivida    cujos    fantasmas    insistem, passados tantos anos, em não me deixar esquecer e viver a paz.

E foi assim que a Pátria deixou de precisar de mim. Foi assim que se despediu de mim, sem um adeus, sem uma palavra de gratidão, nada! E lá fui eu, ainda fardado, de mãos nos bolsos, passei a porta de armas e, acompanhado pela família, caminhei por uma calçada que hoje ainda existe tal como era localizada no Prior Velho e lá fomos nós à procura do autocarro porque o dinheiro era pouco para viajar de táxi."

Nome: Manuel pereira

Comissão: Angola (1971-1973)

Força: Companhia de Caçadores 1102 e agrupamento de transmissões de Angola

Info: Casado, dois filhos e dois netos

A Minha Guerra Manuel Pereira Angola
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