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Correio da Manhã

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Quatro linhas contra o regime

Hoje a Académica volta a jogar a final da Taça. Em 1969, em jogo estava mais do que o futebol
20 de Maio de 2012 às 15:00
Manuel António, Marques, Francisco Andrade, Viegas, Mário Campos e Belo no estádio da Académica
Manuel António, Marques, Francisco Andrade, Viegas, Mário Campos e Belo no estádio da Académica FOTO: Ricardo Almeida

Foi o maior comício político organizado contra o regime até à data: a 22 de Junho de 1969, no relvado do Jamor, Benfica e Académica disputavam a final da Taça de Portugal; e nas superlotadas arquibancadas ‘choveram' 35 mil panfletos. Os estudantes de Coimbra estavam de luto, manifestaram-se com faixas - que passavam de mão em mão para fugir à PIDE - contra a política estudantil, a prisão de estudantes e a polícia nas universidades (era a exteriorização da crise académica de 69). E sub-repticiamente contra a política colonial. A favor da liberdade.

No campo, perante um Benfica atacante, a ‘Briosa' defendia. E só num lance de contra-ataque a 9 minutos do fim a Académica inaugurou o marcador. Jogada bem finalizada por Manuel António - um caloiro de Medicina que hoje é director do IPO de Coimbra. O empate surgiu 3 minutos depois na sequência de um pontapé, bem colocado, de Eusébio. O guarda-redes Viegas não conseguiu segurar o esférico e, na recarga, Simões finalizou. Já na segunda parte da meia hora suplementar surgiu o golo da vitória dos encarnados. Eusébio marcou.

"Não fosse a sorte, o Benfica não teria ganho" - confessa quase 43 anos depois à Domingo o ‘Pantera Negra'. "Se houvesse duas taças, era justo que uma fosse da Académica. Os jogadores do Benfica acabaram por reconhecer o valor daquela equipa cheia de doutores. E por isso demos-lhes a taça para correrem no campo connosco."

A AMEAÇA DA PIDE

Não era este o plano dos estudantes. Na véspera, o passeio de autocarro até Sesimbra terminou à hora de jantar. Os jogadores da Académica recolheram ao Hotel do Muxito, Seixal. "Foram-me chamar porque ao telefone estava o Artur Jorge. Ele não tinha sido convocado para a final. Cumpria serviço militar em Mafra" - recorda Vítor Campos, colega de equipa e estudante do 5º ano de Medicina. "Disse-me que o presidente e o vice-presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins [hoje deputado do PS e ex-ministro da Justiça] e Osvaldo de Castro [advogado e ex-secretário de Estado do Comércio], estariam sentados na cabeceira sul do estádio. Se vencêssemos iríamos ter com eles para lhes entregar a taça e convidá-los a dar a volta ao campo connosco."

Conta Osvaldo de Castro que tudo seria pacífico. "Não havia a intensão de invasão de campo. Se a fizéssemos teríamos um problema sério. O grande sucesso foi termos evitado radicalismos gratuitos." Nas bancadas, além do reforço policial, escondiam-se os ‘pides'. Tudo poderia acontecer para reprimir a rebelião.

Pela primeira vez, um chefe de Estado não compareceu na final da Taça - que também não teve transmissão na RTP. "Américo Tomás não foi por medo. Ninguém ia invadir coisa nenhuma nem bater-lhe. Mas iria haver uma vaia terrível dos benfiquistas e dos estudantes de Coimbra e de Lisboa. E se nós tivéssemos um microfone na mão teríamos modos hábeis para mobilizar" - diz Osvaldo de Castro.


A taça foi entregue ao Benfica pelo director-geral dos Desportos em vez de ter sido por Américo Tomás. O hino apenas soou por iniciativa do público. Os jogadores da ‘Briosa' entraram em campo a passo lento e de capa caída sobre os ombros e até aos pés - em sinal de luto.

Alinhando pelo Benfica, Toni não ficou surpreendido. O próprio tinha jogado pela Académica, em 1967, a final da Taça contra o Vitória de Setúbal. Sabia que "desde a crise académica de 1962, os estudantes estavam sempre em luta". E aquele jogo em 1969 era a prova de que a luta continuava. "Os estudantes fizeram a maior manifestação pública, à época, de contestação ao governo. Para a Académica, o objectivo não passava pela vitória. Toda aquela massa adepta deve sentir-se orgulhosa de como ajudou a derrubar o regime através da acção."

Já Artur Jorge não comenta o jogo, confirmando apenas que era "hábito telefonar a um ou a outro jogador para desejar boa sorte". Se falou com Vítor Campos não se lembra, mas não esconde que ele próprio era "amigo de Alberto Martins".

AMÉRICO TOMÁS DESAFIADO

Para se compreender esta final da Taça é preciso recuar no tempo: 17 de Abril de 1969, dia da inauguração oficial do Edifício das Matemáticas, na Universidade de Coimbra. Na sessão solene, Alberto Martins levantou-se e pediu a palavra a Américo Tomás. Estava combinado. Queria "falar dos problemas que afligiam a juventude, a universidade e o País". À estrondosa salva de palmas dos estudantes seguiram-se as palavras do chefe de Estado, perplexo: "Bem, mas agora fala o sr. ministro das Obras Públicas."

Terminou o discurso e Américo Tomás retirou-se antes que Alberto Martins falasse. "A comitiva saiu tão abruptamente que ainda me lembro de uma jovem, grávida, estudante de Letras, ser acotovelada pela PIDE" - recorda Osvaldo de Castro.

Na madrugada de 18, Alberto Martins foi preso. "A notícia, como a solidariedade, correu então célere em Coimbra e pouco mais de meia hora passada, cerca das três horas da manhã, grupos de estudantes começaram a afluir às instalações académicas", contou o próprio, em 1999, no discurso dos 30 anos da crise académica. Nessa noite, a polícia atacou os estudantes que foram à sede da PIDE. Alguns ficaram feridos. E ele foi libertado ao meio-dia.


Ao fim de três dias, Alberto Martins e outros sete estudantes - na maioria, dirigentes de Coimbra - foram suspensos das aulas. A Academia decidiu fazer greve às aulas - com a solidariedade de 151 professores. Dia 30, o ministro da Educação, José Hermano Saraiva, fala na televisão, dizendo que os estudantes fizeram com que "cerimónias que têm de ocorrer com grande elevação" degenerassem "em comícios ruidosos e desordeiros" - recordou Alberto Martins.

O governo chegou a encerrar a Universidade. Então, os estudantes decidiram fazer greve aos exames. "A 2 de Junho tínhamos a faculdade completamente cercada pela polícia. Tivemos 86% de adesão à greve. Foi um êxito" - recorda Osvaldo. "A crise académica vivia fechada nos limites da cidade. Por causa da censura não havia hipótese de transmitir para fora" - recorda o então treinador da Académica, Francisco Andrade, que hoje é presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais, Coimbra.

Com tudo o que se estava a passar, os jogadores da Académica resolveram agir. "Éramos também estudantes universitários - dos 11 em campo no Jamor formámo-nos 8 -, havia total cumplicidade entre a secção de futebol e a Academia e os valores que defendia", recorda o médico Mário Campos, jogador de então e estudante.

"Decidimos inventar soluções para dar visibilidade à crise académica", acrescenta o vereador da autarquia de Coimbra José Belo, ex-jogador também.

Nos jogos para a Taça, a Académica ultrapassou o Vitória de Guimarães e garantiu a presença nas meias-finais, frente ao Sporting mas com a possibilidade acrescida de espalhar por Lisboa a mensagem dos coimbrões em luta . No balneário, em Alvalade, a Académica decidiu equipar de branco e colocar braçadeiras pretas em sinal de luto. O truque valeu uma reprimenda da Federação Portuguesa de Futebol. Mas reinava a felicidade: a ‘Briosa' tinha ganho por 2-1. No jogo da segunda mão, os jogadores puseram um adesivo branco sobre o emblema no equipamento. Contra todas as expectativas venceram, apurando-se para a final frente ao Benfica, a 22 de Junho.

"Quando viajámos para Lisboa - antes da final - já não era só o futebol que ia. Em cada sítio que parávamos havia um comício. Já era o País a adivinhar o que se ia dar em 1974. Foi o abrir de uma janela. Foi na altura em que o futebol driblou a política" - recorda o ex-treinador.


"Fomos os participantes activos nesta jornada quase épica", recorda, orgulhoso, o antigo jogador António Marques.

Os jornais deram ampla cobertura ao jogo. Mas pouco ou nada sobre a luta estudantil. "Os desportivos não iam à censura - o regime considerava que o futebol era só pontapé na bola. Os chefes de redacção é que eram obrigados a enviar os textos sempre que tivessem dúvidas. Hoje, eu teria contado toda a história do jogo" - recorda o então jornalista da ‘A Bola' Jorge Schnitzer. "Já não havia Salazar. Era a Primavera Marcelista mas as pessoas estavam cheias de medo." Jorge acompanhou, uma semana, a Académica em Coimbra. Ainda conseguiu escrever sobre o episódio do equipamento branco em Alvalade. "Seria normal que na final fosse eu a escrever sobre o ambiente nas bancadas. Só que fui solicitado para fazer a parte técnica. Pediram-me para me cingir ao jogo."

Foi memorável. "Lembro-me do Otto Glória [treinador do Benfica] me dizer que foi a melhor final que disputou", recorda Francisco Andrade. "Ele disse-me: ‘Vocês tiveram aqui um momento único de representar todo o País'."

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