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Quando o terror anula o desporto

Os atentados bombistas da maratona de Boston lembram outros casos em que as armas falaram mais alto do que os atletas
21 de Abril de 2013 às 15:00
Explosões na maratona de Boston chocaram o mundo
Explosões na maratona de Boston chocaram o mundo FOTO: Dan Lampariello/ Reuters

Um rapaz americano de oito anos, uma estudante chinesa, de 29, e uma gerente de restaurante, americana, também com 29 anos. Os três assistiam ao final da Maratona de Boston, na segunda-feira, quando a explosão de duas bombas fez de Martin Richards, Lu Lingzi e Krystle Campbell as três vítimas mortais do atentado que deixou a América e o Mundo em choque. Os quase 200 feridos fazem temer que mais mortes possam ser anunciadas nos próximos dias.

A corrida em que a atleta portuguesa Dulce Félix ficou em nono lugar estaria já perto do final quando foram detonadas duas bombas artesanais junto à linha da meta. Àquela hora chegavam os atletas amadores, gente anónima que fazia da maratona uma festa da cidade. O ataque cobarde ainda não tem autor identificado, mas as autoridades americanas inclinam--se para a hipótese de terrorismo doméstico, até pelos engenhos utilizados – as bombas artesanais eram feitas de panelas de pressão e peças metálicas avulsas, colocadas para causar o máximo sofrimento nas vítimas dos impactos.

‘Setembro Negro’

Boston inscreveu o seu nome numa lista em que nenhuma cidade quer entrar – a dos eventos desportivos que acabaram em tragédia por causa do terrorismo. À cabeça da funesta lista aparece a cidade alemã de Berlim, que em 1972 assistiu ao mais grave ataque de que há memória nuns Jogos Olímpicos. Na madrugada de 5 de setembro, oito elementos da organização palestiniana ‘Setembro Negro’ entraram na aldeia olímpica vestidos com fatos de treino. Dirigiram-se aos apartamentos da delegação israelita e fizeram 11 reféns, entre atletas e treinadores. Dois atletas de luta livre foram mortos no local quando tentaram resistir. Nas terríveis horas que se seguiram as autoridades alemãs cometeram demasiados erros. Os raptores e reféns foram levados de autocarro e depois em helicópteros para um aeroporto próximo, onde tinham à sua espera um avião que os deveria levar ao Egito. Os alemães dispararam e a situação tornou-se incontrolável – os terroristas abateram todos os reféns e mataram um polícia. O balanço foi terrível: morreram os 11 reféns israelitas e cinco dos oito terroristas. Os três palestinianos sobreviventes foram presos.

Bomba em Atlanta

Sem a mesma dimensão, a América também assistiu a atos de terrorismo nuns Jogos Olímpicos. Em Atlanta 1996, o Centennial Olympic Park era um dos pontos de atração para os milhares de fãs de desporto que estavam na cidade da Geórgia. Na noite de 27 de julho, centenas de pessoas assistiam a um concerto quando explodiu uma bomba no meio da multidão. Morreram duas pessoas, uma devido à explosão, outra de ataque cardíaco – e ficaram feridas mais de 100. O autor dos atentados foi preso em 2003, depois de cinco anos em fuga. Eric Rudolph fez vários atentados à bomba, em protesto contra leis que facilitam o aborto. Cumpre prisão perpétua.

Rali cancelado

A uma escala bem menor, também Portugal já sentiu os efeitos do terrorismo num evento desportivo. Em janeiro de 2008, dezenas de pilotos e máquinas preparavam-se para sair de Lisboa para mais uma edição do rali Dakar. A ameaça da rede terrorista da al-Qaeda no Magrebe levou ao cancelamento da prova, dois dias antes do seu início. A prova nunca mais regressou a África, nem à Europa – o Dakar passou a ser corrido na América do Sul. Muitos defendem que a organização da prova usou a desculpa do terrorismo para deslocar a competição para um continente onde as operações logísticas são mais fáceis e as receitas bem superiores, mas episódios como a guerra civil no Mali deixam pouca margem para um regresso a África nos próximos anos.

Tiros em Angola

Em 2010, Angola quis assinalar o progresso económico e social do país com a organização da CAF – a Taça Africana das Nações de futebol. Mas a competição ficou comprometida ainda antes de começar. A 8 de janeiro, o autocarro onde viajava a comitiva do Togo foi atacado a tiro quando passava pelo enclave de Cabinda. A ação de elementos da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda causou a morte do motorista angolano e de mais dois elementos do staff. Outras nove pessoas ficaram feridas, incluindo três jogadores. O Togo retirou-se da competição

Terror asiático

Se há país pouco recomendável para a realização de eventos desportivos é o Paquistão. O caso mais grave aconteceu em 2008, quando a equipa de críquete do Sri Lanka foi atacada a tiro quando viajava de autocarro. Morreram seis polícias paquistaneses e dois civis. Seis atletas ficaram feridos.

Não foi o primeiro episódio de violência envolvendo equipas estrangeiras. Em 2002, os neozelandeses iniciaram uma digressão no Paquistão para promover o críquete. A tour teve um final abrupto em Karachi, quando um bombista suicida se fez explodir junto a um autocarro cheio de marinheiros franceses, em frente ao hotel onde a equipa estava alojada. Morreram nove militares franceses e dois civis paquistaneses.

O Sri Lanka também sabe o que é um ataque terrorista a uma maratona. Em 2008, uma corrida que deveria marcar o início das festividades do ano novo resultou em tragédia. Durante a cerimónia de início da competição um bombista suicida fez-se explodir, matando 14 pessoas, incluindo dois ministros e vários atletas.

Bombas na Europa

Na Europa, os terroristas da ETA e do IRA já tiveram como alvo eventos desportivos. Madrid assistiu em 2002 à explosão de um veículo armadilhado junto ao Estádio Santiago Bernabéu, a casa do Real Madrid. Ficaram feridas nove pessoas. Naquele dia 1 de maio, os merengues recebiam o Barcelona, num encontro para a Liga dos Campeões. O jogo acabou por se realizar, com um empate que garantiu ao Real Madrid de Luís Figo a chegada à final e a conquista do troféu.

Em Inglaterra, uma das ações mais espetaculares do IRA resultou de uma mera ameaça: em 1997, a corrida de cavalos do Grand National foi cancelada por causa de uma falsa denúncia de bomba. A polícia revistou milhares de carros, obrigando 20 mil pessoas a pernoitarem no hipódromo de Aintree, perto de Liverpool. A corrida acabou por se realizar no dia seguinte.

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