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Quem vê caras, vê quase tudo

O Facebook aproxima amigos, colegas e familiares. Mas também os põe na mira de empresas e até de serviços secretos.
6 de Junho de 2010 às 00:00
Será que todos têm a noção de que aquilo que colocam no Facebook pode ser recuperado anos depois?
Será que todos têm a noção de que aquilo que colocam no Facebook pode ser recuperado anos depois? FOTO: João Cortesão

A vida não corre nada bem a Márcio. Em jeito de desabafo explica porquê. "Despedido, carro semicapotado e braço partido... Como é que isto pode ficar ainda melhor?", pergunta este jovem de Aveiro. Também o Olivais atravessa um mau momento, ainda que temporário. É tempo de parar e explica que vai dormir "a segunda parte do dia, que p*** de ressaca".

A Tânia é de Cascais e tem pensamentos parecidos. Afinal, a noite de ontem foi de arromba: "acho que nunca bebi tanto shot de tequila como ontem", confessa na rede social. O Bruno, de Alverca, anda confuso com a vida, e recorre à marijuana para se concentrar no que será o futuro: "hoje fumei uma ganza de erva e pensei bem na vida o que era o que é e o que será daqui um dia!".

Já o Almeida, de Aveiro, nem precisa de confessar algum acto menos próprio, a sua fotografia do perfil mostra-o com um cigarro de haxixe na mão e a respirar o fumo. Se um dia quiser concorrer a um cargo político, já não pode usar a célebre desculpa do presidente americano Bill Clinton, o tal que fumou, mas não inalou. Saberão estes cinco jovens que aquilo que publicaram na semana passada pode ser visto (agora ou daqui a vários anos) pelos seus pais, professores e até patrões ou futuros patrões?

2 MILHÕES EM PORTUGAL

As mensagens referidas foram recolhidas à sorte entre os 2 milhões de utilizadores portugueses (pessoas, empresas e outras organizações) inscritos no Facebook, a maior rede social da internet. A plataforma dá acesso a todo o tipo de informações sobre os utilizadores, desde os desabafos mais inocentes entre amigos às confissões mais chocantes.

À beira de atingir as 500 milhões de inscrições em todo o Mundo, o site tem estado, nos últimos tempos, sob fogo cerrado. Critica-se a falta de privacidade, a entrega de dados a sites exteriores e a facilidade com que desconhecidos têm acesso a informações pessoais. A administração do portal reconheceu algumas falhas e corrigiu as definições de segurança, simplificando os procedimentos. Mas as críticas mantêm-se, porque a filosofia do Facebook é que à partida tudo é público. O utilizador tem de agir para que o seu perfil e os conteúdos que insere fiquem circunscritos a um grupo de amigos ou pessoas de confiança. Mas nem isso é garantido.

"Não há nada que se possa escrever em sites da internet que não corra o risco de ser interceptado", diz o major-general António Dias Coimbra, presidente da Competitive Intelligence & Information Warfare Association (Associação de Inteligência Competitiva e de Guerra da Informação, numa tradução literal). O Facebook tornou-se uma ferramenta para a pesquisa de informação e as autoridades e serviços secretos de vários países recorrem às redes sociais para saber mais sobre pessoas e organizações. "Há muito tempo que, tanto a nível civil como militar, os serviços de inteligência utilizam estes recursos. Naturalmente que há restrições legais ao uso desta informação, mas há formas de contornar essas restrições. Se um país não pode ‘espiar' os seus próprios cidadãos, pode receber informação sobre eles de serviços estrangeiros".

Na China ou nos Estados Unidos, são conhecidos casos de pessoas detidas ou impedidas de entrar no país cujos perfis foram investigados no Facebook. Por cá, a Polícia Judiciária já tem dado notícia de vários esquemas de burla ou fraude em que as vítimas foram aliciadas através de redes sociais.

Apesar de o Facebook exigir como idade mínima para a inscrição os 13 anos de idade, há crianças mais novas ligadas à rede. Em Inglaterra, um pedófilo de 28 anos confessou em tribunal ter contactado cerca de mil crianças através desta rede social, tendo combinado encontros e abusado sexualmente de dezenas delas. Ocaso levou as autoridades a criticaram o Facebook por não ter um sistema de alerta que permita denunciar pessoas suspeitas.

"Há muito que defendo que devia haver formação sobre a utilização da internet logo a partir da escola primária. As crianças devem ser educadas para os perigos da internet. É fácil dar-lhes computadores Magalhães, mas falta tudo o resto", diz António Dias Coimbra.

ADULTOS INEXPERIENTES

Paulo Querido, especialista em comunicação on-line, sublinha o papel dos pais: "Há 20 anos que existe a comunicação on-line em tempo real. Os pais das crianças que hoje chegam a sites como o Facebook já utilizaram tecnologia de conversação on-line, tem havido uma evolução". Querido diz até que são as pessoas mais velhas, na casa dos 40 anos, que mais se expõe quando comunicam nas redes sociais, por falta de experiência. "Os mais novos estão hoje mais preparados porque se habituaram a viver com as redes sociais. Têm mais consciência de que o material que publicam pode ser visto por estranhos".

João Pedro Gonçalves, responsável pelo Departamento de Pesquisa e Publicidade do portal Sapo, explica que a informação publicada no Facebook pode tornar-se pública, mesmo daqui a vários anos. Tudo depende do grau de privacidade da informação disponível agora: "O Facebook tem tornado cada vez mais dados disponíveis ao Mundo. Isso quer dizer que motores externos como o Google, o Wayback Machine ou uma empresa qualquer que veja nisto um bom modelo de negócio, poderão arquivar os dados, o que tornará muito mais difícil eliminá-los. Há ainda outro factor a ter em conta: as políticas de retenção de dados do Facebook. "Apagar uma fotografia significa que ela foi de facto apagada ou simplesmente se tornou ‘invisível'? Nesta área, a única forma de garantir a 100% seria através de auditorias à retenção de dados do Facebook", diz João Gonçalves.

Sérgio Gouveia, um utilizador do portal, teve uma experiência reveladora acerca do armazenamento de dados. "A dada altura, resolvi cancelar a minha conta. O meu perfil deixou de aparecer na rede e todos os conteúdos que tinha publicado também. Meses depois, quis comentar uma mensagem de uma pessoa amiga, e por isso reactivei a minha conta. Fiquei impressionado quando me dei conta de que toda a informação que eu tinha publicado anteriormente voltou a estar disponível. Fotos, textos, estava lá tudo, o que prova que o Facebook guarda toda a informação". E sem aviso, porque quando se apaga uma conta o site não informa quanto tempo vão ficar guardados os conteúdos inseridos pelo utilizador enquanto esteve activo.

Os termos de utilização esclarecem as regras de privacidade, mas a maioria dos utilizadores não se dá ao trabalho de ler o longo texto que explica o que autorizamos o site a divulgar. Mas Paulo Querido alerta que "todos os anos os termos de utilização são alterados, sem que as pessoas que estão no portal se apercebam. Há cada vez mais conteúdos que são tornados públicos, o que não me parece correcto sem haver um aviso prévio".

NEGÓCIO DE MILHÕES

Com 500 milhões de utilizadores - se fosse um país seria o terceiro mais populoso do planeta - o Facebook é uma base de dados extraordinária. E cobiçada: "Quem quiser atacar informações pessoais e criar as suas bases de dados, tem a vida facilitada ao haver apenas uma rede social. No passado já houve ‘worms' a propagarem-se pelas redes sociais que enviavam os dados pessoais dos utilizadores para os atacantes. Mas há que reconhecer que o Facebook tem trabalhado imenso na segurança, pois tem a noção dos riscos inerentes", diz João Pedro Gonçalves, do Sapo. Apesar deste esforço, os termos de utilização, que podem ser lidos quando se cria uma nova conta, dizem claramente o seguinte: "não garantimos que o Facebook seja seguro".

O portal tem seis anos de vida, mas o seu crescimento brutal não foi acompanhado por leis que protejam os utilizadores. "A Comissão Europeia já fez vários relatórios em que são denunciados casos de intrusão nas redes sociais. As empresas vivem em ambiente de guerra comercial e vão buscar informações à internet", diz o major-general António Dias Coimbra, que alerta que "nesta área ainda não há leis bem reguladas que protejam os cidadãos".

Mais do que uma rede social, a plataforma é também um enorme negócio. Quando o utilizador carrega no botão ‘like', acerca de uma música ou de um produto, essa informação pode ser enviada a empresas para quem essa informação é preciosa. Diego Oliva, responsável do Facebook para o Sul da Europa, esteve esta semana em Portugal para explicar aos 200 maiores anunciantes do País as vantagens de as suas empresas estarem na rede. "O maior desafio é explicar às empresas como integrar a sua marca na rede (...). Querem aferir melhor o impacto que têm no mercado e que pretendem saber qual o efeito que estão a ter no relacionamento com os clientes", disse Oliva ao ‘Jornal de Negócios', que cita um estudo da consultora Nielsen que mostra que a presença no Facebook pode significar um aumento de 8% nas intenções de compra de um produto e de 10% na memorização da marca anunciante.

Os críticos do Facebook criaram um movimento para se desligarem do portal a 21 de Maio. Não terão chegado a 40 mil adesões. Uma ninharia para uma rede que anuncia ter recebido mais de 10 milhões de novas inscrições no último mês.

A QUEM MOSTRAR?

Mas hoje não ter um perfil numa rede social está a tornar-se a excepção. Quem escolhe publicitar a sua vida depara-se com decisões difíceis. João Gonçalves pergunta: "quando tem fotos de festa no seu perfil do Facebook e recebe um convite do seu chefe para ser amigo, o que deve fazer? Se não aceita, o que estará a esconder?

E a rapariga que tem de mudar o seu ‘estado' no Facebook de ‘solteira' para "numa relação" só para deixar de receber mensagens de tipos que mal conhece? Só quando lhe são colocadas este tipo de questões é que o utilizador comum se apercebe do valor da privacidade". Antes de clicar em ‘Share', lembre-se de que não sabe quem vai ler.

BILIONÁRIO ANTES DOS 30

O Facebook nasceu em Harvard, quando um grupo de estudantes universitários americanos criou um site de troca de mensagens entre colegas. Um dos fundadores, Mark Zuckerberg, tem hoje 26 anos e uma fortuna avaliada em 3,2 mil milhões de euros. Curiosamente, o seu perfil no Facebook não permite adicioná-lo como amigo. Mark explicou à revista ‘Time' a missão que o move: "tornar o Mundo um lugar mais aberto e conectado".

"A PRIVACIDADE PASSOU A SER UMA OPÇÃO" (Paulo Querido, especialista em comunicação on-line)

- Como podemos proteger a nossa privacidade em redes sociais como o Facebook?

- Aquilo que nós até aqui definimos como privacidade mudou com a vivência da internet. Dantes, a privacidade era admitida como um dado de partida - só as figuras públicas estavam mais expostas - mas agora o anonimato passou a ser uma opção. Tudo é público. Temos de ser nós a carregar no botão para mantermos os conteúdos protegidos da exposição pública. Essa é uma das novidades que nos trouxe o Facebook.

- É possível apagar o que já foi publicado, com a garantia de esses conteúdos não serem vistos?

- Há que responsabilizar o Facebook por manter perfis e por guardar toda a informação de pessoas que desactivaram as suas contas. Mas também é preciso que as pessoas tenham noção de que tudo o que se mete na internet pode sempre ser recuperado mais tarde. Existe sempre essa possibilidade.

- Daqui a 20 anos, vamos conhecer a juventude dos nossos governantes pelo que eles escreveram no Facebook?

- Certamente que sim, mas é preciso acabar com uma certa hipocrisia que ainda existe . Se vamos saber os excessos que eles possam ter cometido, eu pergunto, por exemplo, qual é o jovem que não bebeu uns copos a mais? Esse tipo de informações vai tornar-se banal e não deve ser empolado.

NOTAS

ADULTOS

As pessoas com mais de 34 anos representam 28 por cento dos utilizadores e são o grupo etário que mais tem crescido na rede.

PERIGOS

O Facebook só aceita utilizadores a partir dos 13 anos, mas é fácil ‘fintar' o sistema e inscrever uma criança.

BRONCAS

Baixas fraudulentas, insultos a colegas e patrões ou infidelidades são motivos frequentes de conflito.

CRÍTICAS

Perante o crescimento dos conteúdo tornados públicos, o Facebook simplificou medidas de restrição.

E-MAILS

Quando se inscreve na rede, o site procura possíveis ‘amigos' em todos os contactos de e-mail do utilizador. 

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