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Quando votar ainda era um lugar estranho

Nas primeiras eleições livres havia votos rasgados e pessoas à procura da urna.
Marta Martins Silva 29 de Setembro de 2019 às 13:00
Primeiras eleições livres em Portugal
Primeiras eleições livres em Portugal

As mesas de voto e todo o material que era preciso para o grande dia - é preciso lembrar que tinha passado apenas um ano desde a revolução que derrubara a ditadura e o País ainda se estava a habituar à ideia de que ia ter uma palavra a dizer - chegaram na sexta-feira anterior sem qualquer manual de instruções.

"Deram-nos um caixote com as coisas e disseram-nos para montar tudo: de palpite em palpite, lá conseguimos ter tudo pronto no domingo", das cabines de voto à urna. Júlia Caçador tinha 22 anos quando o Movimento Democrático Português / Comissão Democrática Eleitoral (MPD/CDE) a convidou para fazer parte das mesas de voto da freguesia de Amor, em Leiria, nas primeiras eleições livres realizadas em Portugal, a 25 de abril de 1975.

"Não tinha qualquer ligação política, mas era funcionária de um sindicato e isso deve ter ajudado na escolha. Naquelas primeiras votações as pessoas não sabiam como se votava e então era preciso orientá-las. Houve um caso muito engraçado de um senhor que rasgou o voto ao meio e só me deu metade do voto para pôr na urna. ‘Então e o resto?’ - perguntei-lhe.

‘O resto é o meu recibo’, respondeu. Também houve uma senhora que achava que o voto era para enfiar dentro da cabine de voto e então tentava, tentava, mas o papel estava sempre a cair ao chão. Até que lhe perguntei o que estava ela a tentar fazer. ‘Então mas isto não é para enfiar aqui?’ ‘Não, a urna está em cima da secretária’, disse eu à senhora, que estava muito admirada por ver sempre o papel no chão."

"Os primeiros anos foram mesmo caricatos. As pessoas não sabiam em quem votar e como nos conhecíamos todos diziam em pleno ato eleitoral: ‘Oh Tina, dá-me aqui uma ajuda, em quem é que eu hei de votar?’ Outras simpatizavam tanto com determinado partido que punham várias cruzes em cima do nome e do símbolo, como se por quantas mais cruzes pusessem mais votos contassem. E os que votavam em dois e três partidos, convictos de que todos os votos eram contabilizados?", recorda Clementina Maia, nascida há 65 anos em Alfama, Lisboa, a mesma freguesia em que foi membro residente das mesas de voto durante mais de 30 anos.

"Outros diziam que queriam pôr na ‘mãozinha e na foice’, mas não sabiam o nome do partido; também havia quem dissesse que não sabia ler e precisava de ajuda", continua Clementina, que tanto via eleitores que aproveitavam a fatiota da missa para exercer o direito de voto como deixava votar aqueles que apareciam de roupão, pijama ou de camisa de dormir, acabados de sair da cama ou prontos para regressar ao leito a seguir ao cumprimento do dever e do direito cívico.

Do mar para o voto
"Naquela altura inicial eram nomeadas para as mesas de voto as pessoas que ‘eles’ achavam que tinham carisma e que a maior parte das pessoas da terra conhecia", explica José Adelino Vigia, 78 anos de vida, muitos deles dedicados ao futebol (primeiro como jogador e depois como treinador dos clubes da terra) e à pesca, na Nazaré.

"Muitos apareciam nas primeiras eleições sem qualquer cartão de identificação, mas como eu os conhecia, sabia quem era o pai e a mãe, deixava-os votar. Também porque muitos deles vinham do mar diretos para as eleições e ainda era uma boa caminhada entre a praia e as mesas de voto. Ainda iam com as roupas do mar e, pelo sacrifício que faziam para conseguirem ir votar, eu deixava-os fazê-lo mesmo quando já tinha passado da hora de fecho, fiz isso muitas vezes porque aquilo era uma vida dura. Havia muito analfabetismo e era sempre preciso alguém conhecido identificar quem estava a votar. Também me lembro de um sujeito que via tão mal que eu praticamente é que votei por ele", graceja José Adelino. Júlia Caçador lembra histórias semelhantes ali não muito longe da Nazaré, em Leiria.

"Também havia tricas porque na mesa estavam os representantes dos partidos políticos e quando viam que determinado voto lhes convinha eles iam atrás, quando viam que a pessoa em causa podia ter uma desculpa para votar acompanhada e achavam que o voto lhes podia ser favorável. ‘Olha, aquele é cego, vou eu com ele’. Mas dizia outro: ‘Não é nada cego, então não vê tão bem que anda sempre na rua?’", lembra aquela que viria a ser a primeira mulher eleita presidente da Junta de Freguesia de Amor, há 30 anos.

"A verdade é que muitas pessoas queriam acompanhar os cegos com o ‘ai que ele não sabe onde vai votar, não distingue bem isto ou aquilo’, que a dada altura chegámos a ter de pedir que fossem buscar documentos médicos, porque os hospitais estavam obrigados a ter uma linha aberta para essas situações, que comprovasse se eram ou se não eram cegos. Mas nas primeiras eleições houve muitos ‘cegos’ ajudados a votar, ai isso houve...", recorda.

Para Pilar Vilar Campos, residente no Castelo, em Lisboa - hoje freguesia de Santa Maria Maior - o mais difícil era a contagem dos votos assim que as urnas fechavam. "A maior dificuldade eram os velhotes que não sabiam bem onde punham o voto e depois tínhamos de verificar se o voto era válido ou não na altura da contagem. Na nossa zona sempre houve pessoas de muita idade e faziam o traço muito em cima ou em vez da cruz faziam uma bola, mas nós tínhamos de ter a sensibilidade para perceber qual era a intenção de quem votava.Depois fazíamos uma conferência entre todos os que estavam e se o voto estava no inimigo tentávamos que não fosse considerado válido", ri-se Pilar, hoje com 74 anos, que ainda agora - nas próximas eleições de dia 6 de outubro vai ser presidente da mesa - usa a dedeira que a acompanha desde as primeiras eleições para facilitar a contagem dos votos.

"Como trabalhei nos TLP (Telefones de Lisboa e Porto) e uma das coisas que tinha de fazer era folhear em 30 minutos 30 centímetros de senhas bem apertadinhas, sempre fui muito rápida."

"Chegávamos a estar até às onze, onze e meia a contar votos naquele tempo. Hoje numa hora, hora e meia temos uma mesa pronta", explica Clementina Maia, a Tina de Alfama. "E nas primeiras eleições tínhamos polícia lá dentro e tudo para garantir que não havia confusão. Uma vez houve ‘porrada’ à séria. Os rapazes da FEC (m-l) - Frente Eleitoral de Comunistas (marxistas-leninistas) - perseguiam quem não fosse do lado deles. E houve um ato eleitoral em que houve ‘porrada’ com uns da FEC (m-l) e uns que eram do PS, porque um rapaz da FEC (m-l) ajudou uma mulherzinha coxa a subir ao primeiro andar onde ela ia votar e o outro disse que ele não tinha nada que ajudar porque a senhora conseguia andar. O que ele queria era dizer-lhe para votar neles...", lembra José Adelino. Era como os cegos...

Até às duas da manhã
Divergências políticas à parte, a melhor altura era mesmo o final da noite. "Íamos todos jantar já muito tarde depois da contagem dos votos e nessa altura já não interessava quem era PS ou PSD, nunca houve nada que separasse a gente."

Lembra Júlia Caçador que "na primeira eleição livre, a 25 de abril de 1975, nós só saímos da junta quando a camioneta da Força Aérea, com a polícia presente, foi buscar os presidentes das mesas de voto para irmos entregar o processo eleitoral ao Governo Civil. A freguesia de Amor foi a primeira, nós corremos a via sacra toda, quando chegámos ao Governo Civil tivemos de estar à espera e sei que cheguei a casa às duas da manhã na carrinha da Força Aérea. Nessa altura já estava casada, mas o meu marido não tinha ciúmes, não se importou nada que eu chegasse a casa às duas da manhã, sabia que eu estava a participar em algo muito importante para o País."

Nestas eleições, Júlia não o vai fazer. "Fiz sempre parte das mesas até começar a ser pago. Aí começaram a escolher os mais novos..." O pagamento pelo trabalho nas mesas eleitorais só foi aprovado em 1999, devido à falta de voluntários para as eleições europeias.

Está previsto que o Estado gaste cerca de três milhões de euros com o pagamento aos membros das mesas de voto nas próximas eleições legislativas de 6 de outubro, o mesmo valor pago nas eleições europeias de 26 de maio, onde estiveram cerca de
57 722 pessoas nas mesas de voto .

A lei prevê o pagamento de 51,77 euros a todos os membros, além de terem dispensa do trabalho no dia seguinte à votação. O valor já chegou a ser superior a 70 euros, o que fazia de Portugal um dos países que mais bem pagava por este serviço. No entanto, Pedro Passos Coelho viria a baixar o valor para 50 euros, em 2013, durante o seu mandato.

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