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Quem são os Mercados?

“Nestes mercados (virtuais e pós-modernistas) nem as notas se apalpam: é tudo por computador”
20 de Novembro de 2011 às 00:00
Victor Bandarra
Victor Bandarra

Investir no Bolhão ou na Ribeira é chão que deu uvas. As feiras aguentam-se porque se foge ao fisco e não há fiados, mas os velhos mercados definham a olhos vistos. Felizmente, há resistentes que ainda funcionam como autênticos e honestos mercados monetários – compra-se, vende-se, empresta-se e passou a haver lista de fiados. Os compradores podem ver e experimentar o produto – batata, repolho, chicharro ou entrecosto. Acaso se sintam enganados, voltam no dia seguinte e, olhos nos olhos, exigem explicações ao vendedor. Quem perde num dia, pode ganhar no outro.

Durante séculos, por entre justiças e injustiças, estes mercados funcionaram. Até que o capitalismo inventou o "mercado de capitais". É assim: tudo se compra, tudo se vende (café, ouro, batatas, casas, bancos, casas de passe, até países como a Grécia ou Portugal), mas nem compradores nem vendedores conhecem ou provam o produto. Nem lhes interessa, negócio é negócio. Nestes mercados (virtuais e pós-modernistas) nem as notas se apalpam: é tudo transaccionado por computador.

Esta semana, em singela ignorância, pedi a vários compatriotas (jornalistas, economistas, gestores bancários, até a um pedreiro e a alguns fadistas) se me davam uma boa e simples definição de "mercados financeiros e de capitais". O pedreiro, desconfiado, garantiu que não tinha tempo para explicações. Os camaradas jornalistas riram-se da minha ignorância. Os gestores engasgaram-se vezes seguidas e prometeram investigar. Alguns economistas tentaram uma explicação ao estilo da Wikipédia: "Em matemática financeira, o mercado é definido em termos de um processo estocástico de movimento Browniano em tempo contínuo". Muito sério, um fadista de Alfama explicou-me: "É um sistema onde os tipos que ganham pipas de massa passam de bons investidores a especuladores sacanas quando levam o pessoal à falência".

Finalmente, sem revelar um nome ou uma simples morada, um tipo de olhar matreiro deu a melhor explicação sobre quem são "os mercados": "São pessoas sentadas em frente do computador, de calções, gozando do ar condicionado em Nova Iorque, e que decidem de um segundo para o outro que conselhos dar aos investidores". Quem foi que disse? Disse Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo, enquanto se queixava da lentidão dos sistemas democráticos. Razão tem o meu amigo Zé dos Pneus: "A crise dos mercados começa a ser tão profunda que até já atinge os pobres!".

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