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Quando Deus entra na prisão

Depois dos missionários, Inês e Daniela filmaram o padre visitador das prisões. Até já conheceram o papa.
Marta Martins Silva 15 de Fevereiro de 2015 às 12:00
Inês e Daniela Leitão têm feito vários documentários sobre a Igreja
Inês e Daniela Leitão têm feito vários documentários sobre a Igreja

Inês e Daniela Leitão nunca imaginaram que o papa Francisco – ou alguém em sua representação, mas isso é o menos importante – ia demorar menos de quinze dias a responder-lhes a uma carta e a convidá-las para ir ao Vaticano. As irmãs levaram-lhe, em fevereiro do ano passado, um abraço português e uma cópia do documentário ‘O meu bairro’, sobre a ação dos Missionários da Consolata que vivem no Bairro do Zambujal, em Alfragide – o mesmo onde uma adolescente de 13 anos morreu a tentar salvar os cinco irmãos das chamas em outubro do ano passado.

Não foi a estreia de Inês e Daniela no retrato documental de uma Igreja que está no terreno e não no púlpito das paróquias. Antes d’ ‘O meu bairro’ filmaram ‘Mulheres de Deus’ – centrado na vida de quatro irmãs hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, rodado na Casa de Saúde Mental da Idanha – e apresentam no próximo dia 20 ‘O padre das prisões’.

"Fomos descobrindo esta igreja que as pessoas não conhecem: que trabalha, que vai às periferias, que mexe. Uma igreja dos pobres, daqueles que estão à margem", acredita Inês, a argumentista. A vida de um padre visitador – que vai às prisões levar esperança a quem está privado da liberdade – surgiu no caminho das irmãs precisamente por causa do encontro com o papa Francisco no Vaticano.

"O padre João Gonçalves ligou-nos a dar os parabéns pelo documentário ‘O meu bairro’. Foi assim que o conhecemos e, felizmente, depois de descobrirmos o que ele fazia, conseguimos convencê-lo a acompanhar o seu trabalho diário", acrescenta Daniela, a realizadora.

ESPERANÇA E CONFORTO

As duas irmãs entraram nas prisões pela mão do coordenador da Pastoral Penitenciária portuguesa e padre visitador há mais de 40 anos e querem agora mostrar ao público como é que Deus entra num sítio de onde a maioria só quer sair. "Ele nunca perguntou a um preso porque está ali. O padre João vai à prisão com a mesma dedicação com que dá uma missa noutro sítio qualquer. Ele contou que uma vez, numa celebração da palavra, enquanto cantava, apontou para um recluso e disse ‘Deus está aqui’.

E o recluso disse que Deus não podia estar num criminoso mas o padre João fê-lo descobrir que Deus perdoava", explica Inês, completamente rendida à "esperança" que o visitador das prisões transporta a cada visita e que ela pode testemunhar atrás da câmara. A irmã Daniela ficou impressionada com a falta de saídas que a comunidade dá aos reclusos no final das penas. "Há pessoas que não querem sair no final das penas porque não têm para onde ir, disse-nos uma reclusa. Outras saem da prisão e são os guardas a dar-lhes dinheiro para a viagem de expresso ou de comboio, para se deslocarem para algum sítio, porque não têm casa, família, trabalho. O padre João também nos contou no documentário que encontrou um rapaz que tinha estado preso na rua e que vivia com um sem-abrigo. Ou seja: a sociedade virou-lhe as costas, foi um sem-abrigo que o ajudou."

Histórias há muitas e Inês e Daniela dão-lhes voz. Dão voz a esta igreja que muitos não conhecem, mas que trabalha com aqueles de quem os outros habitualmente fogem. Quem sabe se as duas irmãs poderão voltar ao Vaticano, desta vez para mostrar ‘O padre das prisões’. E para tirar uma selfie com o papa Francisco. "Queríamos tirar uma foto com ele quando lá fomos em fevereiro, mas o abraço era mais importante. Optámos pelo abraço."

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