Queiriga, mon amour

Em Vila Nova de Paiva, Queiriga triplica os habitantes em Agosto. Os emigrantes regressam de França para matar saudades dos seus.
19.08.12
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Queiriga, mon amour
Um torneio de cartas que se realiza sempre em Agosto, para os emigrantes Foto Nuno André Ferreira

Há uma aldeia no interior de Portugal que, por estes dias, não conhece a palavra crise. A toda a hora passam carros de alta cilindrada, para cima e para baixo, por estradas estreitas, encurvadas e com piso gasto. Do automóvel que arranca a ‘assobiar’ a música toca alto e é por isso perfeitamente audível a quem passa de bicicleta ou a pé. Todos se conhecem.

O café da aldeia está cheio e na esplanada, as mesas, com crianças a correr em volta, apresentam um maço de cigarros, cervejas ou bebidas brancas. O movimento é constante. Há muitas casas que se erguem, outras tantas a recuperar com acabamentos de luxo e piscina exterior. Respira-se vida, em Queiriga, no concelho de Vila Nova de Paiva, neste "querido mês de Agosto".

Esta é altura do ano em que a aldeia se transforma, rejuvenesce e multiplica. E tudo graças aos emigrantes, vindos maioritariamente de França, que regressam às origens. Queiriga é por tradição a aldeia mais francesa de Portugal. Os antepassados partiram em busca de uma vida melhor e o hábito de emigrar passou de geração em geração, com singeleza, um pouco por todas as famílias da terra.

VIDA DE TRABALHO

A aldeia reflecte a história do concelho. Na década de 50, muitos partiram para o Brasil. Nos anos 60 e 70, a França foi o destino mais desejado. No início dos ‘loucos anos 80’, a Suíça começou a fazer parte das preferências dos emigrantes e no início da década de 90 muitos optaram pela Alemanha.

Contudo, depois de um ano intenso de trabalho, os emigrantes aplicam o ditado ‘bom filho à casa torna’ e dedicam duas a três semanas para estarem com os entes queridos. "Em França farto-me de trabalhar. Sou pedreiro e motorista. Não vou ao café, é rara a vez que saia à noite. Gasto o mínimo possível, sem passar fome. Estou lá para juntar para daqui a uns anos construir uma casa na minha aldeia", contou Rui Morais, 36 anos.

Quem passa o ano em Queiriga sente a "agitação" do mês de Agosto. "É uma diferença do dia para a noite. Durante o ano somos meia dúzia de gatos-pingados, a partir dos meados de Julho e até ao fim de Agosto os emigrantes enchem a aldeia", contou Germano Figueiredo, 75 anos. O idoso aposentado também trocou Portugal por França, corria o ano de 1964.


Em busca de mais oportunidades de trabalho, a esposa, Cassilda Capela, 73 anos, também partiu. Ele assentava alcatrão, ela cuidava das crianças na casa onde paralelamente fazia limpezas. Foram emigrantes durante dez anos. Não mais porque Germano quis que a filha aprendesse e falasse a língua portuguesa. "Eu arrependo-me de ter vindo, mas o meu homem decidiu e apoiei-o. Lá, trabalhávamos e víamos dinheiro, aqui não", disse a idosa. Há vários anos em Portugal, dedicados à pequena agricultura e àquilo que a saúde ainda permite, dizem que "a aldeia está esquecida e abandonada".

Segundo os censos de 2011, residem em Queiriga 575 habitantes. A população é idosa e a taxa de natalidade muito baixa. "Nascem quatro crianças por ano no concelho", garantiu José Morgado, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Paiva.

A escola do 1º ciclo do Ensino Básico tem 12 alunos. Por estas bandas, os terrenos estão secos, mal tratados e abandonados. "Antes estavam cultivados, era uma alegria passear pelos campos, mas agora só os idosos aqui ficaram e já ninguém quer saber", conta Manuela Custódio, 47 anos. Veio visitar a mãe, que conta já 90 primaveras. Se não fosse a saudade e a questão familiar não aparecia. "Esta aldeia já não me diz nada. Parti com 16 anos e ganhei raízes em França. A minha vida é em França e de Portugal cada vez sei menos", explicou.

Manuela não pondera voltar. "Para quê? Lá ganho 2400 euros e não me privo de nada, os que cá estão só me falam em crise e em desgraça, não quero isso para mim e para a minha família", disse. Apesar de todos os anos voltar à terra que a viu nascer, Manuela está convicta de que cada vez mais os emigrantes vêm menos. "Os avós e os pais estão a morrer e os emigrantes têm menos motivos para voltar. Em França é que estão a família e as razões para sorrir."

Esta opinião é partilhada por Augusto Moreira, presidente da Junta de Freguesia de Queiriga. "É óbvio que por estes dias o número de pessoas quadruplica, mas não se vê a mesma agitação registada há vinte anos. Os laços familiares estão a perder-se", comentou. Quem discorda deste cenário é José Morgado. Segundo o presidente de Vila Nova de Paiva, "parece que vêm menos porque muitos deles estão poucos dias em Queiriga e optam por rumar à segunda habitação, no Algarve. Mas que vêm e com poder económico, disso não tenho dúvidas", esclareceu.

Desde os anos 70, Queiriga é a freguesia do concelho com maior poder de compra. "Estamos a licenciar muitas casas, autênticos palácios, construídos para proporcionar todo o conforto e com uma estética invejável", referiu José Morgado. As casas com trinta ou mais anos estão a ser requalificadas. A eficiência energética é uma das preocupações. O conforto uma exigência. Foram licenciadas mais de 20 piscinas exteriores, "parece o Algarve do Interior do País", disse o presidente.


Quem também ganha, e de que maneira, com a chegada dos emigrantes é o comércio tradicional local. De tal forma que muitos dos estabelecimentos aproveitam a primeira quinzena de Setembro para descansar do turbulento, mas proveitoso, mês de Agosto.

O Queirimercado é o minimercado da aldeia. Abriu há dois anos. Maria Teixeira, proprietária, esteve emigrada em França durante 40 anos. A chegada dos conterrâneos representa uma alegria de espírito e um encaixe substancial na caixa registadora. "Em Agosto é que ganho dinheiro e equilibro as contas dos outros meses", revela. A ajudar a mãe encontrámos dois dos três filhos. Todos nasceram em França, mas o amor à terra gaulesa é díspar. Só Delphine Morais, 14 anos, vai ficar em Portugal.

O sonho é prosseguir os estudos, os mesmos que o irmão não abraçou. Adrian Morais, 18 anos, quer regressar a França para trabalhar. Quanto à filha mais velha, já nem vem, decidiu continuar a estudar em França.

VOLTINHAS DE FÉRIAS

"Olha o vinho do Porto a três euros, olha a promoção", pregoava Paulo Sousa, 44 anos, na feira de Lamas, a cerca de 10 quilómetros de Queiriga. Muitos emigrantes dos concelhos de Vila Nova de Paiva e de Sátão fazem compras nesta feira quinzenal. Para o feirante, a chegada dos emigrantes foi um "alívio". "Nota-se bem quando eles cá estão. Durante o ano facturo cerca de 500 euros. Hoje vou facturar sete mil", confidenciou. É o bacalhau, o queijo, o vinho do Porto e os enchidos que os emigrantes mais procuram. "Venho à feira porque é tradição de família. Aproveito e levo um bocadinho de Portugal para França", contou Maria Antónia, 58 anos, emigrante há 32.

Os mergulhos e banhos de sol na praia fluvial de Fráguas, a ida ao bowling, uma passagem fugaz pelo dólmen da Orca dos Juncais, classificado monumento nacional, e mais um aperitivo no Marques ajudam a passar a tarde. As Festas da Senhora da Saúde são outro pólo de atracção de emigrantes e da população do concelho de Vila Nova de Paiva.

À noite, a Associação Os Queiriguenses propõe, à maneira portuguesa, um torneio de sueca. O convívio impera e centenas de pessoas juntam-se a ‘batê-las’. Às cartas, antes de um pezinho de dança nas festas do Ver Paiva, em Vila Nova.


Quando os emigrantes partirem, Queiriga voltará ao mesmo de sempre – 575 habitantes, na sua maioria gente que dobrou a metade da vida, entregues à pasmaceira habitual das terras que perderam para o estrangeiro os seus filhos.

Nestes 35 quilómetros quadrados do concelho de Vila Nova de Paiva especula-se sobre quem de entre os poucos jovens que ali ainda vive atravessará a fronteira para trabalhar. Também eles voltarão em Agosto.

PETISCOS E DOIS DEDOS DE CONVERSA EM PORTUGUÊS ‘AFRANCESADO’

Na aldeia de Queiriga a língua portuguesa transforma-se durante o mês de Agosto. Aparece com toque ‘afrancesado’ e tem de ‘lutar’ com as conversas animadas em francês. Ninguém estranha. O café/snack-bar Marques [foto ao lado] é só um dos sítios onde se ouve o ‘dicionário emigrante’, também porque é ali que todos os emigrantes marcam encontro. O proprietário tem 20 anos e foi emigrante. Viveu em França com os pais até aos 13.

"Não gostava de lá estar. Sinto-me muito melhor aqui. Ainda bem que os meus pais decidiram regressar", contou Micael Marques. "O café factura bem todos os meses do ano. São servidos, em média, 25 almoços por dia, mas por esta altura ultrapassa-se as cem refeições", conta Micael, encantado com a prosperidade que lhe traz sempre o mês de Agosto.

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