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Quem disparou no dia da revolução?

O 25 de Abril marcou as carreiras de vários repórteres fotográficos. Dois deles disputam agora a autoria das imagens
José Carlos Marques 28 de Junho de 2015 às 15:33
Retrato atual de um militar de Abril usou foto de Gageiro que não foi creditada
Retrato atual de um militar de Abril usou foto de Gageiro que não foi creditada

São duas fotografias que mostram protagonistas da manhã que mudou o destino do século XX português. Naquele dia 25 de Abril de 1974, José Clímaco Pereira estava ao lado de Salgueiro Maia, com as tropas revoltosas que tomaram o Terreiro do Paço. Carlos Baptista conduzia um dos carros de combate M47 que as (poucas) forças leais ao regime enviaram para travar os revoltosos na praça onde ficavam os principais ministérios.

Quarenta anos depois, os dois homens foram entrevistados e fotografados a segurar uma imagem de época para o livro ‘Os Rapazes dos Tanques’, do jornalista Adelino Gomes e do repórter fotográfico Alfredo Cunha. Mas a imagem que ambos seguram, em que se vê Salgueiro Maia ladeado de dois militares com carros de combate em fundo, foi erradamente creditada no livro, publicado no ano passado, como sendo da autoria de Alfredo Cunha, quando pertence a Eduardo Gageiro. Adelino Gomes assumiu que foi erro seu, mas tal não chegou para sossegar a guerra que estalou entre dois fotógrafos premiados. O caso do livro é  um dos pormenores de uma acesa polémica que só será resolvida em tribunal.

Em 1974, Eduardo Gageiro e Alfredo Cunha eram colegas de redação. Estiveram ambos a fotografar a revolução ao serviço da revista ‘O Século Ilustrado’ e tinham uma relação próxima. Agora são adversários em processos judiciais cruzados: Alfredo Cunha, de 61 anos apresentou queixa por difamação, cansado de ouvir Eduardo Gageiro, de 80 anos,  acusá-lo de ter roubado negativos das fotografias desse dia e fazê-las passar como imagens suas. Gageiro insiste que o material lhe foi roubado e também pede uma avultada indemnização por danos morais e patrimoniais.

Cabe agora à Justiça resolver o diferendo – foi noticiado esta semana que o processo transitou do Tribunal de Braga para o Tribunal de Propriedade Intelectual, em Lisboa, e o julgamento deverá começar em setembro.

Nenhum dos dois repórteres fotográficos quis comentar o caso à ‘Domingo’, até porque, dizem, o processo está em segredo de justiça. Mas a ‘Domingo’ apurou que as posições estão irredutíveis e que a margem para se chegar a um acordo que trave a disputa está esgotada. O caso vai mesmo a julgamento e um dos pontos fulcrais do processo será uma perícia feita aos negativos em disputa, para se apurar quem fotografou o quê.

Máquinas diferentes 

Nesta troca de acusações, a ciência tem palavra decisiva. A ‘Domingo’ sabe que Alfredo Cunha terá pedido uma perícia laboratorial para atestar a autoria das fotos, o que não será difícil de provar através de uma observação rigorosa. É que os fotógrafos usam desde sempre máquinas rivais – Cunha sempre usou material da Nikon e Gageiro optou pela Canon, os dois gigantes que dominam o mercado da fotografia profissional. Tal como cada pistola produz na bala que dispara marcas que são únicas e irrepetíveis, também as máquinas fotográficas analógicas marcam o filme de forma distinta, imprimindo no rolo a marca da janela do obturador. Tratando-se de máquinas fotográficas de marcas diferentes, será por isso relativamente simples perceber que máquina produziu um determinado negativo. Gageiro alega ter negativos e provas de contacto que atestam a sua autoria das imagens.

Rui Ochoa é outro dos fotógrafos que estiveram na rua em 1974 e toma partido nesta guerra. É testemunha de Alfredo Cunha. "Entendo a posição de Eduardo Gageiro como um retomar de vinganças antigas. Porque nenhum fotógrafo gosta que o seu nome apareça creditado em fotos que não foram feitas por si. Eu tenho a maior devoção pelo fotógrafo americano James Nachtwey e a última coisa que queria que acontecesse era que aparecesse uma foto dele assinada por mim. É uma questão de respeito do fotógrafo por si próprio". Ochoa explica que é muito normal que no 25 de Abril diferentes fotógrafos tenham feito imagens parecidas. "Estávamos todos ali, muitas vezes nos mesmos sítios, é natural que se repitam os motivos, mas claro que as imagens nunca serão exatamente iguais, uma distância de 10 cm entre as máquinas faz toda a diferença."

Ente os fotógrafos mais antigos, Eduardo Gageiro não colhe muitas simpatias. José Carlos Pratas, outro histórico do fotojornalismo português, começou a carreira em 1976 e guarda a mágoa de ter falhado o 25 de Abril: "Trabalhava  na altura em publicidade, foi uma pena." Mas cruzou-se várias vezes ao longo dos anos com Alfredo Cunha e Eduardo Gageiro e não tem dúvidas em apontar quem tem razão nesta guerra. "O Eduardo Gageiro julga-se o único fotógrafo do 25 de Abril e não lida bem com os sucessos dos outros. Tem inveja, não tenho problema nenhum em dizer que ele tem mau caráter. Nem percebo por que é que o Gageiro precisa de ter inveja porque ele é, sem dúvida nenhuma, o melhor de nós todos."

Outro ‘histórico’ que fotografou aquela manhã "clara e limpa", como lhe chamou Sophia, também aponta o mau feitio de Gageiro, um dos mais premiados fotojornalistas do País. "É uma pena, porque ele tem um talento raro", conta Inácio Ludgero. "Mas quando eu fui distinguido pela agência Associated Press, que considerou a ‘Pietá Negra’, foto que fiz em Angola em 1991, como uma das vinte melhores fotos do século XX, ele andou por aí a dizer que a foto era encenada. Esta polémica não me surpreende porque Gageiro é useiro e vezeiro em fazer acusações que não pode provar."

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