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Correio da Manhã

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QUARTO, DOCE QUARTO

Margarida quis livrar-se da lida da casa. Nuno é um músico invisual e sabe que ali nada lhe falta. Maria Leonor fugiu à solidão. Três casos distintos, uma opção: transformar um quarto de hotel em morada permanente.
18 de Julho de 2004 às 00:00
“O que mais me agradava era não ter que me preocupar com as tarefas domésticas para as quais nunca tive jeito, além de que no meio em que cresci, nunca precisei de me preocupar com isso”, conta a médica alfacinha Margarida Calado, que durante quase uma década viveu em hotéis e residenciais lisboetas. “E não tinha que dar explicações a ninguém, não havia perguntas ou vizinhos indiscretos”, acrescenta.
São várias as razões que conduzem uma pessoa a fazer de um quarto de hotel a sua casa. No entanto, os psicólogos e terapeutas são uníssonos quando apontam a solidão como causa principal. “Penso que as pessoas que fazem de um hotel ou de uma residencial a sua casa, estão, na maior parte dos casos, a fugir à solidão e ao isolamento na medida em que numa unidade hoteleira, seja ela qual for, trabalham pessoas 24 horas por dia o que transmite aos hóspedes a sensação de companhia”, diz a psicóloga Carla Santos.
Nuno Peixoto tem 61 anos, é invisual e há dezasseis que reside no hotel Garbe, em Armação de Pêra, Algarve. Há 30 anos era músico profissional e foi para aquele hotel trabalhar. Quando os seus problemas de visão se acentuaram, há mais de uma década, o então dono do Hotel, Oliveira Santos – antigo Governador Civil de Faro – encontrou a solução ideal: convidou-o para ser responsável pelo sector de animação e ofereceu-lhe um quarto permanente. Mais precisamente, o quarto número 16, com vista para a piscina.
“Tenho pena que os meus olhos não enxerguem o que se passa lá em baixo…”, desabafa o músico. “Aqui, sinto-me mais acompanhada e sei que em caso de necessidade tenho sempre alguém disponível para me prestar assistência e isso já aconteceu mais do que uma vez…”, confessa Maria Leonor, viúva desde 2001 e que adoptou, em conjunto com o marido, no final dos anos 90, o Hotel Ibis Saldanha, Lisboa, como residência oficial.
Se a solidão é uma das razões que levam pessoas a fixarem-se em hotéis, seria natural que os hóspedes permanentes travassem conhecimentos e fizessem amizades com outros hóspedes. “Curiosamente, isso nunca aconteceu comigo. Tirando os funcionários das residenciais e em particular os recepcionistas, nunca fiz amigos ou convivi com outros hóspedes. Estive bastante tempo numa residencial de uns amigos e falava apenas com os funcionários ou com os donos, nada mais”, recorda Margarida Calado.
Maria Leonor tem uma opinião diferente: “Conheci um casal estrangeiro aqui no hotel na altura do falecimento do meu marido e até hoje ficámos amigos. Sempre que eles vêm a Lisboa, convidam-me para ir almoçar, jantar ou dar um passeio …”.
Após uma década a morar em quartos, Margarida Calado não se recorda do nome de todas as pessoas com quem se cruzou. Mas não esquece a noite em que um presumível ladrão lhe entrou no quarto. “A janela estava aberta e era um andar baixo. Ele entra, eu berro, ele assusta-se e vai-se embora”, recorda, divertida.
Curiosamente, Maria Leonor e o marido viviam em Lisboa quando optaram por passar temporadas num hotel… em Lisboa. “Começámos a frequentar o Ibis para descansar das tarefas do quotidiano. Depois habituamo-nos e decidimos ficar temporadas maiores até o dia em que me instalei, definitivamente, no hotel”, conta a viúva. “Tenho um apartamento em Lisboa, localizado num prédio que serve apenas de dormitório. Todas as pessoas saem de manhã para os seus empregos e regressam à noitinha. No Hotel tenho mais convivência e amizade do que lá”, acrescenta.
Para Nuno Peixoto trabalhar e residir no mesmo local nem sempre é tarefa fácil: “A vida num hotel é chatinha. Estou sempre no local de trabalho e, se por um lado isso proporciona algumas facilidades, por outro, deixa-me saturado”, confessa o músico que de vez em quando recebe as visitas de duas irmãs que residem em Portimão.
Anos antes de se instalar em quartos, Margarida Calado teve a sua própria casa. “Já vivi com os meus pais, acompanhada e sozinha.” A médica é discreta e não gosta de falar da sua vida privada, mas diz que neste momento vive novamente numa casa: “Vamos lá ver se vale a pena…”
Maria Leonor não se imagina de novo no apartamento onde vivia. “Cada canto daquela casa recorda-me o meu marido. Fomos os dois para ali e não faz sentido estar lá sozinha…”, desabafa.
Em termos financeiros, a vida num hotel torna-se dispendiosa. Mais do que o quarto, os hóspedes são obrigados a pagar todas as refeições, dentro ou fora do hotel. Como funcionário do Garbe, esta questão não se coloca para Nuno Peixoto. “Raramente fazia refeições nos sítios onde vivi. É óbvio que sai caro, mas é uma opção”, conta Margarida Calado. “Quando vivia com o meu marido, era raro jantarmos no hotel, gostávamos de experimentar vários restaurantes…”, comenta Maria Leonor.
Em boa verdade, as unidades hoteleiras têm condições especiais para hóspedes permanentes. Estes, acabam por beneficiar de preços muito especiais e feitas as contas, para muitos, até vale a pena.
CHANEL NO RITZ
Durante 37 anos Coco Chanel, uma das grandes divas da moda do século XX, viveu comodamente numa luxuosa suite do Hotel Ritz, em Paris. Coco Chanel morreu aos 88 anos, em Janeiro de 1971. A suite que a acolheu durante quase quatro décadas foi posteriormente aberta ao público. Manteve-se a decoração e o estilo original que ainda hoje atrai visitantes de todo o mundo.
Localizado na Place Vendome, o hotel – que remonta ao século XVIII –, está incluído entre os melhores do mundo e foi também o local de eleição de Ernest Hemingway que, na primeira metade do século XX, ali ficava semanas ou até meses consecutivos.
GULBENKIAN NO AVIS
Calouste Sarkis Gulbenkian nasceu em Istambul, Turquia, no ano de 1869 mas em 1902 naturalizou-se inglês. Foi cônsul-geral do Islão em Paris e fundou a Turkish Petroleum Company. Chegou a Lisboa durante a II Guerra Mundial, em Abril de 1942, onde viveu até à sua morte em 1955.
Durante alguns anos transformou o antigo Hotel Avis, no Saldanha, na sua morada permanente. Era lá que vivia e recebia amigos, entre os quais, o advogado José Azeredo Perdigão. Apaixonado pela arte reuniu uma das melhores colecções particulares e criou a Fundação Calouste Gulbenkian.
A ‘TI BI’ DO TIVOLI
Américo Nunes e António Ferreira entraram para o Hotel Tivoli da Avenida da Liberdade, Lisboa, ainda meninos. Conviveram de perto com Beatriz Costa, a famosa hóspede do quarto número 600.
Tratavam-na carinhosamente por ‘Ti Bi’ e recordam-na com saudade e com carinho. “Tomava s o pequeno-almoço no quarto e só depois descia e ficava no 'hall' a ler e a escrever”, diz Américo Nunes que em tempos idos teve como colega o ascensorista Sousa Cintra, actualmente empresário. “Muitas vezes, a Ti Bi jantava no restaurante Zodíaco que actualmente tem o seu nome. Comia muito pouco: uma sopinha; um chá com torradas… e dizia-nos para nas festas provarmos tudo mas não comermos nada”, acrescenta.
António Ferreira não esquece a boa-disposição de Beatriz Costa “Vivia aqui porque queria barulho e gente. Gostava muito de conviver e estava sempre a contar anedotas”, conta, prosseguindo: “Uma das maiores preocupações que tinha era com o cabelo. Aos 80 anos, conservava um cabelo de garota e passava horas a tratar da sua franjinha.”
Nos últimos tempos de vida, Beatriz Costa começou a dar sinais de fadiga. “Chegou a cair, arrastava os pés, deixou de frequentar festas, só saía para ir ao cabeleireiro, e quando precisava de ir à rua pedia companhia”, recordam os empregados.
Mais que uma hóspede, Beatriz Costa era considerada da família. Apadrinhava festas, casamentos e bailaricos. “A Ti Bi sabia os nomes dos nossos filhos, sabia sempre se estávamos a namorar, sabia tudo! E oferecia-nos muitos presentes. A todos”, rematam.
Beatriz da Conceição Costa morreu na manhã do dia 15 de Abril de 1996, com 88 anos de idade. Os empregados – que entretanto se tornaram a sua família – assistiram com tristeza e mágoa ao desaparecimento de ‘Ti Bi’. E ficaram indignados quando perceberam que no funeral eram poucos, muito poucos, os artistas presentes. “Obviamente que foi muita gente do Tivoli. Quem falhou foi o mundo artístico. Além do Carlos do Carmo e do Raul Solnado, não se viam artistas…”, confessam.
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